Estudo da Codeplan mostra o abismo financeiro entre pessoas de 18 a 29 anos, principalmente entre cidades como Estrutural e Sudoeste. Situação se reflete na formação educacional e no mercado de trabalho

Douglas Carvalho - Especial para o Correio , Pedro Grigori* - 14/12/2016 06:00 / atualizado em 14/12/2016 15:59

Shirley da Silva, 18 anos, mora na Estrutural: longe dos estudos desde os 13

Na rua onde vive a catadora de materiais recicláveis Shirley da Silva, 18 anos, na Estrutural, o asfalto dá lugar à lama. Além disso, uma chapa de madeirite improvisa um portão na casa de três cômodos que ela divide com seis irmãos, o filho de sete meses e os pais, com quem compartilha a função de garantir o sustento. Nos meses melhores, embolsam R$ 300 trabalhando no aterro sanitário da cidade. A 13km dali, no Sudoeste, a engenheira mecânica Júlia Lins, 25, tem realidade oposta: recebe quase 20 vezes mais do que a receita familiar de Shirley e mora em um apartamento com os pais, em uma das cidades com maior renda per capita.

O contraste socioeconômico entre elas ilustra o perfil dos 700 mil jovens, de 18 a 29 anos, do DF, traçado em pesquisa da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), em parceria com a Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude (Secriança). O estudo, elaborado nos últimos dois anos e divulgado ontem, considerou 31 cidades. E levantou outras desigualdades. Entre elas, a financeira. Enquanto a Estrutural — e o SCIA — abriga a menor proporção de jovens com salário superior a dois salários mínimos, 7%, o Sudoeste e a Octogonal concentram percentual 11 vezes acima: 82%.

O levantamento evidencia as discrepâncias em outros setores, como educação e trabalho. As regiões com as menores proporções de jovens com renda mensal superior a dois salários mínimos recebem também a maior parcela de quem não concluiu o ensino básico. É o caso de Shirley. Ela abandonou os estudos em 2011, aos 13 anos. “Tive vontade de sair da escola”, relembra. Aos 18, integra os 21% daqueles de 18 a 24 anos da Estrutural que não concluíram o ensino fundamental — só Paranoá e Varjão têm índice maior (23%). Shirley também se encaixa no quarto maior percentual de desocupação do DF, o da Estrutural e do SCIA: 29%.


Júlia ilustra os 100% de jovens de 25 a 29 anos do Sudoeste que finalizaram o ensino fundamental. “Não fui obrigada a estudar, mas apoiada a isso. Uniu-se o meu esforço ao investimento que os meus pais fizeram”, analisa a engenheira. Segundo ela, a favorável condição financeira da família quebrou algumas dificuldades. “Tive de abrir muitas portas com o meu próprio mérito, mas sei que teria de passar pelo dobro de obstáculos se não tivesse mais oportunidades”, reconhece.

O professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Sadi Dal Rosso salienta que o índice de jovens das cidades da periferia do DF que não concluíram o ensino fundamental é preocupante. “Se eles têm menos formação, sofrem com mais dificuldade no mercado de trabalho. Principalmente, para ascender a salários mais elevados”, avalia. Especialista em sociologia do trabalho, Sadi explica as maiores taxas de desocupação nas cidades mais afastadas. “O jovem tem um desafio a mais: o mercado olha a quantidade imensa de mão de obra e opta por quem tem experiência, o que ele não tem. Os mais pobres terão ainda menos, porque têm menos formação”, conclui.


O secretário adjunto do Trabalho, Thiago Jarjour, sugere o aprimoramento escolar dos mais novos para reverter a disparidade. “O jovem tem vantagem nas profissões do futuro, nas áreas de inovação e tecnologia, além de empreendedorismo. Só precisam de um pequeno impulso”, diz.

*Estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart

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