Por: Evan do Carmo, Correio Brasilia - 23/01/2016 13:15

Daniela Delias nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul, em 1971. Segunda de três meninas, filha de pai e mãe Técnicos em Contabilidade. Do pai, herdou o carinho por flores. Da mãe, a necessidade constante de ouvir música. Foi na música e na leitura de Mario Quintana, na adolescência, encontrou o desejo de escrever poesia. Guarda nas lembranças do avô paterno as imagens mais ternas de uma infância vivida à beira da Lagoa dos Patos. Aos treze anos de idade escreveu os primeiros rabiscos de poesia, mas os primeiros registros que foram guardados são de quando tinha 17 anos. Os escritos ficaram guardados por vinte anos. Apenas aos 36 começou a publicar em blog.

Em 2012, publicou seu primeiro livro de poesia, Boneca Russa em Casa de Silêncios, pela Editora Patuá. Em 2015, pela mesma editora, publicou Nunca estivemos em Ítaca, também de poesia. Tem poemas publicados no Livro da Tribo, em revistas literárias e nos blogs de poesia Sombra, silêncio ou espuma , Alice e os dias Céu de Cartão-Postal .

Daniela Delias também é psicóloga, e a partir do doutorado em Psicologia se tornou professora universitária. Trabalha atualmente na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e leciona disciplinas da área de Psicanálise e Psicologia do Desenvolvimento. Mora na Praia do Cassino, em Rio Grande, extremo sul do país.

Percebo que tens uma educação refinada, isto está implícito em tua poesia, nela se encontram alguns signos universais de cultura clássica, pelo menos é o que me parece. Acreditas que esta tua educação superior contribuiu de alguma forma para aprimorar a tua sensibilidade e o desenvolvimento de tua poesia?

Quando penso na minha educação, as referências que primeiro me ocorrem não têm relação direta com a formação acadêmica que tive, embora a considere muito importante nessa trajetória. Eu fui uma criança muito introspectiva, que trocava facilmente a possibilidade de estar em contato com muitas pessoas pela quietude de estar em casa, com a família. E a nossa casa era um lugar de pessoas bastante silenciosas, cercadas de sensibilidades. Havia muita música, muito tilintar de agulhas da mãe fazendo tricô e crochê e da avó costurando roupinhas de boneca, bem mais que livros. Lembro sempre do meu avô mostrando joaninhas e pitangueiras, contando histórias, levando a gente para o banho na lagoa. Do meu pai dizendo que precisávamos estudar, e que a coisa mais importante para ele era que nos gostássemos, eu e minhas irmãs, que nos quiséssemos bem. A maior parte das imagens que estão presentes nas coisas que escrevo remetem a esse mundo, creio. As leituras que vieram depois talvez tenham se somado a essas experiências infantis, incluindo também os momentos difíceis. Tenho a impressão de que na psicologia e nas psicoterapias que vivi como paciente ou como terapeuta pude estar ainda mais perto desse mundo infantil e dos afetos que fui construindo ao longo da minha vida. Trabalhar com a escuta do outro tem me permitido desenvolver constantemente a empatia. Ouvir histórias de vida ao mesmo tempo em que penso sobre a minha talvez tenha contribuído no sentido de poder identificar e escrever sobre coisas que, mesmo subjetivas, de alguma forma dizem respeito a muitos de nós.

Sobre o teu livro Boneca Russa em Casa de Silêncios, de onde tirastes esta inspiração para dar rosto à tua obra? Tem alguma relação simbólica com o significado russo e origem?

A “casa” sobre a qual falei antes parece ser um tema recorrente no meu imaginário. Uma casa que carrego comigo, seja onde for que esteja morando. Leonardo Mathias, que fez o projeto gráfico do Boneca Russa em Casa de Silêncios, apresentou – através do editor Eduardo Lacerda (Editora Patuá) – uma arte para a capa que me encantou desde o primeiro momento: uma mulher sem rosto com uma caixa sobre a cabeça. O desenho não foi feito especialmente para o livro, já estava pronto, mas parece ter se encaixado com perfeição à ideia do livro. Eu havia escrito um poema que tinha entre seus versos: “eu estava aqui dentro, você me ouvia? /boneca russa em casa de silêncios/ antes do verbo, dentro da carne/ meus tambores apontavam a direção”. Quando o escrevi, pensava exatamente na imagem de uma matrioska, carregada de dentros, sobre o quanto ela dizia de mim, minhas casas, meus silêncios. Creio que essa foi a tônica do livro.

Tu és gaúcha, então que importância e responsabilidade tem Mario Quintana em tua poesia?

Apontamentos de História Sobrenatural, publicado por Quintana em 1976, foi o primeiro livro de poesia que li. Imagine: “O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos/ E foi morrer na gare de Astapovo! / Com certeza sentou-se a um velho banco, / Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso/ Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,/ Contra uma parede nua…/ Sentou-se…. e sorriu amargamente”. Eu era uma guriazinha e não tinha a menor ideia sobre quem era Leon Tolstoi, mas as imagens bastaram para, com um único poema, criar um cenário interno riquíssimo. Assim aconteceu com os demais poemas que lia. Hoje, quando leio meus primeiros escritos, vejo que tentava imitá-lo de alguma maneira. Certa vez, ele escreveu: “Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez? ”. É com o mesmo espanto de menina que ainda o leio e identifico nas coisas que escrevo o desejo de dizer da estranha dimensão das coisas pequenas, como os sons de um relógio ou o mundo-dentro de um porta-retratos. Depois dele vieram outros poetas que admiro muito, e com os quais me identifico até mais. Mas é muito bom tê-lo ainda como companhia.

Uma pergunta para a psicóloga: Freud é ou não é uma fraude como médico da alma?

Meu primeiro contato com a obra de Freud foi no primeiro período da graduação em Psicologia, há vinte cinco anos. Para mim é uma experiência bem diversa pensar no que compreendia de sua leitura quando tinha cerca de vinte anos de idade e agora. Eu penso que a invenção da psicanálise foi um evento genial. Falar sobre a relação infância-sexualidade quando não se era permitido dizer muitas coisas a respeito foi algo corajoso. Da mesma forma, dizer que não somos senhores de nossa própria morada, por conta da centralidade da ideia de inconsciente, também. Alguns textos que trazem discussões sobre o desamparo humano e a religiosidade são, para mim, formidáveis. O que tenho dito em sala de aula, quando o discutimos, é que seu texto precisa ser pensado dentro de um contexto histórico-cultural, como todas as coisas. Mas não raras vezes suas ideias são reproduzidas a partir de leituras superficiais ou descontextualizadas, daí dizer que se trata de uma fraude frente à possibilidade de se pensar a existência e o sofrimento humano através de caminhos que não considerem a importância da palavra da maneira como ele o fez. Penso que se Freud estivesse vivo e produzindo estaria (ainda) preocupado com questões como o narcisismo e com nossos adoecimentos a partir das urgências de felicidade que se colocam atualmente. Penso que talvez pudesse fazer leituras mais contundentes sobre a feminilidade, por exemplo, e sobre as relações sociais, como têm feito importantes psicanalistas de nosso tempo. Muitas psicanálises vieram a partir da leitura de Freud, muitas escolas de pensamento com diferentes orientações. De todo modo, não há perspectivas teóricas em psicologia que me encantem mais que aquelas que surgiram a partir das teorias psicanalíticas e do existencialismo. Talvez por essas aproximações com a filosofia, a antropologia e a literatura, e por dizer bastante à minha experiência pessoal.

Sobre o teu processo criativo: Em que momento da alma é que a tua poesia vem à tona, e se materializa em signos, em letras?

Não há um momento ou estado de espírito que eu possa definir como “aquele” em que geralmente escrevo. O que posso dizer é que meu processo criativo é exaustivo, e que envolve uma mistura de inquietação, leituras de outros autores, música, silêncio, chá e melancolia. E que ele só é possível quando estou em casa. Nunca consegui escrever um poema em um guardanapo (risos). Às vezes fico semanas sem escrever, meses. E nenhum poema ocorre rapidamente, como uma psicografia em que eu fechasse os olhos e ele acontecesse todo de uma vez. Geralmente começa por uma imagem mental, como uma fotografia. Quando falo em “imagem”, nesse caso, me refiro também a um afeto, ideia ou palavra. Essa representação vai aos poucos se ligando a outra até formar um verso. Há também uma relação com a sonoridade, uma busca de um jeito de dizer que pudesse fazer com que as palavras dançassem, minimamente. Então, é um pouco isso: uma fotografia, uma dança. Demoro a encontrar o foco, demoro a acertar o passo. Mas enquanto não acontecer, a tal ideia não me abandona. Daí a exaustão.
O poeta é um fingidor, ou é apenas um tolo sonhador, que acredita naquilo que ninguém crê?
Penso que ele talvez seja, muitas vezes, uma criatura empática, que consegue se colocar em lugares que não necessariamente esteve, mas pode dizê-los de alguma forma. Certa vez, escrevi um poema a um amigo com quem tenho longas conversas sobre empatia. O texto foi escrito a partir do impacto da leitura sobre a morte de quatro meninos em uma praia na Faixa de Gaza, bombardeados por um navio enquanto jogavam futebol. Um dos versos deu o nome ao meu segundo livro, “Nunca estivemos em Ítaca”. É isso: nunca estivemos em muitos lugares e, ao mesmo tempo, estamos irremediavelmente mergulhados neles por uma conexão com os nossos diferentes afetos. Não é necessariamente fingimento ou sonho. É algo de desejo e inquietação.

Tua vida mudou depois que publicastes teu primeiro livro?

Minha vida muda todos os dias porque as coisas se movimentam o tempo todo. Nesse sentido, muitas coisas mudaram de 2012 para cá. Mas não penso que tenha uma relação maior com a publicação. Algo bom sobre isso é que de lá para cá conheci muitos escritores, músicos, leitores, pessoas sensíveis que têm o mesmo carinho pela arte, e isso só me trouxe coisas boas. Internamente, sim, reconheço muitas mudanças. Tenho sido mais cuidadosa com a palavra, tenho prestado mais atenção às pessoas e coisas. Tenho tentado ouvir mais, inclusive a mim.

Tu publicas por conta própria, ou em parceria com a editora?

Eu tenho 3 blogs que servem como uma caixinha de guardados para os meus poemas, e em dois deles publico regularmente. Com a Editora Patuá tive a parceria dos dois livros, Boneca Russa em Casa de Silêncios (2012) e Nunca estivemos em Ítaca (2015). Tive algumas publicações em revistas eletrônicas, como Mallarmargens, Germina e Diversos Afins, e contribuo com poemas em alguns sites, como o Escritoras Suicidas e o Zonadapalavra. Além desses projetos, há também o Livro da Tribo, a agenda anual na qual tenho publicado desde 2012.

Como foi a recepção do teu livro no meio acadêmico? Teus alunos leem tua poesia, e compram teus livros?

Meus colegas e alunos são muito queridos e generosos. Alguns têm mais afinidade que outros com a leitura e escrita de poesia, e são os que se mostram mais interessados em acompanhar as publicações online, e também na compra dos livros. Muitos escrevem lindamente, e temos trocas muito interessantes. Minhas aulas sobre infância e psicanálise, de alguns anos para cá, têm se caracterizado cada vez mais pela intersecção com arte e literatura. Os alunos são grandes parceiros.

Sobre a cultura do brasileiro, no que tange à poesia: Como vês a divulgação de literatura nas redes sociais? É possível atingir esta geração de facebook?

Seguidamente me vejo pensando sobre isso. Com frequência as visitas ao Facebook me desencadeiam ansiedade, creio que pela velocidade com que as informações aparecem, seguidas de comentários que, na maior parte das vezes, são escritos sem um tempo necessário de reflexão. É tudo muito urgente. E muito passageiro. A velocidade com que as coisas aparentemente importantes se tornam desimportantes é assustadora. Mas há outro lado: alguns encontros se tornam possíveis. Bons encontros, como, por exemplo, os que ocorrem entre leitores/escritores de poesia. Eu sou uma leitora virtual incansável. Leio muitos poemas publicados no Facebook, e termino a leitura de muitos deles agradecendo mentalmente a existência dessa ferramenta. Há alguns autores que, por conta das belezas que produzem, me fizeram ter certo ritual diário: acordar, preparar a xícara de café e buscar o que escreveram. Essas pessoas que leio com tanto prazer estão presentes em meu segundo livro, de várias formas: porque os leio e porque me inquietam, escrevo. Somos esta geração de Facebook, mesmo que tenhamos jogado bolinha de gude na frente de casa anos atrás. Estamos muito atrelados às redes sociais. Desejo que muitos usuários possam sentir-se atingidos pela escrita como eu me sinto, seja ela em livro ou nestas plataformas.

Poemas de Daniela Delias

AGULHAS

nos dedos de minha mãe
é que as horas desdobravam
os silêncios mais sentidos

não que eu quisesse cantar
porque nos dedos de minha mãe
eu também ia e vinha

basta agora uma canção amarrotada
ou um suave e metálico tilintar de agulhas
e eu alimento os relógios antigos

 

OLARIA

eu falava sobre o amor
rumor de assombro e leveza
palavra plena palavra ausência
o barro antes das mãos

foi quando vi meu avô oleiro
a água compondo a massa
o fogo contendo a água
as casas tomando forma

eu falava sobre você e o amor
e os olhos de meu avô alfarero
o barro forjado dentro
o tempo antes das mãos

 

PARTES

toma a palavra exército
põe devagar entre os dedos
dobra em pequenas partes

há uma guerra, eu sei
frotas falanges incêndios
(a horda insiste, devastada)

não somos o inferno, meu bem
só essa caixa de guardados

Os livros podem ser adquiridos pelo site da Editora Patuá ou diretamente com a autora pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Wasny possui mais de 100 leis distritais aprovadas durante seu período na Câmara Legislativa

PORTAL POLITIQUÊS - 25/01/2016 - 23:56:59
 

Wasny Nakle de Roure nasceu em Goiânia (GO) em 10 de maio de 1951 e mudou-se para Brasília em 1959. Foi técnico da Conab, onde iniciou a trajetória política como presidente da associação de servidores. Além disso é mestre em economia pela UFMG e Universidade de Oxford, Inglaterra.

Na área pública, foi eleito deputado distrital pela primeira vez em 1990 e posteriormente foi secretário da Fazenda no governo Cristovam. Em 2015 elegeu-se para atuar no seu 5º mandato de deputado distrital, além disso atuou como deputado federal pelo Distrito Federal.

Wasny possui mais de 100 leis distritais aprovadas durante seu período na Câmara Legislativa. Em entrevista exclusiva ao Alô Brasília, o parlamentar afirma que faz parte da oposição ao governo e que possui um compromisso com a cidade.

Qual balanço o senhor faz do primeiro ano de mandato?

2015 ano muito difícil, em que o governo foi pressionado pelos compromissos de despesas, sobretudo, de caráter de pessoal, em função de reestruturação de várias carreiras pelo governo anterior, como também a contratação de aproximadamente 35 mil servidores, principalmente na área da saúde e da educação. O governo, ao mesmo tempo que recebeu esse conjunto de despesas, também obteve obras a serem entregues neste ano, as quais foram encaminhadas pelo governo anterior, que agrega edifícios para moradia popular, creches para população na rede educacional como obras públicas de rodovias ou medidas que haviam sido iniciadas no período anterior. Então, do ponto de vista político, foi um ano em que se esperava que o governo local definisse o projeto político que ele apontava para a cidade, do ponto de vista de prioridades e, ao mesmo tempo, quanto a base política para a sustentação das propostas. Infelizmente não ocorreu nenhum dos dois. Estamos vivendo um quadro de muita incerteza, apenas o Partido dos Trabalhadores (PT) tem se definido como uma sigla de oposição ao atual governo do Distrito Federal.

Qual é sua relação com o Executivo?

Nós precisamos ter a ideia de que fazer oposição é um instrumento que fortalece a democracia e a transparência, pois, temos um compromisso com a cidade. Esse compromisso é traduzido com as responsabilidades que nós temos de apontar e é assim que temos realizado, seja com aquilo que possa possibilitar receita sem representar ônus para a população ou com o fortalecimento de conquistas no âmbito de direitos do cidadão. Estamos trabalhando com essa perspectiva.

O senhor trabalha em prol do MUPI (Movimento pela UnB no Paranoá e Itapo?), que prevê a instalação de um campus da UnB nas regiões. Acredita que o novo campus seria possível?

Esse projeto esteve na criação do Parque Paranoá que disponibilizou, além de áreas para construção dos prédios de moradia, um conjunto significativo de unidades imobiliárias para a área da educação e outros equipamentos públicos. Dentre essas áreas, disponibilizou-se um espaço com 41 mil metros quadrados para o polo da UnB no Paranoá. É um tamanho expressivo, e nós acreditamos que a implantação desse polo a UnB precisa de recursos no orçamento, que venha viabilizar o projeto urbanístico para a área. Além disso, o Governo do Distrito Federal precisa formalizar a transferência dessa área.

Aprovou-se a sua lei que destina no mínimo 3% da receita do GDF para a educação superior da rede pública do DF. Como essa porcentagem pode fomentar a área da educação superior?

O montante é para o ensino superior no Distrito Federal ordenado pela Secretaria de Educação, ou a secretaria que o governo entender que é a mais adequada para a gestão desse recurso. Mas o percentual de 3% no orçamento da receita corrente líquida é um recurso destinado ao Ensino Superior de responsabilidade do GDF, a exemplo da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS). Isso pode fazer com que os nossos estudantes deixem de ir para municípios aos arredores de Brasília e se matricularem na rede pública de ensino superior nos cursos que venhamos ter condições de implantar na cidade. Podemos, inclusive, fortalecer um sistema de convênio, tanto com o Instituto Federal de Brasília (IFB), como com a própria UnB, no sentido de ajudar na implantação dessa nova universidade pública no Distrito Federal. Há muito espaço para ser desenvolvido no Distrito Federal, no ponto de vista da variedade de cursos. Então, há uma necessidade de formatação disso, a partir da criação desse núcleo base. O GDF transferiu a área do ensino superior para a Secretaria de Ciência e Tecnologia. Naturalmente, a secretaria possui a pauta e tem uma subsecretaria que recepciona esse processo. Eu acredito que o governo, tão logo possa ter condições de ampliar os projetos de políticas públicas, venha encontrar nessa alternativa uma possibilidade que já vem sendo pavimentada há algum tempo na nossa cidade.

O senhor deu um alerta ao governo sobre a perda com o Fundo Constitucional do Distrito Federal. Que perdas são essas?

O que vem acontecendo em 12 anos de execução do Fundo Constitucional do Distrito Federal é um processo de descaso na gestão por todos os nossos governantes. Primeiramente no procedimento de cálculo feito, pois já se identificaria um erro que representa, no período de 12 anos, um montante na ordem de R$ 1 bilhão e 200 milhões, esses recursos fazem falta para o Distrito Federal. Mas deveríamos revisar o cálculo anual que é realizado e que no de 2015 representou uma perda de R$ 128 milhões. Neste ano teremos uma perda no Fundo Constitucional de R$ 382 milhões e isso decorre da queda da Receita Corrente Líquida. Se o GDF conseguisse convencer a União da necessidade da correção, aliviaríamos um pouco a magnitude da perda de 2015. Nós fizemos uma sugestão para o governo para que se remanejasse as sobras do custeio, como também no investimento na área da segurança. É importante perceber isso, porque esse montante geraria em torno de R$ 150 a R$ 180 milhões e isso poderia servir para aliviar a folha de pagamento da educação e da saúde. O governo está propondo para este ano um incremento superior a 10% na segurança. E isso significa que o governo vai reduzir drasticamente os recursos da área da educação e saúde, esta seria uma forma de contemporizar a perda. Isso demonstraria uma perda menor na área da educação. Felizmente, o governo negociou com a União um remanejamento de R$ 109 milhões.

Também foi aprovado duas emendas que estabelecem maior transparência nas contas públicas, através da Comissão de Economia, Orçamento e Finanças (CEOF) da Câmara. Como isso impacta na prática?

Toda transparência fortalece a gestão, não apenas proporciona maior credibilidade ao Estado, como também fortalece quem gerencia a escassez, sobretudo tendo a informação com o devido detalhamento, ou seja, possibilitando a transparência, mas também com um arcabouço de dados que te permite gerenciar. Nós tivemos um crescimento na arrecadação em 2015 de 5 a 8%, mas que será ligeiramente inferior, ou batendo na inflação. Então, na essência, não vai haver uma queda da arrecadação em relação a 2014, mas houve uma queda em relação ao que estava previsto. Quanto a este ano, há um incremento na arrecadação, previsto em função de várias medidas que o governo está adotando, principalmente na receita do ICMS.

Como o senhor avalia a questão das greves das categorias e a questão da suspensão dos reajustes? Acha que os sindicatos podem fazer maiores movimentações por conta disso?

O governo tem prerrogativas e definiu a suspensão dos aumentos. Não há previsão para que o governo defina isso nas negociações e no decorrer deste ano. A pretensão do governo era realizar isso em 2017 e não em 2016. Essa é uma definição que teremos ao longo desse ano. Há um quadro de insatisfação muito grande, mas o que mais me preocupa nesse momento é a falta de professores, de servidores na saúde e de alguns outros segmentos. A reposição de mão de obra, dos que estão saindo do serviço público ou estão se aposentando trará um sério prejuízo à sociedade.

Qual sua avaliação do ICMS? Acha que ele onera a autonomia do cidadão?

O grande problema do tributo é ele ter clareza de como incorporar isso na disparidade da distribuição de renda da população. Quem menos deveria pagar imposto é a população mais pobre e, quem mais deveria pagar, é a população rica. Entretanto, o nosso sistema, nesse sentido, não internalizou esse processo e possui sérias dificuldades para realizar a diferenciação. Pontualmente, existem produtos básicos, um ICMS menos, mas não existe uma política de transferência de renda via tributação.

Na Comissão de Educação, Saúde e Cultura, o último item ficou em segundo plano na durante esse ano. Qual a perspectiva da Cultura para 2016?

Estamos preocupados porque o governo quer continuar fazendo o remanejamento dos recursos do Fundo da Cultura e continuar dando a reposição conforme fez em 2015. Isto está sendo estimado em torno de R$ 78 a R$ 80 milhões, um montante considerável para a área da cultura. Ainda, não se deu nenhuma perspectiva de execução de emendas. Então, não estou muito otimista com as ações do governo na área de cultura, pelo contrário, estou bastante preocupado, um motivo pelo qual eu votei contra o remanejamento dos recursos. Acredito que a Comissão deverá trabalhar essa pauta. Inícialmente priorizamos a área da educação, mas ela deve ampliar na área da saúde e creio que nesse semestre deverá ter ampliação na área da cultura. Temos projetos dos deputados, mas não temos muita coisa na área governamental.

Foi aprovado seu projeto do “Parto Humanizado”, que estabelece melhor tratamento das gestantes durante a gravidez e no parto. Qual a importância dessa proposta?

Vai ser necessária a contratação de servidores especializados nesses casos?

O parto humanizado é um procedimento que o Ministério da Saúde tem construído com a rede pública pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Possibilita-se a participação dos pais, não apenas da parturiente, mas como o próprio pai, dando um clima mais familiar ao nascimento da criança. Há também a participação da doula, que acompanha a gestação da criança e que pode possibilitar maior segurança à mãe, ajustando a rede pública para a recepção e apoio a esse procedimento que é crescente no Distrito Federal, uma reação à cesariana, que foi implantada no país. A lei veio publicizar, fortalecer e estimular a rede pública local no sentido dela estar mais preparada a esse tipo de parto.

Quais são as prioridades para o seu mandato?

Nós queremos continuar concentrando na área da educação, que é uma área estruturante no Distrito Federal. Também presseguiremos com debates das finanças, como também queremos contribuir no debate de terras do DF, que é algo mais inerente a natureza da cidade. Na área da saúde o grande problema do pleno funcionamento, principalmente dos programas que atendem à população com vulnerabilidade de saúde, como também a ampliação de alguns projetos, como o Hospital do Câncer, e as reformas na rede pública hospitalar, porque é uma área bastante defasada.

Fonte:Sarah Peres e Danilo Queiroz, Alô

Carlos Fernando acha que MP da Leniência e lei de repatriação de recursos têm ‘dedo do governo’ e beneficiam corruptos

POR RENATO ONOFRE/THIAGO HERDY/PEDRO KIRILOS / AGÊNCIA O GLOBO - 23/01/2016 - 08:19:38
 
O procurador da Lava-Jato Carlos Fernando dos Santos Lima, de 51 anos, identifica “dedo do governo” na edição de medidas que, segundo ele, beneficiam investigados da operação. Ele cita as mudanças nas regras de leniência e na repatriação de recursos ilegais no exterior. A MP 703, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, em dezembro, permitiu à Advocacia Geral da União (AGU), ligada ao Planalto, negociar diretamente acordos com empresas acusadas de corrupção. Outra lei sancionada por Dilma na semana passada facilitou a repatriação de recursos mediante pagamento de multa.

Em entrevista ao GLOBO, realizada ontem em São Paulo, Lima também criticou declarações dadas ontem por Dilma. Ao jornal “Folha de S. Paulo”, a presidente afirmou que “há coisas que não acha corretas” na Lava-Jato, como os vazamentos de trechos das delações premiadas, e que há “pontos fora da curva” na investigação “que têm de ser colocados dentro da curva”. Segundo a presidente, é “impossível” alguém ser questionado (durante interrogatórios) com base no “diz que me diz”. Para Lima, a Lava-Jato só é ponto fora da curva quando aponta o “caminho da punição para quem cometeu crimes” e não caberia ao Ministério Público “vestir a carapuça” quanto à crítica sobre vazamento de informações sigilosas da operação.

A lei de repatriação e a MP da leniência representam um risco para a Lava-Jato?

Sim. Sempre soubemos que, a longo prazo, as elites vão se compor de maneira a reduzir prejuízos que tiveram nessas operações. É o caso das legislações que vêm a posteriori. A MP 703 (que permitiu à CGU fazer acordo de leniência) e a lei da repatriação (que permite trazer recursos para o Brasil mediante pagamento de multa) são exemplo disso. A repatriação vem sendo falada desde o caso Banestado. É uma medida para socorrer as elites.

Que tipo de recado passa a aprovação desse tipo de medida?

Como diz o Dr. Deltan (Dallagnol, outro procurador da Lava-Jato), a corrupção é uma questão moral, mas também econômica. (As medidas) passam o recado de que este é um jogo que vale a pena ser jogado. Vale a pena ser corrupto no Brasil porque, ao final, nossa Justiça é lenta, nossos processos são intermináveis e, além de tudo, se nada disso der certo, você vai no governo e resolve o problema com uma nova lei.

Vê o dedo do governo nessas ações?

Sim. A urgência da MP da leniência só existe para evitar a aplicação de inidoneidade contra as empreiteiras. Elas têm muito a falar sobre o próprio governo. Portanto, tem dedo do governo, tanto na repatriação, quanto nessa MP. E pior, nós já sentimos no Congresso uma tentativa de estender isso aí para uma anistia. A repatriação já tem uma anistia incluída nela, e o governo está tentando incluir uma anistia de corrupção. O que é, no final das contas, contra qualquer sentido de um país que se comprometeu a combater a corrupção. Há um ano estamos bloqueando a CGU de fazer acordos a granel, agora ela está autorizada por lei.

Por que a repatriação é prejudicial?

Você está dizendo para a população que vale a pena fazer isso (mandar recursos para o exterior ilegalmente), que no futuro haverá uma opção indolor para resolver isso: no caso, uma mera tributação. Você vai pagar uma multa, não vai ter sanção criminal, que é o que assusta as pessoas. Essa é a principal mensagem: você pode mandar para o exterior dinheiro irregular, nós vamos resolver. Em diversos momentos, quando se tentou processar criminosos, houve uma intervenção do governo de modo a beneficiá-los. E quem se beneficia? Elites. E o discurso é sempre do medo. “Isso é um risco sistêmico, vai dar quebradeira”, eles dizem. Colocam o medo no coração do trabalhador como se ele fosse o prejudicado. Ele é prejudicado quando a corrupção acontece, quando o dinheiro sai do Brasil irregularmente, quando você deixa de pagar tributos.

A presidente disse que não é correto o vazamento de trechos de delações e que há “pontos fora da curva” a serem corrigidos nas investigações. Qual é a opinião do senhor?

Eu não vi o pronunciamento da presidente, mas acho que não cabe ao Ministério Público vestir nenhuma carapuça quando se faz esse tipo de afirmação. Sobre os vazamento, ela está dizendo que foi o MP? Existem vários atores neste processo que podem ser a origem de vazamentos.

E há “pontos fora da curva”?

Há pontos fora da curva, porque no Brasil não se pune. A Lava-Jato é um ponto fora da curva porque está tentando efetivar o processo penal. Se essa é a afirmativa, eu concordo com ela. Agora, se é reclamação de qualquer violação de direitos, não concordo. Tivemos mais de 700 habeas corpus e recursos julgados, nem 10% foram concedidos, acho que nem 1%. A Lava-Jato está fazendo com que o Brasil tenha um caminho da punição para quem cometeu crimes.

Dilma repete o discurso do PT, que diz haver um excesso de delação...

Ao contrário, temos um uso muito parcimonioso. Nós usamos a delação para o mesmo assunto uma ou duas vezes, no máximo. Os diversos acordos aumentaram o campo das investigações, mas os fatos são tantos que o número de colaboradores é imenso. O primeiro acordo de (Alberto) Youssef revelou um tipo de corrupção. Paulo Roberto Costa (ex-diretor da Petrobras) revelou o âmbito (onde ocorreu). Um acordo com outro colaborador tem que revelar fatos totalmente novos, fora confirmar talvez que ele tenha participado dos fatos anteriores. Então, essa crítica não é verdadeira, nem justa.

Rollemberg resiste a pressões e diz que nenhum governo foi tão rigoroso no combate à grilagem

POR EDUARDO BRITO, MARINA CARDOZO E FRANCISCO DUTRA - JORNAL DE BRASÍLIA - 06/01/2016 - 10:58:43


A regularização do solo permanecerá como umas das tônicas do governo de Rodrigo Rollemberg. Segundo o governador, em entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília, as ações de combate à ocupação desordenada do solo seguirão em frente em 2016, a despeito das pressões políticas e econômicas deflagradas contra a Agefis. Neste sentido, o Palácio do Buriti deverá encaminhar para a Câmara Legislativa do DF novos projetos do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB) e da Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos). A meta de Rollemberg é conseguir a votação das matérias até o final deste ano. Em relação aos servidores públicos, após um 2015 marcado por greves severas de várias categorias, o governador prometeu pagar os salários em dia. 

O governo prometeu derrubar as invasões e punir os responsáveis. Mas as invasões ainda continuam. O que a cidade pode esperar para 2016?

Eu tenho a convicção de que nenhum governo foi tão rigoroso no combate à grilagem e ocupação irregular do solo como o nosso tem sido. Não é uma tarefa fácil, até porque, a cultura da invasão em Brasília está instalada desde 1960. Agora, nós atuamos fortemente. E foi graças a essa atuação, que nós, hoje, podemos iniciar as obras do Sol Nascente e Vicente Pires, reorganizando as cidades. Era uma condição, inclusive, imposta pelo Ministério Público e pela Justiça e pela Caixa Econômica Federal, que só pagava se a gente efetivamente implementasse o projeto. Então nós fomos muito firmes. Por outro lado, estamos desobstruindo a Orla do Lago Paranoá e já começamos a recuperação dessa área. Isso está avançando e a população vai sentir o resultado ao longo do ano.

A Agefis vem sofrendo pressões para suspender as derrubadas. O governo vai ceder? 

Não. Não vamos ceder. A Agefis tem um papel importante na organização da cidade. É claro que a gente tem que estar permanentemente avaliando os instrumentos e procedimentos e fazer com que eles estejam articulados com a política do Distrito Federal. Por exemplo, nós fizemos uma ação no final do ano passado que eu considero muito bem sucedida, sem qualquer tipo de violência, repressão. Que foi organizar o centro da cidade, a Rodoviária, o Conjunto Nacional. E isso foi feito em uma ação preventiva que reuniu vários órgãos. O que garante o sucesso no objetivo sem qualquer tipo de enfrentamento. Então esse tipo de coisa a gente pretende fazer. E o objetivo é fazer com que as pessoas não construam em área irregular.

O senhor pretende dar celeridade para o PPCUB e a Luos?

Sem dúvida. Esse debate a cidade tem que fazer de forma tranquila, serena, profunda, generosa. Nós não podemos deixar de fazer. É importante que a gente tenha um PPCUB que possa refletir a nossa preocupação com a preservação de Brasília como patrimônio cultural da humanidade. Porque essa é a “galinha dos ovos de ouro”. O fato da gente ser patrimônio cultural da humanidade e tirar partido disso como cidade turística, do Turismo Cultural, de Eventos, Cívico. Com a compreensão que a cidade é um organismo vivo. Aqui é muito claro que o que é tombado em Brasília são as escalas. A escala residencial, a escala monumental, a escala gregária e a escala bucólica. É possível, necessário e inteligente garantir a preservação dessas escalas. E fazendo isso em um debate muito franco, muito tranquilo com o conjunto da população. E a Lei de Uso e Ocupação do Solo é fundamental para regularizar atividades que hoje já acontecem, que o dinamismo da cidade produziu e que hoje se encontram, digamos em uma ilegalidade. Não. Se encontram em uma informalidade e que precisam estar formalizadas. 

Os projetos voltarão para a Câmara Legislativa neste ano?

Sim. Vamos iniciar o debate, imediatamente, neste semestre, e encaminhar a proposta para a Câmara Legislativa. Espero não apenas encaminhar, mas aprovar, tanto o PPCUB como a Luos, ainda neste ano. 

A Lei do Silêncio tem sido uma das grandes polêmicas do DF. Qual é sua avaliação?

A avaliação é que nós temos um conflito instalado, que precisa ser mediado e que tenha uma solução de bom senso. A cidade precisa de música, entretenimento, lazer. Essas atividades geram satisfação pessoal, empregos. São fundamentais para o turismo. E as pessoas também, a partir de um determinado momento, quando chegam nas suas casas têm direito ao descanso. Eu acredito no bom senso. Que a cidade tenha a capacidade, através do governo, da Câmara Legislativa, dos setores organizados, sejam eles representativos dos empresários, músicos e moradores, de construir uma solução intermediária, que permita uma convivência pacífica. Esse problema está presente em todas as grandes cidades do mundo e nós temos que aprender com experiências bem sucedidas como é que esses problemas foram mediados e os conflitos minimizados, em função de políticas públicas adotadas pelos governos.

Mas diversos bares estão fechando e muitos foram autuados em ações de fiscalização.

No meu entendimento, nós temos que caminhar para o entendimento que ações como essas sejam feitas só em casos extremos. E que sejam exceção e não a regra. Eu sou uma pessoa que na minha vida toda investi no diálogo. Acredito que na capacidade de diálogo e de construir soluções através do diálogo.

A população ainda sofre com a falta de ônibus e as falhas do sistema de transporte público. O que será feito?

Veja bem, nós temos um modelo que foi licitado. Ele precisa ser aperfeiçoado e tem muito o que ser aperfeiçoado. Primeiro na racionalização das linhas. Nós temos um número muito grande de linhas. Não tem sentido. A racionalização permite o barateamento do transporte. A gente tem tarifa zero para estudante, idoso e para pessoas com deficiência. Estamos fazendo o recadastramento para os estudantes, porque há a percepção de que possa estar acontecendo o uso inadequado. Todo esse processo de racionalização está sendo feito. A integração é importante e presente em todas as capitais avançadas. O que é importante é que ela funcione adequadamente. E que a pessoa gaste pouco tempo entre uma linha alimentadora para uma linha tronco, principal. E o que é fundamental é que ela tenha informação adequada. Isso está previsto no edital e tem que ser implementado. Eu tenho convicção que nós vamos melhorar o transporte neste ano. O bilhete único vai sair do papel. Nossa expectativa é até o final deste ano.

Saúde é o grande desafio do governo?

A Saúde é o grande desafio de todos os governos hoje no País. Primeiro, há o problema do subfinanciamento da Saúde. Por outro lado, nós temos em Brasília um mercado privado bastante forte, atraente. Então, embora nós tenhamos a melhor remuneração, muitas vezes o profissional passa em concurso, mas prefere trabalhar na rede privada ou quer escolher a sua carga de plantão. Temos vários outros problemas de medicamentos, insumos de manutenção de equipamentos. No ano passado, nós iniciamos com um déficit orçamentário muito grande. Você tinha dificuldade de iniciar um processo licitatório. A partir desse ano, a tendência é melhorar esse serviço. Mas ainda é muito difícil. Porque são milhares de itens que tem que estar ao mesmo tempo prontos para que os procedimentos possam acontecer. Nós temos problemas estruturais que vem de governos anteriores. É um grande desafio.

Qual é o caminho do PSB paras as próximas eleições?

O PSB tem três governadores, tem 34 deputados, sete senadores. É um partido que tem tradição histórica, que dialoga com todas as forças políticas e pode contribuir para construir alternativas para sairmos da crise. Em relação as eleições municipais, nós devemos manter a nossa estratégia dos últimos anos. Lançar candidaturas próprias na maior parte dos municípios, principalmente nas 200 maiores cidades brasileiras. Em relação a 2018, ainda é muito cedo para dizer qual será o papel do PSB. Acho difícil hoje o PSB ter uma candidatura própria com os quadros que nós temos hoje. Mas, daqui para 2018, muita coisa pode acontecer e o PSB pode ter algum candidato que se viabilize e que possa oferecer, em uma eleição de dois turnos, uma alternativa para o país. Eu diria que hoje o maior desafio do PSB é conseguir construir uma unidade em torno de objetivos comuns que possam melhorar o cenário econômico nacional e, consequentemente, possa melhorar o cenário político e criar um círculo virtuoso.

Isso significa apoiar o governo de Dilma Rousseff?

Isso significa dar apoio a uma agenda positiva de desenvolvimento nacional, inclusive propondo essa agenda ao Governo Federal. Esse foi o nosso objetivo quando realizamos a reunião de 10 governadores e um vice-governador, agora no final do ano passado. Procuramos saber exatamente o que une todos os governos estaduais. Independente de serem de oposição, da base do governo ou independentes, mas que podem contribuir para melhorar o ambiente econômico no país.

O pagamento em dia dos servidores públicos está garantido para este ano?

Espero que sim. Esse é o nosso desejo. Nós aprovamos um conjunto de medidas no ano passado com esse objetivo. Ajustamos o orçamento. Fizemos o dever de casa. Vamos pagar os salários em dia. É importante registar que quando nós assumimos o governo a situação não era essa. Nós tínhamos horas extras atrasadas, 13º atrasado, férias atrasadas e parte dos salários do ano anterior. Nós vamos pagar todo mundo em dia. Então nós esperamos e temos convicção que vamos dar conta de pagar os servidores em dia.

As PPPs estão mais próximas?

Eu tenho uma grande expectativa em relação às parcerias publico-privadas. As parcerias de forma geral. A gente pretende avançar bastante neste ano, soltando alguns editais de concessões. Depois, temos as parcerias público-privadas, essas são mais complexas. Ou seja, vão ensejar um tempo maior de maturação. É o caso da Transbrasília, que ligará o Setor de Indústria, Guará, Águas Claras, Taguatinga, Samambaia. A ideia é construir uma via, mas ao mesmo tempo ressignificar as cidades com novas áreas de moradia, comércio e lazer.

POR ANA MARIA CAMPOS-CORREIO BRAZILIENSE/FOTO: ANA RAYSSA/ESP. CB/D.A PRESS - 14/5/15 - 01/11/2015 - 10:19:18

Augusto Carvalho Deputado federal (SD-DF)

O seu partido apoiou a eleição de Rodrigo Rollemberg. Está satisfeito com os rumos do governo?

Apoiamos desde o primeiro momento. Eu, o (Rogério) Rosso, com o PSD, o PDT e o PSB. A nossa chegada na aliança cacifou a eleição de Rollemberg e ele logo disparou na disputa. Tinha a expectativa de um governo diferente. Pensei que os aliados de primeira hora seriam mais ouvidos e mais respeitados. 

Concordo com Cristovam (Buarque), o governador ouve de menos. Faz um governo de amigos. Repete muito a trajetória do Agnelo. 

Qual é o seu contato com Rollemberg?

O último encontro que tive com ele foi há mais ou menos três meses. Às vezes, ele me telefona aqui e acolá.

Não participa das reuniões do conselho político em que o governador debate com os aliados?

Aquilo ali são tertúlias. Isso é para dizer que está ouvindo...

Gostaria de ter sido ouvido em que situações?

Nós, do Solidariedade, temos um compromisso firmado com a sociedade. Somos contra aumentos de impostos tanto na esfera federal, propostos pela Dilma, quanto pelo governador Rodrigo Rollemberg. A criatividade e a busca da boa governança não podem ser feitas às custas do contribuinte. Vamos buscar o equilíbrio das contas sem atribuir o ônus ao cidadão. É preciso pensar saídas diferentes, que não onerem o contribuinte.

Qual seria a saída?

O governo deveria fazer uma força-tarefa, usar toda a inteligência, para se dedicar à regularização de condomínios. A partir do momento em que se regularizam os terrenos, há um grande impacto na economia. Só de imposto do ITBI, o governo arrecadaria milhões. Mas tivemos um ano perdido. Nada foi feito. O governo anterior fez muita lambança. Para piorar a crise que vivemos, houve a truculência com os professores.

Acha que a PM exagerou no episódio do protesto dos professores?

Não tenho dúvidas. As imagens falam por si. Claro que teve provocações, mas não houve habilidade para resolver o problema. Não podemos seguir o exemplo do Paraná.

Acha que o governador está sendo abandonado pelos aliados?

A culpa é dele. A bancada do DF pediu uma audiência para tentar ajudar a intermediar uma solução para a crise com os servidores e nunca obteve retorno. Pergunte ao Cristovam, ao Hélio José… Para se ter uma ideia do distanciamento, ele nunca procurou a bancada, como todos os governadores sempre fizeram, para discutir projetos estruturantes a serem incluídos no orçamento federal. Mandou alguns prepostos, mas não é a mesma coisa. O diálogo com o governador tem uma liturgia, uma simbologia. Estamos todos perplexos com o estilo Rollemberg de governar. Está sobrando popularidade para tratar os aliados assim?

 Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., Ana Maria Campos , Carlos Alexandre - Correio Braziliense -  01/11/2015 08:02 / atualizado em 01/11/2015 09:50

Em entrevista ao Correio, Lúcia Willadino Braga lamenta remuneração de professores

"Aqui ninguém é mais importante do que ninguém. O médico não é mais importante, como a gente vê por aí." "Tive que provar para a comunidade científica, com dados estatísticos, que amor faz bem."

O reconhecimento internacional da Rede Sarah se deve, em boa medida, aos multitalentos de Lúcia Willadino Braga. Em uma trajetória marcada por caminhos improváveis e quase aleatórios, a gaúcha de Porto Alegre foi decisiva para tornar o centro de reabilitação inaugurado em 1960, por JK, uma referência mundial na medicina e na gestão pública. Neta de alemã e de índio, música autodidata e de uma curiosidade insaciável, ela deve a Brasília o espírito inovador que marca seus projetos em neurociência. Em meio àquela utopia que nascia no Planalto Central naqueles anos pioneiros, Lúcia aprendeu cedo que era possível fazer tudo a partir do nada. “Todo mundo tinha que criar, e acho que isso me abriu uma proposta de criação”, diz. Com forte inovação e uma gestão de alto nível, marcada pela participação de todos os colaboradores, Lucinha — como é conhecida — representa o expoente de um modelo exemplar, diametralmente oposto à calamidade frequentemente diagnosticada na saúde pública nacional — inclusive no Distrito Federal. Nesta entrevista ao Correio, Lúcia, presidente da Rede Sarah, avalia que a ausência de uma filosofia e de um projeto de longo prazo são graves lacunas que impedem avanços no atendimento à população. E acredita que a solução para os hospitais está nas escolas: “Com educação você já melhora muitíssimo o nível de saúde.”

A infância numa cidade em construção influenciou sua trajetória?
Foi determinante. Mostrou que qualquer um pode fazer alguma coisa, se quiser, se você se empenhar. Isso me influenciou e me influencia até hoje. Não consigo ver que uma coisa é impossível. Vejo que há obstáculos que a gente supera. E outra coisa que me influenciou muito foi o plano educacional.

Onde você estudou?
O Anísio Teixeira e o Darcy Ribeiro criaram uma proposta educacional completamente inovadora e fomos cobaias. Mas foi uma maravilha ter sido cobaia disso. Estudei num lugar chamado Escola de Aplicação, que era um barraco de madeira, do lado do Elefante Branco. Isso no ensino de primeira a quarta séries. Nas escolas, não tínhamos que decorar nada. A ideia era ensinar a pensar. Não decorei nem a tabuada. Até hoje não sei e nunca me fez falta nenhuma. A ideia era aprender a pensar. E isso me influenciou muito.

Depois veio a ditadura...
Tinha uma coisa nas escolas que era um tanto quanto subversiva. Os professores diziam: “Olha, você não pode falar isso, mas tem que pensar aquilo”. Isso estava arraigado nos professores. O professor vinha, por exemplo, com Construção, do Chico Buarque, para debater. Havia um processo de politização. E quando entrei na UnB, em 1976, muito jovem, a ditadura ainda não tinha conseguido sufocar a universidade. E aí você podia fazer matéria em qualquer departamento.

Que curso?
Fiz música, psicologia. Fiz matérias de vários departamentos. Acho que sou uma autodidata, porque, olhando hoje o conceito de neurociência, vejo que desde muito cedo, nos anos 1970, venho buscando essa diversidade. Pensava que seria música porque, com cinco anos, aprendi a ler partitura sozinha e curti. Aprendi “n” instrumentos.

Qual é o preferido?
Gostei de todos. Aprendi regência com o Cláudio Santoro, na UnB, toquei piano, oboé, violino, flauta... Pensava que faria isso da minha vida, mas, quando cheguei à UnB, vi que tinha uma matéria sobre o desenvolvimento do pensamento da criança. Pensei: “É isso que me interessa...” Aí tinha matéria sobre neurologia. Achei muito legal. Comecei, então, a pegar as disciplinas e montar ideias na minha cabeça.

Foram os primeiros projetos?
No meio do segundo semestre, tive a ideia de desenvolver um projeto, numa bolsa de iniciação científica do CNPq, que era trabalhar parâmetros do som com as crianças com lesão cerebral para desenvolver o pensamento. Foi em cima da ideia de trabalhar o pensamento cognitivo. Esse projeto foi aprovado, super bem cotado. Eu tinha 19 anos. E aí me disseram que, se conseguisse um lugar para implantar o projeto, poderia executar. Deixei o projeto no Hospital de Base e no Sarah. De repente, o Sarah falou que poderia vir. Cheguei aqui, não tinha local para mim e muito menos material. Aí arrumei, dentro daquela ideia de que se você não tem, faz. Eles me deixaram guardar o material dentro do ar-condicionado. E trabalhava do lado de fora.

Conheceu Campos da Paz nessa época?
Ele me viu aqui, na enfermaria, tocando flauta. Fazia esse trabalho com as crianças. Ele achou curioso o projeto e me convidou para apresentar numa sessão clínica. Quando me formei, fiz seleção para cá e entrei no Centro de Pesquisa. E aí, já trabalhando aqui, fui fazer mestrado e doutorado, sempre em estudos sobre o cérebro. Depois, fiz pós-doutorado em ciências. Campos tinha essa abertura para o novo. Ele não se assustava.

Como você, que não se enquadra e busca sempre o novo, tem esse lado executiva? Isso se encaixa? São duas Lucinhas ou uma só?
Encaixa-se muito. É uma Lucinha só. Da mesma forma que posso criar um novo método de tratamento, posso construir uma organização do trabalho, posso construir um hospital. Então, é uma coisa gostosa. Bem novinha, já tinha essa facilidade de organizar as coisas e as pessoas. Tanto que assumi a chefia da área de lesão cerebral com 22 anos. Assumi a coordenação porque a própria equipe pediu. Organizava bem. Você pode ser criativa na gestão. Combina bem. A gestão não precisa ser pesada, burocratizada. Então comecei no setor de lesão cerebral infantil. Depois, no setor de lesão cerebral como um todo, coordenei praticamente todos os programas do Sarah. No fim, nos anos 1980, era gerente de reabilitação. Tudo sobre reabilitação era comigo.

O fato de não ser médica prejudicou? Sofreu preconceito?
Nunca senti preconceito porque nunca tentei ocupar o espaço de ninguém. Muitas pessoas falam: “A dra. Lúcia não é médica”. É comum ouvir isso, mas não incomoda porque acho natural que as pessoas pensem que, para ser diretor de hospital, precisa ser médico. Então, por mais que diga que não sou, volta. É recorrente. Mas não me afeta porque nunca quis ser médica.

Teria feito o curso, se quisesse...

Passei no vestibular com uma das maiores notas da UnB. Meu sogro era médico e ele queria muito que fizesse medicina. Só fiz matérias que me interessavam, estudei anatomia e outras. Gosto de aprender e faz muito bem para o cérebro.

Por que é tão difícil adotar um modelo de sucesso como o do Sarah na saúde pública?
Tem muitos fatores. O Sarah tem alguns diferenciais. Por exemplo, a gente tem uma filosofia. Todo mundo vem para uma seleção pública, faz um treinamento para igualar princípios filosóficos. Trabalhamos com dedicação exclusiva. Então, um grupo pequeno de profissionais pode dar um atendimento de qualidade. Muitos hospitais nos procuraram querendo fazer igual. Mas muitos dizem que dedicação exclusiva não dá. Aí começa a não dar certo.

São bons salários para dedicação exclusiva?

São salários dignos. Para ter um bom profissional, não posso pagar uma miséria, porque ele não estará aqui. Mas o que a gente vê lá fora é que o trabalho de um é dividido por quatro pessoas, cada uma fazendo algumas horas. A organização do trabalho é muito importante. Há também um diferencial nosso em termos da gestão de materiais. Muitas unidades têm o tomógrafo, mas está quebrado; têm a agulha, mas falta a linha; têm o cirurgião, mas falta o anestesista. Em saúde, não pode faltar nada. Isso não é uma questão de custo. É uma questão de planejamento. Claro que se paga por tudo o que se utiliza, mas não deixamos as coisas perderem a validade, não deixamos as coisas no estoque e conseguimos planejar. Isso em saúde é fundamental.

Falta de medicamentos e má utilização de equipamentos são grandes problemas da saúde pública...
Sim, na falta de planejamento, a pessoa manda comprar um equipamento e não tem onde instalar. Como vou comprar uma ressonância sem ter onde instalar? Outra coisa fundamental é manutenção. Estamos num prédio de 1980 e aqui não tem nada quebrado. Não fica nada quebrado nenhum dia. Aqui trabalhamos também com o princípio da economicidade. Não somos donos do Sarah. O dono do Sarah é o povo brasileiro. Essas responsabilidades, essa consciência, esse cuidado com o bem público são muito fortes na nossa filosofia. Ninguém deixa uma luz ligada; a gente usa iluminação natural, ventilação...

Tem muito rigor?
Sim. Mas quem não se adapta vai embora. Não aguenta. Aqui ninguém é mais importante do que ninguém. O médico não é mais importante, como a gente vê por aí. A pessoa que limpa o chão faz uma seleção pública, recebe treinamento que passa por um olhar no microscópio. Passa por uma filosofia. Ele sabe que precisa limpar para retirar as bactérias. Com isso, temos a menor taxa de infecção do mundo. Esses profissionais de higiene são profissionais de saúde.

Usar organizações sociais na gestão de hospitais é uma saída?
Depende das instituições contratadas. Já houve uma experiência em Brasília que não deu certo. As organizações sociais surgiram como espelho do Sarah. Só que a gente tem essas peculiaridades que vão desde o treinamento de um auxiliar de higiene até os profissionais de saúde. A gente tem, por exemplo, um programa muito legal, que se chama Paciente por um dia. O pessoal novo se coloca como tetraplégico, paraplégico, afásico (não fala), e os outros colegas vão tratar dele. Alguém vai alimentar, vai ver o ritmo... Isso dá um outro olhar, mais humano. Temos uma perspectiva humanística. Quando se pergunta a um ortopedista: “O que você olha num paciente?” Olhe o olho.

Então, depende mais de uma filosofia de trabalho?
De uma filosofia e de um modelo de trabalho. Tem que ter o modelo, desde a gestão dos recursos humanos; precisa ter os profissionais trabalhando com prazer. Assim é também no tratamento, precisa ser prazeroso para os pacientes. Desenvolvemos um método que se chama neuroreabilitação ecológica. Se você não pode tirar uma pessoa do hospital para a vida, então tem de levar o hospital para a vida. Um exemplo: as pessoas remando no lago, no Sarah Lago Norte. Lutei muito para construir aquela unidade. Enfrentei muita oposição. Só faltavam me matar.

Por que um hospital na beira do lago?
Justamente pela possibilidade de fazer coisas mais lúdicas, de ter um visual mais legal, um espaço aberto. A pessoa fica paraplégica e precisa de braços muito fortes. Quando ela vai se transportar da cadeira para a cama, para o carro, usa todo o peso do corpo no braço. Se você botar a pessoa para carregar um peso, vai encher a paciência dela. Se você coloca para remar, é muito mais interessante. Para quem precisa trabalhar o equilíbrio, velejar é muito melhor. São coisas assim que temos feito.

Como foi o trabalho de envolver a família nos tratamentos?
Em 2005, escrevi um artigo em que comprovei que a participação da família propicia um tratamento muito melhor.

Hoje em dia, nos hospitais, quando alguém está em fase terminal, cada vez mais o médico comanda o destino daquele paciente longe da família. Acha correto?
Isso é muito prejudicial. Em paciente em estágio terminal, a gente tem que ter uma linha de cuidados paliativos de dar conforto, tranquilidade, amor. Tive que provar para a comunidade científica, com dados estatísticos, que amor faz bem. Parece surreal. Já diziam os Beatles: “All we need is love”.

Foi difícil provar essa tese?

A comunidade científica não aceitava. Quando comecei a trabalhar no Sarah, a família não entrava, ficava do lado de fora. Vinha o paciente para tratar, a mãe ficava do lado de fora. Dizia: “Isso não vai dar certo. A mãe passa 24 horas por dia em 365 dias por ano com o filho. Ela tem muita informação para dar.” Não tive dúvidas: peguei meu tapete e coloquei do lado de fora do hospital. Comecei a atender as famílias. Dava um resultado incrível. Mas, quando comecei a apresentar isso, tive que quebrar um tabu muito forte. Ouvia: “Eu sou a fisioterapeuta, como a mãe vai fazer os exercícios?”; “Eu sou a fonoaudiológa.”... Achava que tudo aquilo poderia ser ensinado para as famílias. Peguei um grupo tratado durante um ano com a participação da família, e um outro grupo sem a participação. Quem teve a família foi muito melhor. Provei que a variável mais importante para uma criança melhorar é a afetiva. É o amor.

A criança se sente mais segura?

Quem mais quer o bem dessa criança? Quem ensina uma criança a andar? Não é o fisioterapeuta. É a mãe, a família. Quis devolver à família o papel natural. Quando comecei a falar sobre isso fora do Brasil, também me deu muito problema. Hoje a família é muito bem-aceita. Publiquei um livro que ensinava tudo com desenho, a fazer estimulação motora, cognitiva, da linguagem...

Que imagem o Sarah tem lá fora?

Hoje, o Sarah é um dos modelos mais reconhecidos em reabilitação no mundo. Esse método da família é usado em muitos países. Fui convidada no ano passado até para inaugurar um hospital na Holanda, em Haia, que usa basicamente os métodos que desenvolvi. Hoje recebo visitantes para treinar aqui. Vem gente da Noruega, da Suécia, dos Estados Unidos, da Inglaterra, França, Dinamarca, África do Sul... Temos projetos de colaboração com vários centros do mundo.

Não é um reconhecimento fácil...
É uma coisa que se constrói no dia a dia. Nunca coloquei isso como meta, mas sempre quis mostrar que esses métodos eram importantes. Nos últimos 20 anos, sempre sou chamada para abrir congressos. Amigos meus, que começaram a trabalhar comigo, de outros países, brincam: “Pôxa, você, a menorzinha de nós, latino-americana, mulher, é a convidada especial”.

Nesse período, sentiu preconceito lá fora?

Teve momentos em que senti. Essa questão da família enfrentou muita resistência. Uma vez fui falar em Curitiba sobre a importância da família e as pessoas se levantaram no meio da fala, em protesto.

Existe muita arrogância na ciência?

Existe. Alguns franceses acharam legal meu projeto da família, alguns alemães também. Mas nem todos. Tinha um amigo alemão, que me tratava muito bem, mas nunca comentava as pesquisas com a família. Uns anos depois, ele me liga: “Meu filho sofreu um acidente de carro e teve uma lesão cerebral. Estou me sentindo excluído. Só agora entendi seu lance com a família. Quero levar meu filho para você tratar, e fazer parte do tratamento”.

E a vaidade no mundo científico?
Há uma vaidade intelectual. Mas tem um lado na ciência: tudo você precisa comprovar. Como provei, com todas as estatísticas, com amostra grande, vários estudos com ressonância magnética funcional em que se mostra dentro do cérebro da pessoa, então não há um questionamento. Aí você publica esse estudo na Science, a comunidade científica acolhe, segue e tenta dar um passo à frente. Então hoje tem menos esse embate.

Como está a saúde hoje no país?

É um momento muito difícil. O país é muito grande. Garantir qualificação, qualidade, a distância... Seria necessária a formação de gestores em saúde. Ser um bom médico não significa ser um bom gestor. Mas a gestão de materiais e a manutenção do sistema são complexas. E é isso que a gente vê muito nos escândalos: falta remédio, equipamento parado. A saúde só vai mudar se a educação mudar. Minha sensação é de que o país precisa investir em educação. Com educação, você já melhora muitíssimo o nível de saúde. Uma coisa que já discuti com alguns governos: por que não se coloca no fim do ensino médio disciplinas de enfermagem, de medicina? Com um ano de formação mínima, haveria muito menos procura de pronto-socorros. Haveria muito mais ações preventivas.

Para não sobrecarregar o sistema?

Isso. A pessoa vai saber quando a situação é grave e que precisa correr para o pronto-socorro ou se pode esperar. Essa noção básica se resolve com educação. Os países que fizeram as grandes mudanças pensam nos próximos 20 anos. Veja o que era a Suécia antes de investir em educação: a pobreza, a miséria, a prostituição, o alcoolismo... E o que é a Suécia hoje, e os países escandinavos.

Mas, aqui no DF, se resolve como? É educação, gestão?

É gestão. Uma coisa que tenho informação, que me foi dito pelo próprio Rollemberg, é que tem um número muito grande de médicos na administração. Não tem nenhum médico na gestão da rede Sarah toda. E ninguém faz só gestão. Faço gestão, faço pesquisa e atendimento de pacientes. O gestor que não for para a base não sabe o que está acontecendo. Se eu não for ao meu ambulatório, à minha enfermaria, vou ficar fazendo o que aqui? Ficar de rainha da Inglaterra? E o que faz esse tanto de gente, esse tanto de médico? Por que estão na administração e não na frente? Por que não se monta um sistema de compra de material que seja minimamente planejado? Por que quando se compra um equipamento não se contrata a manutenção? Não dá para ter uma visão imediatista. Essa ideia de pensar o país a longo prazo é o que falta. É como aqui no GDF.

Qual é a solução?
Deveria se pensar assim: vamos virar a mesa e partir do zero. Vamos construir uma coisa nova? O que sinto dos sucessivos governos são remendos para dar conta durante alguns mandatos.

Seria uma mudança estrutural?

Isso. Parar tudo e ver quem está fazendo o quê. Quem vai cuidar do quê... Eu, que já fiz tantos hospitais, acho tão simples. Olhar o problema de frente, encarar. Ter a participação das pessoas. Esse também é um problema. Você não pode fazer uma gestão que não seja participativa. Não posso dizer: agora sou a secretária de Saúde e vocês vão fazer assim. Ninguém vai fazer porque quero, mas porque acredita. Passaria por uma revisão geral. Vamos construir juntos. Uma coisa muito complicada é ficar se queixando, dizendo que não pode fazer porque não tem condições. Então, descola. Providencia. Briga por isso. Se houver uma boa intenção, você vai conseguir ajuda.

Já foi convidada para ser ministra?
Fui convidada por três diferentes presidentes. Fui convidada para ser secretária de Saúde do DF, mas a estrutura política do Brasil é muito difícil. Tem a coisa da divisão partidária. A vida toda trabalhei com profissionais concursados. Acho complicado esse universo criado pelos políticos de indicar determinado profissional porque tem ligação partidária, política. O cargo de ministro é político. Não é um cargo de gestor público e o meu cargo aqui é de gestor público, de responsabilidade enorme e com cuidado muito grande dos recursos públicos. Nunca tivemos nenhum questionamento do TCU nem da CGU. Se for tudo no preto e no branco, não tem questionamento.

Na hora de pedir recursos do orçamento, há dificuldades?
A gente tem sempre um apoio muito grande da bancada do DF, de todos os partidos. Os grandes aliados do Sarah são as pessoas que nele se tratam. Os parlamentares são eleitos pela população e a população está satisfeita. O nível de satisfação do paciente do Sarah, na última pesquisa, foi de 98,3%. Quando a gente pede uma emenda, não enfrenta dificuldades. E aqui a gente não faz nenhum tipo de diferença partidária ou religiosa.

O aparelhamento político atrapalha?

Atrapalha, mas em que ministério é diferente? Acontece em todo o sistema político.

Na saúde, o peso de indicações políticas não é maior?

Saúde e educação são áreas que não deveriam ter influência política. Se fosse ministra da Saúde, teria de brigar muito. Não iriam me querer em três meses. Logo me dariam alta. Temos que viver para a saúde e não sobreviver da doença.

Como é sua relação com os pacientes?
Sou contra distanciamento. Eu beijo, abraço, gosto. Defendo o envolvimento. Meus pacientes vão se tornando meus amigos. Você comemora cada vitória. É muito bom ver que a pessoa está melhorando e você melhora junto. A gente se “co-constrói”.

Com as derrotas, você acaba sofrendo também?

Não acredito em derrota. Tudo depende do objetivo a ser alcançado. Não posso querer que uma pessoa que comprometeu toda a medula volte a andar. Não posso considerar uma derrota não a fazer andar. Tenho que trabalhar com ela um objetivo que lhe dê qualidade de vida, e a gente vai comemorar muito, a gente vai curtir.

Muitos pacientes chegam com a esperança de cura. Como dizer a eles que nunca mais vão andar?

Acho natural que as pessoas venham com a expectativa acima da realidade. Acontece. Você não pode tirar a esperança de ninguém, mas também não pode alimentar expectativa falsa, porque reversão de expectativa é que causa sofrimento. Acontece assim: a pessoa vai conversar com outras que têm o mesmo problema. Aí, ela começa a digerir. Quando a pessoa está pronta para perguntar ao médico, ela pergunta. Não é preciso antecipar. Trabalho muito o seguinte: o que você tem, e não o que você não tem. Se você gosta de esportes, não pode ser um campeão de corrida, mas pode ser um campeão de remo. Existem “n” possibilidades. O caminhar é mais importante para as pessoas que não têm problema do que para as pessoas que têm. Se você não andar, mas souber contornar isso, será feliz, como a gente vê em milhares de paraplégicos, tetraplégicos, hemiplégicos.

Têm ocorrido muitos acidentes de trânsito por uso de celular?
Demais. É impressionante. Antes os problemas de trânsito eram causados por bebida alcoólica. Hoje são principalmente causados pelo celular. É aquela ideia de que você vai ganhar tempo. Na verdade, acaba perdendo um tempo enorme. Passar meses e anos se reabilitando. É um filme que não volta.

Vocês ainda têm programas de orientação para jovens?
Sim. Temos um programa de prevenção que é muito legal. A gente começou pensando em jovens do ensino médio próximos de tirar a carteira. Mas aí descobrimos o óbvio: adolescentes contestam os adultos. Então baixamos a faixa etária para um pessoal bem novinho, porque a criança chega em casa e fala: “Ah, pai, se não botar o cinto, não vou”.

Como fazer com que as pessoas tenham cuidado?

É interessante essa questão da prevenção: ninguém chega e fala: hoje vim me prevenir de um câncer ou de uma lesão na medula. Viável é convidar as escolas para uma visita. É o espaço da educação. Aí você vai trabalhar a formação das crianças. Seria muito legal que as crianças tivessem essa formação. A prevenção passa por aí.

Como enxerga a educação hoje no país?

É preciso investir mais na remuneração do professor. Acho impressionante que não se veja o valor desses profissionais. E investir no ensino fundamental. Um ensino fundamental de qualidade muda muito a realidade. O resto é consequência.

Há situações em que você não acreditaria que o paciente chegaria lá?

A gente nunca acha que a pessoa não vai chegar lá. A questão é construir dia a dia. Sempre se pode dar um passo a mais. Talvez seja um passo diferente, por outra via. O importante, em recuperação e reabilitação, é comemorar cada passo. Cada melhora é uma melhora.

E quanto à força de vontade do paciente?

É fundamental. Quando recebo algum paciente adulto, com uma lesão cerebral mais grave, falo: “Quer melhorar? O mais importante para melhorar é querer. Senão não vai ter como fazer nada, nem sua família, nem ninguém. A pessoa é responsável pela própria saúde.

Vocês atendem de celebridade e político a pessoa comum. O tratamento é padrão?
É absolutamente igual. Aqui não há infecção social. A família chega, toma um banho e veste um uniforme. Isso é para evitar infecção hospitalar e infecção social. A roupa que o acompanhante da celebridade vai usar é a mesma do acompanhante do paciente em uma situação econômica mais precária. Os pacientes usam o mesmo uniforme, o mesmo tratamento, a mesma enfermaria, comem no mesmo refeitório, a mesma comida. A pirâmide socioeconômica do Sarah é igual à do Brasil. Aumentou a classe C no Brasil, aumentou no Sarah. O acesso era todo por telefone, agora é pela internet. O que a gente tem, diferentemente de outros hospitais públicos, é muita busca de pessoas que poderiam pagar. Porque elas buscam a qualidade.

O índice de satisfação com o Sarah é alto. Mas há quem critique porque não consegue consulta. Por quê?
Aí depende. Muitos casos a gente não atende porque as pessoas não têm noção do trabalho do Sarah. Acham que aqui trata fratura. E aqui não trata fratura. O acesso é tranquilo. Entra no site, escolhe a unidade. Você vai ver, por exemplo, que não há ortopedia e neurocirurgia em Fortaleza. Foi definido assim. Tudo é dentro de uma única perspectiva, mas alguns têm especialidades que outros ainda não têm. Tudo isso passa pelo governo federal, porque todos os nossos recursos são públicos. 

A arquitetura tem um peso fortíssimo em todos os Sarah. Tudo tem a mão do Athos e do Lelé. Você enxerga os dois?
Isso é uma coisa maravilhosa. Até outro dia comentava... Éramos quatro pessoas muito ligadas: eu, Campos da Paz, o Lelé e o Athos. Sempre fui a caçula da turma, hoje só fiquei eu. O arquiteto não faz um hospital se você não tem um bom programa. E um programa de reabilitação não funciona se não há uma boa arquitetura. Se tivéssemos cubículos, não conseguiríamos fazer um atendimento humanizado. Então adotamos alguns princípios: abertura com a natureza, ventilação natural, iluminação natural, espaços amplos e abertos, multidisciplinariedade. Isso tudo faz parte de um programa de reabilitação. A filosofia do Sarah também se sustenta na arquitetura. Ninguém tem o seu consultório, em nenhuma unidade da rede. A gente divide boxes.

Não foram projetados?
Exatamente. Não temos computadores pessoais. Achei estranhíssimo quando vim para a diretoria — não queria vir. Não tenho talento para ficar em gabinete. Gosto de trabalhar do lado de fora. Quando vim para essa sala e vi que podia abrir a porta e botar uma mesa do lado de fora, carreguei a mesa para a grama e comecei a trabalhar. A arquitetura foi toda pensada assim: os elementos do Athos sempre conversaram com a arquitetura do Lelé. Isso a gente ensina também na formação dos profissionais do Sarah. Ninguém cola um Mickey Mouse em cima de uma peça do Athos. Lelé e Athos tinham uma conversa muito gostosa para cada hospital. Os azulejos do Sarah de São Luís, Athos pensou de maneira diferente, porque é uma cidade com tradição de azulejos. No Sarah centro, o Athos começa com o painel marrom, o painel verde. Você chega ao Sarah Lago, ao Sarah Fortaleza, explode em cores. Um dia falei ao Athos: “Você começou fazendo o Teatro Nacional todo branco... de repente explodiu em cores. Como foi isso?” Ele respondeu: “Lucinha, fiquei velho, perdi a vergonha” (risos).

Que influência tiveram na sua vida?
Tive oportunidades e estou tendo ainda de conhecer pessoas interessantes. Estou sempre muito aberta a aprender, a ouvir o outro. Aprendi muito com Campos, com Lelé, com Athos... Tinha outras pessoas também. Jorge Amado, Zélia Gattai, Millôr Fernandes, pessoas de uma sabedoria.

Do que mais sente falta de Campos da Paz?

Do humor. Na vida diária, a gente tinha uma relação muito próxima. Teria idade para ser filha dele. E um dia ele me falou: “Engraçado, as pessoas pensam que você é tipo minha filha, mas você é tipo minha mãe” (Risos). E é verdade. Porque ele era muito impulsivo. E eu dizia: “Não, não pode, se comporte!” A gente tinha essa liberdade.

Ele disse uma vez sobre você: “O professor se realiza quando descobre que o aluno é melhor que ele”.
Ele botou isso no livro dele. Falei para ele: “Não bota isso não”. Sou do tipo low profile.

Trabalha quantas horas por dia?
Quantas horas for preciso. O envolvimento que a gente tem vem da paixão pelo trabalho. Deve ser muito triste uma pessoa trabalhar numa coisa de que não gosta. Morreria. A gestão me dá prazer. Acho muito gostoso organizar as coisas, ver o resultado e envolver as pessoas. É preciso pensar junto, porque a conquista é do grupo. Aqui todo mundo é muito preocupado em não rasgar o papel, de imprimir um papel que não precisa, de sair e deixar uma luz acesa.

Como cortar gastos e manter bons salários?

Há 15 anos, cortaram muito o nosso orçamento. E os preços subindo. O dinheiro estava limitado e o salário, uma porcaria. Falei: “O salário da gente está ruim, não está? Também acho, porque também sou funcionária. Se todo mundo diminuir o custeio, dá para aumentar o salário”. Imediatamente todo mundo fez uma economia enorme no custeio e reverteu em salário no mês seguinte. Mas a gente sabia que tinha de manter. E até hoje temos essa filosofia.

Como você enxerga a crise no país? 
A gente não pode se deixar levar pelo baixo astral. Tem tanta gente batalhando por alguma coisa boa... Tudo passa se a gente resolver cooperar para que as coisas sejam superadas.

E o teatro do Sarah? Os pacientes frequentam?
Sempre achei legal trazer arte para dentro do hospital. Logo que vim para cá, trazia filmes, uns amigos da Escola de Música para tocar. A gente ia fazer um barulho lá fora. Quando resolvemos ampliar o auditório, fizemos um que serve também de teatro. É um espaço com acessibilidade. Os pacientes adoram. Tem gente que vem de maca, tomando quimioterapia. Já falo logo para os artistas: se alguém sair, não é nenhuma crítica (risos). E agora comecei a perceber que diminuiu muito o uso de analgésicos, porque você levanta o astral das pessoas.