POR ANA MARIA CAMPOS-CORREIO BRAZILIENSE/FOTO: ANA RAYSSA/ESP. CB/D.A PRESS - 14/5/15 - 01/11/2015 - 10:19:18

Augusto Carvalho Deputado federal (SD-DF)

O seu partido apoiou a eleição de Rodrigo Rollemberg. Está satisfeito com os rumos do governo?

Apoiamos desde o primeiro momento. Eu, o (Rogério) Rosso, com o PSD, o PDT e o PSB. A nossa chegada na aliança cacifou a eleição de Rollemberg e ele logo disparou na disputa. Tinha a expectativa de um governo diferente. Pensei que os aliados de primeira hora seriam mais ouvidos e mais respeitados. 

Concordo com Cristovam (Buarque), o governador ouve de menos. Faz um governo de amigos. Repete muito a trajetória do Agnelo. 

Qual é o seu contato com Rollemberg?

O último encontro que tive com ele foi há mais ou menos três meses. Às vezes, ele me telefona aqui e acolá.

Não participa das reuniões do conselho político em que o governador debate com os aliados?

Aquilo ali são tertúlias. Isso é para dizer que está ouvindo...

Gostaria de ter sido ouvido em que situações?

Nós, do Solidariedade, temos um compromisso firmado com a sociedade. Somos contra aumentos de impostos tanto na esfera federal, propostos pela Dilma, quanto pelo governador Rodrigo Rollemberg. A criatividade e a busca da boa governança não podem ser feitas às custas do contribuinte. Vamos buscar o equilíbrio das contas sem atribuir o ônus ao cidadão. É preciso pensar saídas diferentes, que não onerem o contribuinte.

Qual seria a saída?

O governo deveria fazer uma força-tarefa, usar toda a inteligência, para se dedicar à regularização de condomínios. A partir do momento em que se regularizam os terrenos, há um grande impacto na economia. Só de imposto do ITBI, o governo arrecadaria milhões. Mas tivemos um ano perdido. Nada foi feito. O governo anterior fez muita lambança. Para piorar a crise que vivemos, houve a truculência com os professores.

Acha que a PM exagerou no episódio do protesto dos professores?

Não tenho dúvidas. As imagens falam por si. Claro que teve provocações, mas não houve habilidade para resolver o problema. Não podemos seguir o exemplo do Paraná.

Acha que o governador está sendo abandonado pelos aliados?

A culpa é dele. A bancada do DF pediu uma audiência para tentar ajudar a intermediar uma solução para a crise com os servidores e nunca obteve retorno. Pergunte ao Cristovam, ao Hélio José… Para se ter uma ideia do distanciamento, ele nunca procurou a bancada, como todos os governadores sempre fizeram, para discutir projetos estruturantes a serem incluídos no orçamento federal. Mandou alguns prepostos, mas não é a mesma coisa. O diálogo com o governador tem uma liturgia, uma simbologia. Estamos todos perplexos com o estilo Rollemberg de governar. Está sobrando popularidade para tratar os aliados assim?

 Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., Ana Maria Campos , Carlos Alexandre - Correio Braziliense -  01/11/2015 08:02 / atualizado em 01/11/2015 09:50

Em entrevista ao Correio, Lúcia Willadino Braga lamenta remuneração de professores

"Aqui ninguém é mais importante do que ninguém. O médico não é mais importante, como a gente vê por aí." "Tive que provar para a comunidade científica, com dados estatísticos, que amor faz bem."

O reconhecimento internacional da Rede Sarah se deve, em boa medida, aos multitalentos de Lúcia Willadino Braga. Em uma trajetória marcada por caminhos improváveis e quase aleatórios, a gaúcha de Porto Alegre foi decisiva para tornar o centro de reabilitação inaugurado em 1960, por JK, uma referência mundial na medicina e na gestão pública. Neta de alemã e de índio, música autodidata e de uma curiosidade insaciável, ela deve a Brasília o espírito inovador que marca seus projetos em neurociência. Em meio àquela utopia que nascia no Planalto Central naqueles anos pioneiros, Lúcia aprendeu cedo que era possível fazer tudo a partir do nada. “Todo mundo tinha que criar, e acho que isso me abriu uma proposta de criação”, diz. Com forte inovação e uma gestão de alto nível, marcada pela participação de todos os colaboradores, Lucinha — como é conhecida — representa o expoente de um modelo exemplar, diametralmente oposto à calamidade frequentemente diagnosticada na saúde pública nacional — inclusive no Distrito Federal. Nesta entrevista ao Correio, Lúcia, presidente da Rede Sarah, avalia que a ausência de uma filosofia e de um projeto de longo prazo são graves lacunas que impedem avanços no atendimento à população. E acredita que a solução para os hospitais está nas escolas: “Com educação você já melhora muitíssimo o nível de saúde.”

A infância numa cidade em construção influenciou sua trajetória?
Foi determinante. Mostrou que qualquer um pode fazer alguma coisa, se quiser, se você se empenhar. Isso me influenciou e me influencia até hoje. Não consigo ver que uma coisa é impossível. Vejo que há obstáculos que a gente supera. E outra coisa que me influenciou muito foi o plano educacional.

Onde você estudou?
O Anísio Teixeira e o Darcy Ribeiro criaram uma proposta educacional completamente inovadora e fomos cobaias. Mas foi uma maravilha ter sido cobaia disso. Estudei num lugar chamado Escola de Aplicação, que era um barraco de madeira, do lado do Elefante Branco. Isso no ensino de primeira a quarta séries. Nas escolas, não tínhamos que decorar nada. A ideia era ensinar a pensar. Não decorei nem a tabuada. Até hoje não sei e nunca me fez falta nenhuma. A ideia era aprender a pensar. E isso me influenciou muito.

Depois veio a ditadura...
Tinha uma coisa nas escolas que era um tanto quanto subversiva. Os professores diziam: “Olha, você não pode falar isso, mas tem que pensar aquilo”. Isso estava arraigado nos professores. O professor vinha, por exemplo, com Construção, do Chico Buarque, para debater. Havia um processo de politização. E quando entrei na UnB, em 1976, muito jovem, a ditadura ainda não tinha conseguido sufocar a universidade. E aí você podia fazer matéria em qualquer departamento.

Que curso?
Fiz música, psicologia. Fiz matérias de vários departamentos. Acho que sou uma autodidata, porque, olhando hoje o conceito de neurociência, vejo que desde muito cedo, nos anos 1970, venho buscando essa diversidade. Pensava que seria música porque, com cinco anos, aprendi a ler partitura sozinha e curti. Aprendi “n” instrumentos.

Qual é o preferido?
Gostei de todos. Aprendi regência com o Cláudio Santoro, na UnB, toquei piano, oboé, violino, flauta... Pensava que faria isso da minha vida, mas, quando cheguei à UnB, vi que tinha uma matéria sobre o desenvolvimento do pensamento da criança. Pensei: “É isso que me interessa...” Aí tinha matéria sobre neurologia. Achei muito legal. Comecei, então, a pegar as disciplinas e montar ideias na minha cabeça.

Foram os primeiros projetos?
No meio do segundo semestre, tive a ideia de desenvolver um projeto, numa bolsa de iniciação científica do CNPq, que era trabalhar parâmetros do som com as crianças com lesão cerebral para desenvolver o pensamento. Foi em cima da ideia de trabalhar o pensamento cognitivo. Esse projeto foi aprovado, super bem cotado. Eu tinha 19 anos. E aí me disseram que, se conseguisse um lugar para implantar o projeto, poderia executar. Deixei o projeto no Hospital de Base e no Sarah. De repente, o Sarah falou que poderia vir. Cheguei aqui, não tinha local para mim e muito menos material. Aí arrumei, dentro daquela ideia de que se você não tem, faz. Eles me deixaram guardar o material dentro do ar-condicionado. E trabalhava do lado de fora.

Conheceu Campos da Paz nessa época?
Ele me viu aqui, na enfermaria, tocando flauta. Fazia esse trabalho com as crianças. Ele achou curioso o projeto e me convidou para apresentar numa sessão clínica. Quando me formei, fiz seleção para cá e entrei no Centro de Pesquisa. E aí, já trabalhando aqui, fui fazer mestrado e doutorado, sempre em estudos sobre o cérebro. Depois, fiz pós-doutorado em ciências. Campos tinha essa abertura para o novo. Ele não se assustava.

Como você, que não se enquadra e busca sempre o novo, tem esse lado executiva? Isso se encaixa? São duas Lucinhas ou uma só?
Encaixa-se muito. É uma Lucinha só. Da mesma forma que posso criar um novo método de tratamento, posso construir uma organização do trabalho, posso construir um hospital. Então, é uma coisa gostosa. Bem novinha, já tinha essa facilidade de organizar as coisas e as pessoas. Tanto que assumi a chefia da área de lesão cerebral com 22 anos. Assumi a coordenação porque a própria equipe pediu. Organizava bem. Você pode ser criativa na gestão. Combina bem. A gestão não precisa ser pesada, burocratizada. Então comecei no setor de lesão cerebral infantil. Depois, no setor de lesão cerebral como um todo, coordenei praticamente todos os programas do Sarah. No fim, nos anos 1980, era gerente de reabilitação. Tudo sobre reabilitação era comigo.

O fato de não ser médica prejudicou? Sofreu preconceito?
Nunca senti preconceito porque nunca tentei ocupar o espaço de ninguém. Muitas pessoas falam: “A dra. Lúcia não é médica”. É comum ouvir isso, mas não incomoda porque acho natural que as pessoas pensem que, para ser diretor de hospital, precisa ser médico. Então, por mais que diga que não sou, volta. É recorrente. Mas não me afeta porque nunca quis ser médica.

Teria feito o curso, se quisesse...

Passei no vestibular com uma das maiores notas da UnB. Meu sogro era médico e ele queria muito que fizesse medicina. Só fiz matérias que me interessavam, estudei anatomia e outras. Gosto de aprender e faz muito bem para o cérebro.

Por que é tão difícil adotar um modelo de sucesso como o do Sarah na saúde pública?
Tem muitos fatores. O Sarah tem alguns diferenciais. Por exemplo, a gente tem uma filosofia. Todo mundo vem para uma seleção pública, faz um treinamento para igualar princípios filosóficos. Trabalhamos com dedicação exclusiva. Então, um grupo pequeno de profissionais pode dar um atendimento de qualidade. Muitos hospitais nos procuraram querendo fazer igual. Mas muitos dizem que dedicação exclusiva não dá. Aí começa a não dar certo.

São bons salários para dedicação exclusiva?

São salários dignos. Para ter um bom profissional, não posso pagar uma miséria, porque ele não estará aqui. Mas o que a gente vê lá fora é que o trabalho de um é dividido por quatro pessoas, cada uma fazendo algumas horas. A organização do trabalho é muito importante. Há também um diferencial nosso em termos da gestão de materiais. Muitas unidades têm o tomógrafo, mas está quebrado; têm a agulha, mas falta a linha; têm o cirurgião, mas falta o anestesista. Em saúde, não pode faltar nada. Isso não é uma questão de custo. É uma questão de planejamento. Claro que se paga por tudo o que se utiliza, mas não deixamos as coisas perderem a validade, não deixamos as coisas no estoque e conseguimos planejar. Isso em saúde é fundamental.

Falta de medicamentos e má utilização de equipamentos são grandes problemas da saúde pública...
Sim, na falta de planejamento, a pessoa manda comprar um equipamento e não tem onde instalar. Como vou comprar uma ressonância sem ter onde instalar? Outra coisa fundamental é manutenção. Estamos num prédio de 1980 e aqui não tem nada quebrado. Não fica nada quebrado nenhum dia. Aqui trabalhamos também com o princípio da economicidade. Não somos donos do Sarah. O dono do Sarah é o povo brasileiro. Essas responsabilidades, essa consciência, esse cuidado com o bem público são muito fortes na nossa filosofia. Ninguém deixa uma luz ligada; a gente usa iluminação natural, ventilação...

Tem muito rigor?
Sim. Mas quem não se adapta vai embora. Não aguenta. Aqui ninguém é mais importante do que ninguém. O médico não é mais importante, como a gente vê por aí. A pessoa que limpa o chão faz uma seleção pública, recebe treinamento que passa por um olhar no microscópio. Passa por uma filosofia. Ele sabe que precisa limpar para retirar as bactérias. Com isso, temos a menor taxa de infecção do mundo. Esses profissionais de higiene são profissionais de saúde.

Usar organizações sociais na gestão de hospitais é uma saída?
Depende das instituições contratadas. Já houve uma experiência em Brasília que não deu certo. As organizações sociais surgiram como espelho do Sarah. Só que a gente tem essas peculiaridades que vão desde o treinamento de um auxiliar de higiene até os profissionais de saúde. A gente tem, por exemplo, um programa muito legal, que se chama Paciente por um dia. O pessoal novo se coloca como tetraplégico, paraplégico, afásico (não fala), e os outros colegas vão tratar dele. Alguém vai alimentar, vai ver o ritmo... Isso dá um outro olhar, mais humano. Temos uma perspectiva humanística. Quando se pergunta a um ortopedista: “O que você olha num paciente?” Olhe o olho.

Então, depende mais de uma filosofia de trabalho?
De uma filosofia e de um modelo de trabalho. Tem que ter o modelo, desde a gestão dos recursos humanos; precisa ter os profissionais trabalhando com prazer. Assim é também no tratamento, precisa ser prazeroso para os pacientes. Desenvolvemos um método que se chama neuroreabilitação ecológica. Se você não pode tirar uma pessoa do hospital para a vida, então tem de levar o hospital para a vida. Um exemplo: as pessoas remando no lago, no Sarah Lago Norte. Lutei muito para construir aquela unidade. Enfrentei muita oposição. Só faltavam me matar.

Por que um hospital na beira do lago?
Justamente pela possibilidade de fazer coisas mais lúdicas, de ter um visual mais legal, um espaço aberto. A pessoa fica paraplégica e precisa de braços muito fortes. Quando ela vai se transportar da cadeira para a cama, para o carro, usa todo o peso do corpo no braço. Se você botar a pessoa para carregar um peso, vai encher a paciência dela. Se você coloca para remar, é muito mais interessante. Para quem precisa trabalhar o equilíbrio, velejar é muito melhor. São coisas assim que temos feito.

Como foi o trabalho de envolver a família nos tratamentos?
Em 2005, escrevi um artigo em que comprovei que a participação da família propicia um tratamento muito melhor.

Hoje em dia, nos hospitais, quando alguém está em fase terminal, cada vez mais o médico comanda o destino daquele paciente longe da família. Acha correto?
Isso é muito prejudicial. Em paciente em estágio terminal, a gente tem que ter uma linha de cuidados paliativos de dar conforto, tranquilidade, amor. Tive que provar para a comunidade científica, com dados estatísticos, que amor faz bem. Parece surreal. Já diziam os Beatles: “All we need is love”.

Foi difícil provar essa tese?

A comunidade científica não aceitava. Quando comecei a trabalhar no Sarah, a família não entrava, ficava do lado de fora. Vinha o paciente para tratar, a mãe ficava do lado de fora. Dizia: “Isso não vai dar certo. A mãe passa 24 horas por dia em 365 dias por ano com o filho. Ela tem muita informação para dar.” Não tive dúvidas: peguei meu tapete e coloquei do lado de fora do hospital. Comecei a atender as famílias. Dava um resultado incrível. Mas, quando comecei a apresentar isso, tive que quebrar um tabu muito forte. Ouvia: “Eu sou a fisioterapeuta, como a mãe vai fazer os exercícios?”; “Eu sou a fonoaudiológa.”... Achava que tudo aquilo poderia ser ensinado para as famílias. Peguei um grupo tratado durante um ano com a participação da família, e um outro grupo sem a participação. Quem teve a família foi muito melhor. Provei que a variável mais importante para uma criança melhorar é a afetiva. É o amor.

A criança se sente mais segura?

Quem mais quer o bem dessa criança? Quem ensina uma criança a andar? Não é o fisioterapeuta. É a mãe, a família. Quis devolver à família o papel natural. Quando comecei a falar sobre isso fora do Brasil, também me deu muito problema. Hoje a família é muito bem-aceita. Publiquei um livro que ensinava tudo com desenho, a fazer estimulação motora, cognitiva, da linguagem...

Que imagem o Sarah tem lá fora?

Hoje, o Sarah é um dos modelos mais reconhecidos em reabilitação no mundo. Esse método da família é usado em muitos países. Fui convidada no ano passado até para inaugurar um hospital na Holanda, em Haia, que usa basicamente os métodos que desenvolvi. Hoje recebo visitantes para treinar aqui. Vem gente da Noruega, da Suécia, dos Estados Unidos, da Inglaterra, França, Dinamarca, África do Sul... Temos projetos de colaboração com vários centros do mundo.

Não é um reconhecimento fácil...
É uma coisa que se constrói no dia a dia. Nunca coloquei isso como meta, mas sempre quis mostrar que esses métodos eram importantes. Nos últimos 20 anos, sempre sou chamada para abrir congressos. Amigos meus, que começaram a trabalhar comigo, de outros países, brincam: “Pôxa, você, a menorzinha de nós, latino-americana, mulher, é a convidada especial”.

Nesse período, sentiu preconceito lá fora?

Teve momentos em que senti. Essa questão da família enfrentou muita resistência. Uma vez fui falar em Curitiba sobre a importância da família e as pessoas se levantaram no meio da fala, em protesto.

Existe muita arrogância na ciência?

Existe. Alguns franceses acharam legal meu projeto da família, alguns alemães também. Mas nem todos. Tinha um amigo alemão, que me tratava muito bem, mas nunca comentava as pesquisas com a família. Uns anos depois, ele me liga: “Meu filho sofreu um acidente de carro e teve uma lesão cerebral. Estou me sentindo excluído. Só agora entendi seu lance com a família. Quero levar meu filho para você tratar, e fazer parte do tratamento”.

E a vaidade no mundo científico?
Há uma vaidade intelectual. Mas tem um lado na ciência: tudo você precisa comprovar. Como provei, com todas as estatísticas, com amostra grande, vários estudos com ressonância magnética funcional em que se mostra dentro do cérebro da pessoa, então não há um questionamento. Aí você publica esse estudo na Science, a comunidade científica acolhe, segue e tenta dar um passo à frente. Então hoje tem menos esse embate.

Como está a saúde hoje no país?

É um momento muito difícil. O país é muito grande. Garantir qualificação, qualidade, a distância... Seria necessária a formação de gestores em saúde. Ser um bom médico não significa ser um bom gestor. Mas a gestão de materiais e a manutenção do sistema são complexas. E é isso que a gente vê muito nos escândalos: falta remédio, equipamento parado. A saúde só vai mudar se a educação mudar. Minha sensação é de que o país precisa investir em educação. Com educação, você já melhora muitíssimo o nível de saúde. Uma coisa que já discuti com alguns governos: por que não se coloca no fim do ensino médio disciplinas de enfermagem, de medicina? Com um ano de formação mínima, haveria muito menos procura de pronto-socorros. Haveria muito mais ações preventivas.

Para não sobrecarregar o sistema?

Isso. A pessoa vai saber quando a situação é grave e que precisa correr para o pronto-socorro ou se pode esperar. Essa noção básica se resolve com educação. Os países que fizeram as grandes mudanças pensam nos próximos 20 anos. Veja o que era a Suécia antes de investir em educação: a pobreza, a miséria, a prostituição, o alcoolismo... E o que é a Suécia hoje, e os países escandinavos.

Mas, aqui no DF, se resolve como? É educação, gestão?

É gestão. Uma coisa que tenho informação, que me foi dito pelo próprio Rollemberg, é que tem um número muito grande de médicos na administração. Não tem nenhum médico na gestão da rede Sarah toda. E ninguém faz só gestão. Faço gestão, faço pesquisa e atendimento de pacientes. O gestor que não for para a base não sabe o que está acontecendo. Se eu não for ao meu ambulatório, à minha enfermaria, vou ficar fazendo o que aqui? Ficar de rainha da Inglaterra? E o que faz esse tanto de gente, esse tanto de médico? Por que estão na administração e não na frente? Por que não se monta um sistema de compra de material que seja minimamente planejado? Por que quando se compra um equipamento não se contrata a manutenção? Não dá para ter uma visão imediatista. Essa ideia de pensar o país a longo prazo é o que falta. É como aqui no GDF.

Qual é a solução?
Deveria se pensar assim: vamos virar a mesa e partir do zero. Vamos construir uma coisa nova? O que sinto dos sucessivos governos são remendos para dar conta durante alguns mandatos.

Seria uma mudança estrutural?

Isso. Parar tudo e ver quem está fazendo o quê. Quem vai cuidar do quê... Eu, que já fiz tantos hospitais, acho tão simples. Olhar o problema de frente, encarar. Ter a participação das pessoas. Esse também é um problema. Você não pode fazer uma gestão que não seja participativa. Não posso dizer: agora sou a secretária de Saúde e vocês vão fazer assim. Ninguém vai fazer porque quero, mas porque acredita. Passaria por uma revisão geral. Vamos construir juntos. Uma coisa muito complicada é ficar se queixando, dizendo que não pode fazer porque não tem condições. Então, descola. Providencia. Briga por isso. Se houver uma boa intenção, você vai conseguir ajuda.

Já foi convidada para ser ministra?
Fui convidada por três diferentes presidentes. Fui convidada para ser secretária de Saúde do DF, mas a estrutura política do Brasil é muito difícil. Tem a coisa da divisão partidária. A vida toda trabalhei com profissionais concursados. Acho complicado esse universo criado pelos políticos de indicar determinado profissional porque tem ligação partidária, política. O cargo de ministro é político. Não é um cargo de gestor público e o meu cargo aqui é de gestor público, de responsabilidade enorme e com cuidado muito grande dos recursos públicos. Nunca tivemos nenhum questionamento do TCU nem da CGU. Se for tudo no preto e no branco, não tem questionamento.

Na hora de pedir recursos do orçamento, há dificuldades?
A gente tem sempre um apoio muito grande da bancada do DF, de todos os partidos. Os grandes aliados do Sarah são as pessoas que nele se tratam. Os parlamentares são eleitos pela população e a população está satisfeita. O nível de satisfação do paciente do Sarah, na última pesquisa, foi de 98,3%. Quando a gente pede uma emenda, não enfrenta dificuldades. E aqui a gente não faz nenhum tipo de diferença partidária ou religiosa.

O aparelhamento político atrapalha?

Atrapalha, mas em que ministério é diferente? Acontece em todo o sistema político.

Na saúde, o peso de indicações políticas não é maior?

Saúde e educação são áreas que não deveriam ter influência política. Se fosse ministra da Saúde, teria de brigar muito. Não iriam me querer em três meses. Logo me dariam alta. Temos que viver para a saúde e não sobreviver da doença.

Como é sua relação com os pacientes?
Sou contra distanciamento. Eu beijo, abraço, gosto. Defendo o envolvimento. Meus pacientes vão se tornando meus amigos. Você comemora cada vitória. É muito bom ver que a pessoa está melhorando e você melhora junto. A gente se “co-constrói”.

Com as derrotas, você acaba sofrendo também?

Não acredito em derrota. Tudo depende do objetivo a ser alcançado. Não posso querer que uma pessoa que comprometeu toda a medula volte a andar. Não posso considerar uma derrota não a fazer andar. Tenho que trabalhar com ela um objetivo que lhe dê qualidade de vida, e a gente vai comemorar muito, a gente vai curtir.

Muitos pacientes chegam com a esperança de cura. Como dizer a eles que nunca mais vão andar?

Acho natural que as pessoas venham com a expectativa acima da realidade. Acontece. Você não pode tirar a esperança de ninguém, mas também não pode alimentar expectativa falsa, porque reversão de expectativa é que causa sofrimento. Acontece assim: a pessoa vai conversar com outras que têm o mesmo problema. Aí, ela começa a digerir. Quando a pessoa está pronta para perguntar ao médico, ela pergunta. Não é preciso antecipar. Trabalho muito o seguinte: o que você tem, e não o que você não tem. Se você gosta de esportes, não pode ser um campeão de corrida, mas pode ser um campeão de remo. Existem “n” possibilidades. O caminhar é mais importante para as pessoas que não têm problema do que para as pessoas que têm. Se você não andar, mas souber contornar isso, será feliz, como a gente vê em milhares de paraplégicos, tetraplégicos, hemiplégicos.

Têm ocorrido muitos acidentes de trânsito por uso de celular?
Demais. É impressionante. Antes os problemas de trânsito eram causados por bebida alcoólica. Hoje são principalmente causados pelo celular. É aquela ideia de que você vai ganhar tempo. Na verdade, acaba perdendo um tempo enorme. Passar meses e anos se reabilitando. É um filme que não volta.

Vocês ainda têm programas de orientação para jovens?
Sim. Temos um programa de prevenção que é muito legal. A gente começou pensando em jovens do ensino médio próximos de tirar a carteira. Mas aí descobrimos o óbvio: adolescentes contestam os adultos. Então baixamos a faixa etária para um pessoal bem novinho, porque a criança chega em casa e fala: “Ah, pai, se não botar o cinto, não vou”.

Como fazer com que as pessoas tenham cuidado?

É interessante essa questão da prevenção: ninguém chega e fala: hoje vim me prevenir de um câncer ou de uma lesão na medula. Viável é convidar as escolas para uma visita. É o espaço da educação. Aí você vai trabalhar a formação das crianças. Seria muito legal que as crianças tivessem essa formação. A prevenção passa por aí.

Como enxerga a educação hoje no país?

É preciso investir mais na remuneração do professor. Acho impressionante que não se veja o valor desses profissionais. E investir no ensino fundamental. Um ensino fundamental de qualidade muda muito a realidade. O resto é consequência.

Há situações em que você não acreditaria que o paciente chegaria lá?

A gente nunca acha que a pessoa não vai chegar lá. A questão é construir dia a dia. Sempre se pode dar um passo a mais. Talvez seja um passo diferente, por outra via. O importante, em recuperação e reabilitação, é comemorar cada passo. Cada melhora é uma melhora.

E quanto à força de vontade do paciente?

É fundamental. Quando recebo algum paciente adulto, com uma lesão cerebral mais grave, falo: “Quer melhorar? O mais importante para melhorar é querer. Senão não vai ter como fazer nada, nem sua família, nem ninguém. A pessoa é responsável pela própria saúde.

Vocês atendem de celebridade e político a pessoa comum. O tratamento é padrão?
É absolutamente igual. Aqui não há infecção social. A família chega, toma um banho e veste um uniforme. Isso é para evitar infecção hospitalar e infecção social. A roupa que o acompanhante da celebridade vai usar é a mesma do acompanhante do paciente em uma situação econômica mais precária. Os pacientes usam o mesmo uniforme, o mesmo tratamento, a mesma enfermaria, comem no mesmo refeitório, a mesma comida. A pirâmide socioeconômica do Sarah é igual à do Brasil. Aumentou a classe C no Brasil, aumentou no Sarah. O acesso era todo por telefone, agora é pela internet. O que a gente tem, diferentemente de outros hospitais públicos, é muita busca de pessoas que poderiam pagar. Porque elas buscam a qualidade.

O índice de satisfação com o Sarah é alto. Mas há quem critique porque não consegue consulta. Por quê?
Aí depende. Muitos casos a gente não atende porque as pessoas não têm noção do trabalho do Sarah. Acham que aqui trata fratura. E aqui não trata fratura. O acesso é tranquilo. Entra no site, escolhe a unidade. Você vai ver, por exemplo, que não há ortopedia e neurocirurgia em Fortaleza. Foi definido assim. Tudo é dentro de uma única perspectiva, mas alguns têm especialidades que outros ainda não têm. Tudo isso passa pelo governo federal, porque todos os nossos recursos são públicos. 

A arquitetura tem um peso fortíssimo em todos os Sarah. Tudo tem a mão do Athos e do Lelé. Você enxerga os dois?
Isso é uma coisa maravilhosa. Até outro dia comentava... Éramos quatro pessoas muito ligadas: eu, Campos da Paz, o Lelé e o Athos. Sempre fui a caçula da turma, hoje só fiquei eu. O arquiteto não faz um hospital se você não tem um bom programa. E um programa de reabilitação não funciona se não há uma boa arquitetura. Se tivéssemos cubículos, não conseguiríamos fazer um atendimento humanizado. Então adotamos alguns princípios: abertura com a natureza, ventilação natural, iluminação natural, espaços amplos e abertos, multidisciplinariedade. Isso tudo faz parte de um programa de reabilitação. A filosofia do Sarah também se sustenta na arquitetura. Ninguém tem o seu consultório, em nenhuma unidade da rede. A gente divide boxes.

Não foram projetados?
Exatamente. Não temos computadores pessoais. Achei estranhíssimo quando vim para a diretoria — não queria vir. Não tenho talento para ficar em gabinete. Gosto de trabalhar do lado de fora. Quando vim para essa sala e vi que podia abrir a porta e botar uma mesa do lado de fora, carreguei a mesa para a grama e comecei a trabalhar. A arquitetura foi toda pensada assim: os elementos do Athos sempre conversaram com a arquitetura do Lelé. Isso a gente ensina também na formação dos profissionais do Sarah. Ninguém cola um Mickey Mouse em cima de uma peça do Athos. Lelé e Athos tinham uma conversa muito gostosa para cada hospital. Os azulejos do Sarah de São Luís, Athos pensou de maneira diferente, porque é uma cidade com tradição de azulejos. No Sarah centro, o Athos começa com o painel marrom, o painel verde. Você chega ao Sarah Lago, ao Sarah Fortaleza, explode em cores. Um dia falei ao Athos: “Você começou fazendo o Teatro Nacional todo branco... de repente explodiu em cores. Como foi isso?” Ele respondeu: “Lucinha, fiquei velho, perdi a vergonha” (risos).

Que influência tiveram na sua vida?
Tive oportunidades e estou tendo ainda de conhecer pessoas interessantes. Estou sempre muito aberta a aprender, a ouvir o outro. Aprendi muito com Campos, com Lelé, com Athos... Tinha outras pessoas também. Jorge Amado, Zélia Gattai, Millôr Fernandes, pessoas de uma sabedoria.

Do que mais sente falta de Campos da Paz?

Do humor. Na vida diária, a gente tinha uma relação muito próxima. Teria idade para ser filha dele. E um dia ele me falou: “Engraçado, as pessoas pensam que você é tipo minha filha, mas você é tipo minha mãe” (Risos). E é verdade. Porque ele era muito impulsivo. E eu dizia: “Não, não pode, se comporte!” A gente tinha essa liberdade.

Ele disse uma vez sobre você: “O professor se realiza quando descobre que o aluno é melhor que ele”.
Ele botou isso no livro dele. Falei para ele: “Não bota isso não”. Sou do tipo low profile.

Trabalha quantas horas por dia?
Quantas horas for preciso. O envolvimento que a gente tem vem da paixão pelo trabalho. Deve ser muito triste uma pessoa trabalhar numa coisa de que não gosta. Morreria. A gestão me dá prazer. Acho muito gostoso organizar as coisas, ver o resultado e envolver as pessoas. É preciso pensar junto, porque a conquista é do grupo. Aqui todo mundo é muito preocupado em não rasgar o papel, de imprimir um papel que não precisa, de sair e deixar uma luz acesa.

Como cortar gastos e manter bons salários?

Há 15 anos, cortaram muito o nosso orçamento. E os preços subindo. O dinheiro estava limitado e o salário, uma porcaria. Falei: “O salário da gente está ruim, não está? Também acho, porque também sou funcionária. Se todo mundo diminuir o custeio, dá para aumentar o salário”. Imediatamente todo mundo fez uma economia enorme no custeio e reverteu em salário no mês seguinte. Mas a gente sabia que tinha de manter. E até hoje temos essa filosofia.

Como você enxerga a crise no país? 
A gente não pode se deixar levar pelo baixo astral. Tem tanta gente batalhando por alguma coisa boa... Tudo passa se a gente resolver cooperar para que as coisas sejam superadas.

E o teatro do Sarah? Os pacientes frequentam?
Sempre achei legal trazer arte para dentro do hospital. Logo que vim para cá, trazia filmes, uns amigos da Escola de Música para tocar. A gente ia fazer um barulho lá fora. Quando resolvemos ampliar o auditório, fizemos um que serve também de teatro. É um espaço com acessibilidade. Os pacientes adoram. Tem gente que vem de maca, tomando quimioterapia. Já falo logo para os artistas: se alguém sair, não é nenhuma crítica (risos). E agora comecei a perceber que diminuiu muito o uso de analgésicos, porque você levanta o astral das pessoas.

Ministro do TCU diz que o tribunal cumpriu apenas a obrigação

Um dia depois de recomendar ao Congresso Nacional que rejeite as contas da presidente Dilma, o relator do processo no Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes, passou a tarde ministrando palestra sobre governança e dando autógrafos em Belo Horizonte. A tensão dos dias anteriores à sessão foi substituída por uma sensação de alívio e de dever cumprido. “Fizemos nossa parte”, disse ele ao Correio, para, em seguida, completar: “Foi tenso demais, mas foi histórico”. Ex-deputado, o gaúcho que presidiu o TCU entre 2013 e 2014 afasta qualquer possibilidade de voltar ao cenário político em 2018, como asseguram alguns integrantes do governo para justificar a rejeição das contas do governo em 2014. “Acham que fiz política. Eu cumpri apenas a minha obrigação.” Nesta entrevista em audioconferência, Nardes disse que sofreu ameaças e apontou quem pode estar por trás dos telefonemas anônimos e mensagens que recebeu: “Militantes partidários”. Ele acusa o governo de usar a estrutura do Estado para tentar impedir o tribunal de mostrar ao país “a desgovernança fiscal provocada pelas pedaladas”. Na entrevista, Nardes comenta ainda sobre a “dramática” situação financeira dos estados. Em parceria com o governador Rodrigo Rollemberg, acompanha de perto a crise do Distrito Federal que, segundo ele, deveria ser exemplo e hoje envergonha o país. Ele adianta que o TCU está empenhado em uma grande auditoria nas terras do DF para responsabilizar quem promove invasões em áreas da União. E lamenta o descaso do poder público: “O Entorno de Brasília se tornou uma grande favela”.


 "Espero que a Câmara tome uma decisão o mais rapidamente possível. A nossa parte nós fizemos"

O senhor teria dito que houve pedaladas também em 2015. Como é isso?
Quem estava lendo isso era o procurador Júlio Marcelo (de Oliveira). Ele está trabalhando nessa questão e pode informar melhor. Há indícios, pelo que ele me disse, mas eu não sou relator das contas de 2015. É o José Múcio (Monteiro). Futuramente, ele pode entrar com uma representação — e é bem provável que entre. Eu falei baseado no que ele me falou.

O senhor falou que sofreu ameaças. Foi um período muito tenso o desses últimos meses?
É. Eu tive várias ameaças, mas muito mais apoio que ameaças. Agora, esse período já passou, mas, de qualquer forma, estou ainda com seguranças, por questão de proteção física e, especialmente, no sentido de que não acontecesse nada, porque seria ruim para mim e para o próprio governo. Tenho consciência de que o governo jamais faria alguma coisa nesse sentido, mas militantes partidários podem fazer. E aí poderiam colocar a responsabilidade sobre o governo, e eu não queria que isso acontecesse. Eu não acuso ninguém, só procurei manter a minha integridade e a da minha família, para preservar uma condição tranquila na votação, que acho que foi um momento histórico. Fico muito satisfeito, especialmente pela decisão do ministro (do STF, Luiz) Fux, de ter mantido a sessão do Tribunal de Contas da União. Se não houvesse sessão, seria cerceamento de liberdade de um tribunal importante e da busca da transparência nas contas da presidente. Por isso, foi muito importante o momento de ontem (quarta-feira). Tenso, mas histórico. Nós vivemos um momento muito tenso porque, depois da coletiva dada pelos ministros no domingo, foi colocado em suspeição não somente o ministro Nardes, mas todo o corpo técnico do Tribunal de Contas da União. E isso, com certeza, abalou bastante a Corte como um todo. É um momento histórico para nós e para o país.

Qual o principal motivo da crise?
Fiz uma palestra hoje (ontem) em Belo Horizonte. Todos os tribunais de contas estão aqui com o pessoal do controle. Vim lançar um indicador de autogovernança, para ver como é que está a governança não somente da União, mas dos estados, municípios. É um trabalho inédito, que considero um novo norte para a nação brasileira. É o grande tema. O que aconteceu com as pedaladas é a desgovernança fiscal. Então, tem a ver com as pedaladas, com as contas, o que nos levou a chegar a essa situação de R$ 106 bilhões de irregularidades. O Brasil precisa fazer sua parte pela governança, objeto deste livro que nós lançamos hoje (ontem) em Belo Horizonte, Governança pública: o desafio do Brasil. São 500 páginas que mostram por que o Brasil não funciona hoje.

É ausência de governança?
Estou muito preocupado com essa tese. O governo muitas vezes não gosta, mas eu tentei auxiliar o Planalto a deter essa sangria ano passado. Não estavam sendo contabilizados R$ 2,3 trilhões da Previdência dos funcionários públicos da União e isso levaria a uma situação, para a Previdência, que é de praticamente inviabilizar o pagamento de aposentadorias no país. A previsão do deficit para o ano que vem é próxima de R$ 190 bilhões. Se o país não voltar a crescer, não teremos dinheiro em pouquíssimo espaço de tempo para pagar os aposentados e talvez até tenhamos que cortar os salários dos funcionários públicos.

O governo alega que todo mundo sempre pedalou e que só agora houve essa reação. As pedaladas de Dilma são diferentes?
Na minha exposição tem um gráfico mostrando isso. Desde 2004 até 2014, o gráfico demonstra que no último ano teve um impacto de irregularidades muito acentuado. Mostrei que a versão dada pelo governo não é a realidade. Até 2013, não havia uma dissonância e uma irregularidade tão graves como as de 2014. Claro que a razão da nossa proposta para o Congresso pela rejeição das contas não é somente em razão das pedaladas. É o conjunto da obra. A soma das pedaladas, a questão do contingenciamento, que ela tinha que ter feito de R$ 28 bilhões em 2014, mais R$ 10 bilhões que ela usou para fazer com o que o Congresso aprovasse isso, o que daria R$ 38 bilhões. São R$ 78 bilhões, com os R$ 40 bilhões do dinheiro adiantado para a Caixa, para pagamento de programas sociais, também recursos do BNDES e do Banco do Brasil. Depois, o Ministério do Trabalho, mais uma parte que ela tinha que ter contingenciado, os decretos de créditos que ela abriu sem autorização do Congresso. Uma série de irregularidades levou à proposta da rejeição das contas. Não foi um fator, são vários fatores. Isso mostra uma desgovernança fiscal e nós temos que ser um tribunal impedidor da desgovernança. Porque, se não fizermos isso, como fizemos na quarta-feira, corremos o risco de levar o Brasil para uma situação semelhante à que aconteceu com a Grécia, com a Espanha. E nós não temos uma Europa para salvar o Brasil.

Os governadores também vivem um momento caótico. A rejeição das contas da presidente vai abrir caminho para que os estados sofram o mesmo?
Nós temos 10 estados em situação praticamente lamentável, de não conseguir pagar os funcionários públicos. É a situação do Distrito Federal e do meu estado, o Rio Grande do Sul. Em curtíssimo espaço de tempo, nós não vamos ter dinheiro para pagar de forma integral os aposentados e talvez até não conseguir pagar mais os funcionários públicos, porque caiu a arrecadação. É preciso um basta nessa forma de governar e gastar sem arrecadação suficiente, como aconteceu em 2014. Nós mesmos podemos encontrar um caminho se melhorarmos a governança, que é o grande problema da nação brasileira. Porque o fato político pode acontecer, pode ser eventual. Mas, se não tiver um bom produto para entregar à sociedade, em termos de educação, saúde, infraestrutura ou segurança, as pessoas estarão indignadas com o serviço público
apresentado. E a consequência disso é baixo crescimento, baixa competitividade. Eu analisei na primeira fase das contas a questão da competitividade. Nossa infraestrutura está muito aquém das nações que competem conosco em termos de preço e produto que é entregue no porto. Por exemplo, um produto no porto na Holanda, nos Estados Unidos e na Argentina, é em torno de 25. No Brasil, está 85. O país perdeu todas as conquistas que tivemos.

Muita gente aplaudiu sua decisão país afora. Mas, naturalmente também, o PT e aliados do governo fizeram duras críticas ao senhor e fazem referência à citação do seu nome na Operação Zelotes. Como o senhor recebe isso?
Foi arquivado.

Foi arquivado, mas essa e outras questões relacionadas ao senhor lotaram as redes sociais. Essa pressão é coisa do momento?
Eu acho que é só esse momento, porque procurei colaborar com o governo, estive várias vezes com a presidente Dilma, várias vezes com o chefe da Casa Civil, (Aloizio) Mercadante, entregamos o livro, mostramos onde estão os gargalos da governança, fizemos trabalho em conjunto. A gente oportunizou toda a defesa e, portanto, tivemos 90 dias praticamente de prazo para o governo fazer a defesa. Tenho um profundo respeito à administração como um todo, temos excelentes instituições dentro da estrutura do governo, mas a governança como um todo não é um problema somente da União. A boa governança é problema nacional. O Banco do Brasil funciona muito bem, o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Fazenda em algumas áreas, especialmente da Receita, que é uma excelência. Mas o conjunto da administração pública deixa a desejar. Na questão das concessões, fizemos mais de 50 reuniões orientando a Casa Civil a melhorar. O governo está utilizando toda a sua estrutura para evitar que nós façamos o nosso trabalho, mas nós procuramos dar toda as oportunidades de defesa para o governo.

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O que provocou a falta de boa governança em 2014?
O fato de ser um ano eleitoral torna a situação mais grave. A legislação é clara definindo o que pode e não pode no período eleitoral. Os R$ 28,5 bilhões tinham que ser contingenciados no inicio do ano. Em todos os anos anteriores foi feito o contingenciamento. Em 2014, não. Mandou-se o projeto para o Congresso Nacional depois que as finanças estavam deterioradas, em novembro. Faltou uma assessoria adequada para a presidente. Se ela tinha conhecimento ou não, quem responde é ela, porque cabe a ela assinar o decreto do contingenciamento e, infelizmente, ela não fez. Foi uma soma de irregularidades e não faltaram alertas, mas as medidas corretas não foram tomadas.

O governo diz que o senhor tomou essa decisão porque tem planos eleitorais para 2018. Pretende voltar para política?
Não tenho pretensão de voltar à política. Já fui parlamentar. Os críticos não entendem que o Tribunal de Contas passou por uma evolução. Na presidência do TCU, nós demos sequência ao belo trabalho de presidentes anteriores e seguimos um exercício de diálogo e aproximação com todos os estados. Montamos uma especialização no Tribunal. O TCU está preparado para mostrar todos os gargalos da nação. Fizemos em 2013 e 2014 um diálogo público com todos os estados e chamamos todos os governadores para um pacto pela governança. Isto faz parte de uma estratégia de mudança de comportamento do tribunal de trabalhar preventivamente para auxiliar a administração pública. Estou hoje em Belo Horizonte com representantes dos tribunais de contas de todo o país para mostrar e dar sequência e este
trabalho. Essas palestras que tenho feito são parte dessa proposta de fazer com que o TCU assuma o papel de ajudar neste projeto de melhorar a governança no Brasil. É um momento diferenciado que todos os tribunais estão fazendo.

O senhor acompanha de perto a situação de Brasília, não?
Sim. Inclusive sobrevoei duas horas essa área toda de Brasília com o governador Rollemberg e o presidente da Terracap para conhecer mais detalhadamente o grave problema das invasões de terra no Distrito Federal. Estamos fazendo uma grande auditoria para mergulhar na questão das invasões do DF.

Ficou preocupado com o que viu? As invasões cresceram muito? A grilagem está irrefreável?
Os indicadores de Brasília são preocupantes. Fiz uma palestra na Câmara Legislativa na semana passada. Os indicadores de criminalidade em algumas cidades do Entorno de Brasília são os maiores do Brasil e estão entre os maiores do planeta. O Entorno tem uma degradação grande. Eu alertei o governador e estamos fazendo uma grande auditoria também com ajuda do Tribunal de Contas de Goiás. Temos uma série de indicações e vamos responsabilizar os dirigentes da União que não protegem as áreas federais. O Entorno de Brasília se tornou uma grande favela semelhante a outras enormes do país. É inaceitável que o Estado não possa promover loteamentos, fazer casas com projetos como o Minha Casa Minha Vida. Nós faremos uma grande auditoria de terras nestas áreas, a maior já vista aqui. O papel do TCU é também preventivo. O que fazemos hoje em relação à terra é um grande alerta para coibir e para responsabilizar quem não está tratando essa questão com a devida correção. Essa é uma das minhas prioridades.

A situação financeira é dramática em Brasília?
A situação é dramática, mas não só em Brasília. Neste em outros casos precisamos ficar atentos para que os governantes não fiquem quatro anos, como aconteceu na última administração do DF do Agnelo Queiroz, gastando todo o dinheiro, inviabilizando as contas do estado totalmente e nada acontece. Em Brasília, há risco de não pagar os salários dos servidores. Isso é inadmissível. Se o controle não tiver coragem de mostrar isso para a sociedade, vamos caminhar para uma situação lastimável. Nós temos cargo vitalício pra quê? Para dizer amém? Para passar a mão na cabeça de todo mundo e dizer: “Olha, está tudo certo”? Não, não estamos aqui só pra dizer amém. Brasília, que deveria ser um exemplo, até por ter receber um fundo da União, infelizmente está inviabilizada em curto espaço de tempo. O governo pode não pagar a folha do mês. O fato de eu ter coragem de mostrar isso é o que me faz receber todo tipo de pressão. O que quero mostrar é que a estrutura que temos no Estado, do Ministério Público, da Polícia Federal não tenha quebra de continuidade. O que está acontecendo no DF vai acontecer em todo lugar. O governante não tem controle, o Brasil passará em curto espaço de tempo a não conseguir pagar o salário dos aposentados e muito menos a folha dos servidores. Temos os rumos, somos os responsáveis. Isso é fazer política ou cumprir com o meu dever? Ao tentar me cercear, eles querem calar quem não tem medo de mostrar a verdade.

O presidente da Câmara disse que apreciação das contas presidenciais só acontecerá em 2016. Isso não inviabiliza tudo?
A sociedade está muito atenta e acompanha tudo de perto. A sociedade brasileira quer transparência já. Foi o que o fizemos e cumprimos nosso papel. Demos todas as chances ao governo, respeitamos os trâmites. Não cabe a mim julgar a questão do impeachment. Cabe a mim julgar as contas. Esperamos que a Câmara tome uma decisão o mais rapidamente possível, mas respeito a decisão do Congresso Nacional. A nossa parte nós fizemos.

Fonte: Correio Braziliense - 09/10/2015 08:04 / atualizado em 09/10/2015 10:50

O ator e dramaturgo, diz que Lula é uma comédia, que o País só irá avançar com novas lideranças e faz severas críticas ao socialismo

Entrevista. JUCA DE OLIVEIRA

Aos 80 anos, o ator e dramaturgo Juca de Oliveira carrega a convicção de que depois da crise o Brasil terá um recomeço, com novas esperanças e novas lideranças. Para ele, o atual momento político, que teve início com a chegada de o PT ao poder, acabou. Na entrevista que concedeu a ISTOÉ, Juca diz que é na força de suas peças que ele descarrega tudo que o irrita...

RECOMEÇO

'A mudança nascerá na esteira do judiciário e da Lava Jato' diz Juca

Enquanto grava a novela das seis “Além do Tempo”, na Globo, o autor de espetáculos consagrados como “Caixa 2”, “Às Favas com os escrúpulos” e “Meno Male”, escreve a peça “O Ministro”, uma ficção que trará muito da realidade da política atual. O ator, que encerrou o espetáculo “Rei Lear”, de William Shakespeare (1564-1616), dirigida por Elias Andreato numa versão criada por Geraldo Carneiro especialmente para ele, é um apaixonado pela construção dramática da Tragédia e da Comédia.

"Acho a Dilma triste.... Ela não é plausível nem verossímil...

Até os paralelepípedos acham que ela deveria renunciar"

É nela que se apóia para dar a sua próxima peça a estrutura de uma comédia. É nela também que Juca se apóia para formular suas críticas ao PT, ao ex-presidente Lula e ao governo da presidente Dilma Rousseff. O ator cita Aristóteles e a obra “A poética”, lembrando que o filósofo foi o primeiro pensador a teorizar a tragédia e construção dramática do teatro. Aristóteles acreditava que a comédia imitaria os homens piores e a tragédia os seres humanos melhores. Passeando por essas teorias, o ator conclui que “Lula é uma comédia”. 

"Eu fui stalinista. Aí descobriu-se que Stalin era um genocida tão grande

ou maior do que Hitler. Eu me dei conta: 'E agora o que eu faço?'"

ISTOÉ -

O sr. sempre teve um olhar aguçado para a política. Como avalia o momento brasileiro?

JUCA DE OLIVEIRA -

 Vejo como todo mundo sabe: acabou. Esse momento político originado pelo PT acabou. Nós temos que partir para um outro momento para salvarmos o País. O Brasil tem necessidade de avançar. É preciso uma nova liderança, um novo movimento político. É isso que deve surgir no epicentro de uma crise. A história nos demonstrou que na crise nascem soluções. E uma solução que vem do que? De novas lideranças insuspeitas.

ISTOÉ -

Vê algum recomeço possível neste momento?

JUCA DE OLIVEIRA -

Não tenho ideia. Mas Eu acho que vai nascer... E tudo que nascer agora, nasce na esteira do Judiciário. Na esteira da operação Lava-Jato, na esteira dos juízes, desses promotores, procuradores que estão trabalhando pela integridade e pela honra, pela dignidade e pelo caráter dos brasileiros. Essa é exatamente a necessidade do povo brasileiro.

ISTOÉ -

O sr. acredita na possibilidade de renuncia da presidente Dilma?

JUCA DE OLIVEIRA -

Até as pedras e os paralelepípedos acham que Dilma deveria renunciar. Todo mundo acha que ela devia renunciar. 

ISTOÉ -

E o ex-presidente Lula ....

JUCA DE OLIVEIRA -

Ele é muito fluido nas suas posições. Ele muda muito. A cada instante o Lula diz uma coisa. É curioso o seguinte: Eu escrevo peças de teatro e minhas peças geralmente são análises críticas sobre a política. Porque eu escrevo muito sobre coisas que me irritam. Ou você escreve sobre coisas pelas quais você se apaixona, ou coisas que te humilham e te indignam. E eu escrevo também sobre as coisas que me indignam. Uma coisa que me indigna muito é exatamente a falta de integridade e de caráter. Essas minhas peças, embora eu não tenha o objetivo de escrever sobre comédia, elas acabam se tornando comédias. Elas têm um caráter político. 

ISTOÉ -

E por que elas se tornam comédias?

JUCA DE OLIVEIRA -

Isso você aprende em Aristóteles, em A Poética, você aprende técnicas de construção dramática. Como se fosse um how to write a play (como escrever uma peça). E você aprende que a tragédia é a história de um homem tão excepcionalmente cumulado de virtudes que ele prefere a morte a viver sem honra. Essa é a tragédia. E aí você vai descobrir também que a comédia é o oposto. É a história de um homem tão defeituoso e tão cheio de vícios que ele prefere qualquer coisa, exceto a morte. Ele prefere a falcatrua, a grana, a propina, ele prefere qualquer coisa. Então, sempre que você fala sobre um homem defeituoso, é uma comédia. 

ISTOÉ -

Que exemplos você daria?

JUCA DE OLIVEIRA -

Édipo é muito interessante para exemplificar. Gosto de dar esse exemplo porque ele é sintomático. O Édipo é um chefe de Estado na Grécia, em Atenas, e de repente se surpreende com uma peste que está dizimando o povo de Tebas. Todos estão morrendo. E ele descobre por que está acontecendo isso. Vem um oráculo e lhe diz: um crime foi cometido. Um homem matou o pai e casou com a mãe. Enquanto esse homem não for castigado, não for punido, a peste continuará. Então ele, como chefe de estado, começa a investigar onde está este homem. À medida em que vai investigando, ele vai chegando próximo dele mesmo. 

ISTOÉ -

E ele repassa sua vida...

JUCA DE OLIVEIRA -

E aí vem à mente toda a vida dele: vem um homem que pegou uma criança deixada num cestinho, etc... Então o que ele poderia fazer: poderia interromper a investigação. Não aconteceu nada disso, é um erro, isso aconteceu em outro lugar, vamos desistir. Mas Édipo avança: Vou fazer a investigação. Por que parar? Não vou parar. Ele vai até o final da investigação e descobre que o homem que cometeu o crime é ele mesmo. Ele arranca os próprios olhos e morre. 

ISTOÉ -

E onde entra Lula nessa comparação?

JUCA DE OLIVEIRA -

Pense o Lula, chefe de Estado. De repente, se descobre que no governo dele há um crime. Assessores, ministros dele estão roubando. Estão metendo a mão na grana: primeiro, acontece o Mensalão. O que restava a ele? Vamos supor: se ele seguisse o exemplo do Édipo, que é um homem cumulado de virtudes, que prefere a morte a viver sem honra, ele ia até o fim investigando e pegaria todos eles: José Dirceu e companhia limitada, todos os membros do partido. Teria-os denunciado publicamente. Esses não eram os petistas que ele considerava. Ele pensava que eram homens honrados, mas não eram. No entanto, o que ele faz? Ele diz: não, eles são heróis da pátria. E são perseguidos pela mídia golpista. Pela direita extremada.

ISTOÉ -

Por esse raciocínio da teoria dramática, como ele deveria agir no palco da tragédia?

JUCA DE OLIVEIRA -

No que ele exerce essa função, ele passa exatamente para o campo da comédia. Então, hoje quando você fala em Lula, é uma comédia. Não é raciocínio, estou citando teoria da comunicação, teoria da literatura. Teoria da construção dramática. Estou falando de teatro. Estou falando de tragédia e comédia. Lula, portanto, é uma comédia. Não precisa falar mais nada. Essa teoria não é original. É verdade.

ISTOÉ -

E a presidente Dilma?

JUCA DE OLIVEIRA -

A Dilma... o problema dela não é a comédia. Entra na internet e veja as frases dela. Na comédia, ou em qualquer obra de caráter dramático, há uma coisa muito importante que é a plausibilidade e verossimilhança. Tem que ser plausível e verossímel. A Dilma não é nenhuma das duas coisas. Ela é presidente, mas não pode falar essas coisas que ela fala de uma forma absolutamente destituída de conexão cerebral. Então não dá. Talvez fosse um drama. Mas ela entraria numa fase onde você já tivesse um pouco de comiseração. Não é engraçado. Eu não acho a presidente Dilma engraçada. Acho triste. Outro dia ela falou da banana casca. E ela queria dizer skin, banana skin. Ela queria falar inglês, mas não ocorreu a palavra.

ISTOÉ -

Sua história de vida guarda ligações com o PT?

JUCA DE OLIVEIRA -

Eu fui atuante contra a ditadura. Fui várias vezes preso, fui exilado. Eu fui comunista. Eu com o PT, não tive uma história. Mesmo na formação do PT não tive uma história. Eu fui stanilista. 

ISTOÉ -

Stalinista?

JUCA DE OLIVEIRA -

Quando houve a desistalinização, descobriu-se que o Stalin era um genocida tão grande ou até maior que o próprio Hitler. Ai eu me dei conta: “Pera aí, eu sou stanilista. E agora, o que eu faço? Como fica minha vida?” Aí a desestalinização destrói a União Soviética. E eu pensei que todos os Estados que se esfacelaram optariam pelo socialismo, cada um particularmente. A Iuguslávia, a Romênia.etc, Mas não, todos optaram pela democracia. E eu pensava: meu Deus! eles odiavam o socialismo! E eu percebi que talvez aquela ânsia pelo Stalin era mais ou menos uma ligação religiosa. As pessoas o amavam como se fosse um Deus. Eu era religioso. Eu sou místico, sou do teatro, da mitologia, do teatro da religiosidade, a religiosidade está impregnada em mim, eu não tenho (ou não tinha) um Deus Stalin. Meu Deus era um Deus. Então vou cair fora, não vou atrás do Stalin. E aí eu descobri o seguinte: se até os 25 anos você não for comunista, você não tem coração, porque você não tem piedade. Se depois dos 25 anos, você continuar comunista, você não tem cérebro.

ISTOÉ -

Quantos anos o sr. tinha...

JUCA DE OLIVEIRA -

Eu devia ter uns 32 quando eu larguei essa coisa. Acho que o socialismo foi um enorme equívoco. A minha função é uma função apaixonada, trabalho por paixão. Eu estou sempre procurando alguma coisa, resolvendo um problema: quero escrever, fazer uma peça, fazer um filme, enquanto que a idéia do socialismo é de que você seja absolutamente igual. Eles são contra o PHD, o PHD em Harvard é um perigo para os socialistas. A qualificação pressupõe integridade. E a integridade pressupõe independência. Então o pior perigo para o socialismo é um PHD, porque ele é independente.

Por Gisele Vitória-revista istoé - 06/10/2015 - 12:42:38

 

Petista concedeu entrevista ao Correio em que rebate acusações feitas por Rollemberg de ter deixado rombo nas finanças do GDF

Pairam sobre a mesa da sala do ex-governador Agnelo Queiroz várias pilhas de papéis. São documentos oficiais contábeis, extratos, planilhas, projetos de orçamentos. Munido desse arsenal, com a presença de quatro assessores, especialistas em trâmites legislativos, administração pública e finanças, o petista recebeu a equipe do Correio para esta entrevista disposto a acabar com a guerra de versões que se arrasta há oito meses.

O governo Rollemberg diz ter recebido um deficit de R$ 3,8 bilhões. Agnelo assegura que havia cerca de R$ 900 milhões em caixa, sem contar as receitas de 2014 que ingressariam no início de 2015. Para rebater o que chama de campanha difamatória, o ex-governador fez questão de mostrar a papelada oficial repleta de números. É uma tentativa de limpar a sua imagem e a de seu governo, desconstruídas, segundo ele, pelo sucessor.

Depois de um tempo afastado de Brasília, voltou com a intenção de recontar a história do mandato petista sob a sua própria ótica. Deu demonstrações claras de que não pretende encerrar sua carreira política nem amargar um autoexílio maior do que se impôs logo após a fragorosa derrota nas urnas.

Vestido com colete ortopédico, em virtude de hérnias de disco, lamenta não poder correr nem praticar exercício, um hábito que sempre teve na vida. Apesar disso, está confiante de que o tempo vai redimi-lo das dores físicas e do descrédito da população.

Não critica aliados, não aponta culpados, nem guarda mágoa do eleitor. Conformado com o veredito das urnas, só não aceita o julgamento feito pelo atual governo. E desafia os críticos: “Tenho confiança de que o meu governo ainda será muito reconhecido.”

Afinal, houve rombo nas contas do DF?


O meu governo não deixou rombo nenhum. Vou explicar com números concretos e dados oficiais, para acabar com essa falsa polêmica de que deixei as coisas quebrarem.

Incomoda muito isso?


É claro, porque isso não é verdade. Vamos aos fatos: o Diário Oficial de 30 de janeiro de 2015, no Relatório de Gestão Fiscal (um demonstrativo da disponibilidade financeira do governo), mostra que eu deixei R$ 917 milhões no caixa. Como havia restos a pagar de R$ 828 milhões e outras despesas, deixei um saldo de R$ 70 milhões. São dados oficiais. Não tem rombo.

Quem está mentindo então?


É muito importante esclarecer esse ponto porque isso foi deturpado o tempo inteiro. Todo dia havia um número: era R$ 2 bilhões, R$ 3 bilhões, R$ 3,8 bilhões, R$ 5 bilhões, R$ 7 bilhões... todos os dias...

A discussão começou quando o Correio publicou, no início do ano, que havia saldo de R$ 1 bilhão.
Exatamente. Os números de hoje são apenas a confirmação daquela reportagem. Depois houve aquela tentativa de me desmentir, sem nunca apresentarem um papel, como o que estou colocando hoje são dados oficiais, do Governo do Distrito Federal, isso elimina todas as dúvidas. Ou seja: tinha saldo. E mais do que isso: além desse saldo, entraram nos cofres do governo R$ 283 mihões que foram receitas de 2014 — chamam-se receitas de transição, porque são de 2014, mas entraram nos primeiros dias de 2015. Cito, como exemplo, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Em 30 de dezembro, o governo federal liberou R$ 28 mihões, e esse dinheiro entrou no DF somente em janeiro.

O atual governo estaria fazendo isso por quê? Seria uma campanha, uma orquestração?


Este governo se apavorou e tentou arranjar uma desculpa para esconder sua completa inoperância.

O Rollemberg deixou de pagar salários em dia para os servidores. Se ele tivesse esse dinheiro, o senhor não acha que ele pagaria?


Ele deixou de pagar, parcelou, não foi? Quem determinou a ele que pagasse? O juiz. O juiz mandou pagar porque era ilegal. O que aconteceu? O dinheiro apareceu. Você já viu aparecer dinheiro após decisão judicial? Vejam o que aconteceu com a licença-prêmio dos servidores. Rollemberg foi para cima deles para tirar uma conquista do meu governo. Ele tentou tirar, mas a Justiça determinou que pagasse. Aí o dinheiro apareceu.

O governo Rollemberg está escondendo dinheiro?


O dinheiro apareceu. Decisão judicial não faz aparecer dinheiro. Se não tivesse o dinheiro, mesmo com decisão judicial para pagar, não seria pago.


Trata-se de uma guerra política para destruir sua imagem?


É evidente. Não adianta ter ódio de mim, porque isso prejudica a população do Distrito Federal. Para dar sequência à mentira, foi preciso criar na cidade um clima de pessimismo, de derrotismo, de jogar a economia para baixo, de afastar investidores. A cidade está completamente parada.

Não seria uma estratégia política muito errada?

 

Quando Rollemberg deixa de pagar servidor, ele ganha uma resistência muito grande. Se ele não pagar os salários no fim do ano, ninguém vai lembrar de que foi do governo passado. É suicídio qualquer governo ter dinheiro e não pagar porque não quer.


Esse comportamento de Rollemberg é o chamado tiro no pé. Pegue, como exemplo, o pagamento de dezembro dos servidores públicos a ser efetuado em janeiro. Isso vem acontecendo há tempos. Eu recebi isso, paguei os salários em 5 de janeiro de 2011, como sempre aconteceu. Paguei os restos a pagar, que eram muito maiores. A dívida chegava a R$ 2,5 bilhões, quase R$ 3 bilhões. Paguei até dívida de 2007, e assumi em 2011.

 

Em vez de jogar uma visão pessimista para a cidade, nós cuidamos de ampliar a receita, tomar providências, fazer os remanejamentos necessários. Em resumo, governar. Quando você entra no Buriti, é para responder às necessidades da população. Você não entra para tentar rotular alguém por ter deixado um rombo e não consegue provar.


Mas os técnicos do TCDF dizem: há R$ 2,2 bilhões não contabilizados em dívidas. No relatório, eles dizem que isso grave, descumpre a Lei de Responsabilidade Fiscal. O que o senhor argumenta em sua defesa?


É preciso, em primeiro lugar, situarmos do que se trata. Estamos falando de uma auditoria feita pelo Tribunal de Contas. Portanto, ainda não é a posição do tribunal. Essa auditoria foi recusada no plenário. O pleno do tribunal recusou e determinou um prazo para o direito de defesa. Esses dados foram obtidos ouvindo o governo atual — o tribunal deixa isso claro na metodologia. Ele ainda vai ter que explicar como chegou a esses números.

O senhor não reconhece esses números?


Em absoluto. Não correspondem. Há erros gravíssimos na auditoria. É isso que vamos demonstrar na nossa defesa. Então, o tribunal poderá examinar, à luz da defesa, e dos próprios esclarecimentos, de como se chegou a esses números — porque não há até o momento. Esses dados não foram do auditor do TCDF. Ele colheu os dados junto ao governo, não auditou esses números.

A fonte está comprometida então?


Exatamente. É a mesma fonte que, desde o início do governo Rollemberg, está dando esses números inverídicos. Outra coisa que é importante observar: no método da auditoria, eles indicam os riscos da avaliação. Reconhecem que a avaliação dos riscos, quanto à detecção de erros, é alta.

São números muito específicos. Vocês são técnicos, conseguem entender. Mas o cidadão brasiliense, não. A cidade fica em meio a um pingue-pongue. Já temos oito meses de governo, e se discute a mesma coisa. Mas é por isso que a imprensa tem esse nobre papel. Se eu chego aqui e dou números ao vento, não mostro um documento, evidente que poderia ter bate-boca. Não estou fazendo isso. Estou apresentando os dados e tenho certeza de que vocês checarão. Não se inventam dados da administração. Você pode esconder por um tempo, mas estamos falando de dados contabilizados.

Acha que Rollemberg quer chegar ao fim do ano como aquele que conseguiu resolver todos os problemas. Alguma hora ele vai ter que aparecer como o salvador então, é isso?


Talvez.

Seria incompetência ou má-fé deste governo?


Há um misto de incompetência e má-fé. Quando há incompetência, você busca acertar e procurar quem conhece. Mas persistir, depois de oito meses, dando números que não consegue provar... Como disse antes, deixei saldo na conta, além de receitas de 2014 que reforçaram o caixa. E ainda deixei um empréstimo de R$ 500 milhões do Banco do Brasil. Fiz esse empréstimo, foi aprovado e conseguido no meu governo. Podia ter saído até uma parte ainda no meu mandato, mas terminou não saindo... Não tem esse negócio de que foi conseguido porque alguém tem relações com o banco.

O governador Rollemberg diz que eles resolveram tudo no início de 2015, mas o senhor já falava desse empréstimo na entrevista de fim de ano ao Correio.


Não tem como enganar porque está aprovado no conselho do banco, podem checar. Isso desmoraliza qualquer cidadão. O processo é muito demorado. Consegui um empréstimo no BNDES, recebi um terço do empréstimo — algo em torno de R$ 111 milhões — e ele ficou com dois terços para receber agora. Assinei um contrato com o BID no fim do ano, de US$ 260 milhões, hoje dá mais de R$ 600 milhões, está disponível para fazer a execução dessas obras que foram deixadas em meu governo. É só pegar o dado que o próprio governo apresentou na Câmara Legislativa: lá estão R$ 2,8 bilhões obtidos por meio de financiamentos. Então eu quero que mostrem: cadê o rombo?

O senhor diz que o governo atual manipula dados contábeis, manipula informações de empréstimos, anuncia coisas que o senhor fez como sendo deles. O senhor ficou um tempo afastado. Por que nem o PT — com exceção de Chico Vigilante —, nem o vice-governador, nem os secretários do seu governo fizeram uma defesa mais firme? O senhor se sentiu sozinho nesse processo todo?


Não, em absoluto. Chico Vigilante é líder da bancada do PT. Todas as vezes que o PT se pronunciou publicamente, todos falaram. Só que foram pouco ouvidos. Além disso, muita gente embarcou nessas informações, até instituições muito sérias. Na polêmica dos servidores, o então secretário de Administração, Wilmar Lacerda, sempre se posicionou.
Mas, com o peso que o PT tem na cidade, a defesa foi fraca. O debate ficou muito personificado na sua figura.


Acho que fomos pouco ouvidos. A questão é que, quando se tem uma informação oficial, ela precisa de respaldo em documentos. Quando você é candidato, está em cima de um palanque, pode jogar dados ao vento. Quando se tem a responsabilidade de uma gestão, deve-se dar um dado oficial. Sabe por quê? Porque corre o risco de um jornalista investigar na fonte e verificar que os documentos contradizem o que está sendo falado.

Mas o governo atual também dá documentos. Teoricamente, também são oficiais.Não deu nenhum.

Como acha que as pessoas enxergam isso na rua? Vão acreditar?


É claro que vão acreditar. As pessoas estão vivendo as consequências da mentira. Os servidores estão assustados, com receio de redução de salários, que foi anunciada. Primeiro, eles têm a notícia de que estão parcelando os salários deles, aí entram na Justiça e recebem o dinheiro. Você acha que o servidor vai tirar qual conclusão? Que o governo tinha o dinheiro. Agora mesmo, já ameaçou tirar outra conquista, que é a licença-prêmio. A Justiça mandou o governo pagar o benefício, e aí o dinheiro aparece. Diz que não tem recursos e aí lança plano de obras de quase R$ 6 bilhões.

Mas ele fez ressalva de que eram de outras rubricas...


Como podem surgir mais de R$ 5 bilhões? Longe de deixar um rombo, eu deixei um investimento para essa cidade. Eu fiz a disputa para ganhar a eleição, perdi, mas fiz projeto para ganhar a eleição. Das mais de 5 mil obras, havia mais tantas outras que estão em curso, com projetos aprovados, licença liberada, recursos captados. Não tem nenhum Estado, a não ser o Rio de Janeiro, por conta das Olimpíadas, que tenha investimento desse tamanho, de R$ 6 bilhões. Esse valor corresponde a quatro anos de um investimento do orçamento normal do DF. Isso, sim, é legado. Grande parte das obras que estavam em curso não precisava ser paralisada. Mais de 30 mil trabalhadores da construção civil foram demitidos, a economia do Distrito Federal ficou paralisada, a arrecadação caiu, muitas empresas pequenas quebraram.

Dados do sistema Siggo mostram que Rollemberg já gastou 70% do previsto no orçamento para pessoal, e ainda vai ter que pagar cinco meses de salário. No investimento, só foram executados 4% do que estava previsto. É uma situação complicada. É sempre assim?


A situação financeira difícil é problema nacional. Os governadores estão lutando, estão tomando iniciativas. Chega agosto, setembro, tem que fazer remanejamento e completar o orçamento, isso é histórico. Não é diferente de 2014, de 2013. É normal. Em relação aos 4% de investimento, é natural que as despesas ocorram mais no fim do ano porque você tem todo um processo de fazer a obra, executar, para depois pagar. E tem outra questão: eles paralisaram o DF no instante em que concentraram todos os alvarás em cima de uma secretaria que não está estruturada para isso. A falta de execução dos investimentos é culpa da ineficiência do governo.

 

Por que o senhor demorou tanto a falar sobre esse suposto rombo?


Eu não estava aqui para falar. Há três meses, eu falei, tive que fazer uma entrevista para desmentir inverdades. Meu objetivo era esperar pelo menos um ano, deixar o governador que assumiu trabalhar. Se ele cumprir o que eu deixei para ele fazer, já vai fazer muito pela cidade. Essa era a minha intenção. Entretanto, com a quantidade de mentiras, deturpações, manipulação de orçamento, a certa altura tive que dar entrevista para dizer que não tem rombo.

A área de saúde estava funcionando no fim de seu governo?


Sim, plenamente funcionando. Hoje não tem nem remédio.

Rollemberg desmontou a estrutura de saúde?


Houve um desmonte. O que fizemos na área da saúde em um único mandato é muita coisa. Recuperei a parte física da rede, entreguei 30 centros de saúde novos, nove clínicas da família, seis UPAs, o Hospital da Criança, carretas da mulher, carretas da visão. Brasília virou campeã nacional de transplantes, hoje não se consegue fazer nenhum. Este governo não fez um único transplante. Equipamos os centros cirúrgicos, compramos macas elétricas, fizemos a recuperação das emergências. O DF foi a cidade que mais investiu em saúde. Fiz mais cirurgia em quatro anos do que nos últimos 10 anos. Isso é dado concreto. Quando você vê que o governo não consegue sequer dar manutenção em equipamento, é porque a situação é grave.

O senhor afirma que deixou a cidade melhor e fez muito por Brasília. Então o que aconteceu na eleição? Por que o senhor perdeu?


A população não aprovou. Evidentemente essa é uma análise multilateral, da conjuntura que nós vivemos. Mas atribuo aos ataques sistemáticos que tive aqui, à cobertura de certos órgãos de imprensa que atacavam o governo de manhã, de tarde e de noite. Foi uma série de fatores.

A rejeição ao PT acabou estourando no seu governo?


Prefiro dizer que não consegui mostrar tudo que fiz a ficar procurando bode expiatório e culpando os outros. Eu trabalhava demais, até 20 horas por dia. Nunca esqueço de um desafio que eu fazia na campanha, eu dizia: “Escolha qualquer tema e traga documentos para mostrar que algum governo fez mais do que eu em qualquer área”. Parece certa arrogância, mas é a pura verdade. Quem fez mais creche, mais UPA, mais asfalto novo, mais ciclovia? Quem enfrentou obstáculos para derrubar o Caje? Se eu falar tudo, vou ficar aqui o tempo inteiro. Quem fez a maior obra de mobilidade urbana deste país, que foi o BRT? E já deixei o dinheiro para o Expresso Oeste, que é esse de Ceilândia; o Norte, que é até Planaltina; a duplicação do Torto/Colorado; e o centro de triagem norte.

O senhor fez também o estádio mais caro do país, não é?


Fiz o melhor estádio do país.

Que é subutilizado hoje...


Não, em absoluto. Por que não analisa o outro governo, que rompe os contratos internacionais, perde a credibilidade da cidade? Fiz um estádio como projeto de desenvolvimento econômico desta cidade. É um equipamento, entre outros, para utilizar plenamente este aeroporto, que é hoje o segundo em movimento no país, a ampliação da rede hoteleira. O estádio foi o que mais captou, foram R$ 5 milhões, no meu governo, de dinheiro que entrou em decorrência da grande quantidade de eventos. Nem o Maracanã, nem nenhum outro captou. Colocamos a cidade no plano internacional, fomos a melhor sede, segundo a avaliação de organismos internacionais.

Tem saído na rua, está sentindo o clima da cidade?


Sim, nitidamente. Sou recebido carinhosamente em qualquer lugar que vou, apesar dessa campanha contra mim.

O senhor está sendo questionado na Justiça em razão do Centro Administrativo do GDF, construído em Taguatinga. O senhor afastou o administrador regional, nomeou um novo e inaugurou o centro, no apagar das luzes do governo. Por que a pressa?


Eu estava governando, construí uma grande obra e inaugurei a obra. Dei o habite-se proporcional ao estágio da obra. Se eu não concedesse o habite-se com todos os requisitos legais para isso, aí, sim, eu poderia responder. Eu cumpri a lei. A lei dá 48 horas para emitir o habite-se. Há exigências fáceis de serem verificadas. Qualquer leigo é capaz de chegar e ver se houve o cumprimento.

E foi preciso trocar o administrador para conceder o habite-se?


Não. Eu estava administrando o governo até o último dia, fiz a festa do dia 1º, lutei bravamente naquele final, mesmo com as dificuldades de fechamento de governo. Todo governo tem dificuldades, o governo federal também e este também terá. Eu era governador e tinha de mandato até o dia 1º. Exerci até o último momento. Muitos dos meus auxiliares tinham de sair antes, caso do administrador de Taguatinga, que é do Senado. Se ele não se apresentasse antes, teria prejuízo. Alguns secretários também foram saindo quando souberam que não iam ficar. Isso é normal.

O senhor responde a outras ações de improbibidade…


Tenho convicção da legalidade de todos os atos do meu governo. Tenho confiança no discernimento dos juízes e desembargadores, que têm sido muito corretos em suas análises. Em quatro anos, o meu governo não teve uma condenação, nada. Vou conseguir esclarecer absolutamente tudo isso no foro adequado e sem contaminação política.

Quais são seus planos quando acabar a licença médica?


Recebi alguns convites, vou examinar e decidir quando acabar a licença. Está em aberto, depende do meu estado de saúde.

E o seu futuro político?


Eletivamente, não sou candidato a nada. Vou lutar, como cidadão, para retomar a concepção do governo que eu fiz e que eu espero que o próximo governo do DF venha a fazer.

O senhor pretende fazer oposição?


Meu partido tem feito isso. E concordo plenamente com a posição partidária. Tenho me reservado muito de dar opinião. Torço, inclusive, para que o atual governo acerte e faça as coisas, mas que retomemos o caminho dos princípios que eu deixei: o menor desemprego da nossa história — nós já estamos agora com um desemprego acentuado em sete meses de governo…

Mas isso é nacional…


Nacional, não. É local. Estou falando de emprego do DF. No meu governo, tive o menor desemprego da história e, pela primeira vez, no meu governo deixamos de ser a cidade mais desigual do Brasil.

A tese da falta de dinheiro parou Brasília?


Parou. O servidor público é a força motora da cidade. Quando você vai para cima dos servidores dessa forma, ameaça demitir até concursado e retirar direitos, cria-se um pavor que faz o servidor botar o pé no freio. Pensa duas vezes antes de trocar de carro, fazer uma reforma ou uma viagem. Criou-se um clima de terror na cidade.

Se o Tribunal de Justiça não tivesse derrubado a ação contrária aos reajustes concedidos pelo senhor, o governo atual estaria inviável?


Sem dúvida. Tem que repor as perdas, reestruturar as carreiras, ter profissionais ganhando bem, ser competitivo. Passei três anos fazendo concurso e não ficava ninguém na saúde. Entravam uns 30, quando começava, só dois ou três permaneciam, porque o salário era baixo. A área privada pagava melhor. Fiz um concurso em 7 de setembro de 2014 e havia 6 mil médicos do Brasil inteiro fazendo as provas. Por que isso aconteceu? Porque temos hoje um salário competitivo. Eu contratei e hoje já precisa de mais gente.

A rejeição ao seu governo era muito alta. Numa análise fria, onde o senhor ou o seu governo erraram?


Cada vez mais, eu tenho ido aos lugares e vejo as coisas. Vejo a tristeza das mulheres da Fábrica Social, um trabalho de inclusão, lindo, agora parado; os milhares de idosos que não podem fazer a cirurgia da catarata porque não tem como pagar; a carreta da mulher, que foi o melhor e mais elogiado programa de prevenção do câncer… Hoje, não se pode fazer os exames de sífilis, de Aids, porque não têm o reagente, isso mata gente. A irresponsabilidade na área de saúde mata. Transformamos a área de transplante desta cidade; neste governo, não se fez mais transplante. Vou lutar para recuperar um governo que olhe para os pobres, combata as desigualdades, faça creches, tenha uma política de desenvolvimento econômico, que coloque Brasília como a capital de uma grande nação e não uma capital do interior.

Em outras palavras, o senhor vai trabalhar contra a reeleição do atual governador?


Não. Vou trabalhar por um projeto que recupere tudo isso. Sou candidato, como cidadão, a retomar um projeto que olhe para a grande maioria, que gere emprego e renda.

Mas com alguém que lidere isso...


Sim, porque este governo já mostrou que não tem compromisso com nada disso. Virou inimigo número 1 do servidor público e, sem servidor público, você não faz as políticas públicas.

O senhor foi aliado de Rollemberg em várias eleições. Arrepende-se de tê-lo apoiado em outras eleições?


Isso faz parte da política. Não há como garantir que uma pessoa que nunca administrou nada vai conseguir administrar um dia, é muito difícil prever. Ele está no início do governo, espero que acerte, que toque todas as obras que deixei em curso, que tenha a grandeza de falar onde achou o dinheiro, é preciso respeitar a inteligência da população. Existe um processo anterior às obras, que leva anos para aprovar, que inclui projeto executivo, licitação, licença ambiental, passar por todos os órgãos, captar recursos, é algo que demora anos. Não pode chegar para a população e dizer que caiu do céu um negócio desses, então todo o plano de obras dele são obras nossas, do nosso governo.

Se o PT não tiver uma nova chance, volta a antiga política de Brasília?


Há esse risco, de trazer de volta os setores mais conservadores.

Seria um retrocesso?


Sim, mas temos que confiar na população. A população vai querer mais.


Em que tribunal você foi julgado? Como se sentiu?


Em vez de o governo atual trabalhar e realizar, foi feito um esforço para tentar desconstruir o meu governo, destruir tudo o que eu fiz.

De algum jeito, seu temperamento, mais afável e tranquilo, prejudicou?


Acho que sim. Não ia mudar minha personalidade só porque era governador. Sou um democrata, sempre dialoguei. Nunca fiz bravata, nem desmoralizei ninguém só para dar satisfação. Tinha uma base ampla, discuti muito com a sociedade tudo o que fiz. A Câmara Legislativa foi uma parceira espetacular, que mostrou que, quando se tem propostas de interesse da cidade, ela ajuda.

Houve traição?


Isso ocorre na política. O ambiente era difícil e muita gente foi cuidar do seu, da sua candidatura, do partido. Isso ocorre. Muita gente hoje fala comigo que lamenta a interrupção do nosso projeto. O principal era não interromper o projeto que estava em curso.

Cristovam sempre diz que foi desprestigiado no seu governo. Houve um erro ou ele está supervalorizando o episódio de não ter indicado um nome para a Secretaria de Educação?


É claro que quem está na política comete erros. É evidente que naquela escolha houve um erro da minha parte, mas depois fiz um esforço grande para aproximação. E ninguém investiu tanto na educação como investi. A quantidade de creches que fizemos, quantas escolas em tempo integral, recuperamos a rede pública, valorizamos pessoal, os professores. Essa é a base para uma educação de qualidade. Senão fica só discutindo, fazendo promessas e dizendo que defende a educação. Mas na hora de valorizar a carreira dos servidores da educação, para onde vão os recursos?

Vamos falar de habitação. O governador Rollemberg anunciou que amanhã começam as derrubadas no Lago Sul. O senhor acredita nisso?


Não sei. Não posso falar por ele. Até agora só faz o contrário do que fala, desde a campanha.

Um decreto seu que ampliava o limite de ocupação...


Ampliava não. O decreto adequava o limite ao novo Código Florestal, à lei. O limite dependeria da cota do Lago Paranoá. O novo código mudou a regra lá de trás. O atual governador revogou esse decreto e voltou ao que está incompatível com o novo Código Florestal. Voltou à regra do tempo do Roriz. Ambientalmente não havia prejuízo nenhum.

Por que o senhor escolheu ficar fora todos esses meses?


Achei que tinha de dar um tempo para o novo governo.

O senhor rejeita a tese da herança maldita?


Quero que me mostrem isso. Por enquanto, até agora não conseguiram mostrar. São palavras ao vento. Não se sustenta.

Como lidou com tantas críticas?


Ganhar e perder a eleição é uma coisa normal. Faz parte da democracia. Fiz análises e o PT também sobre o que ocorreu. Nunca há um fator apenas que leve a esse resultado. Perder é absolutamente normal para quem disputa a eleição, a não ser para pessoas obsessivas pelo poder e que querem fazer do poder o seu modo de vida. Mas comigo não é assim. Tenho orgulho do governo que fiz, defendo em qualquer lugar em qualquer tema. Tenho orgulho das pessoas que me ajudaram a governar, dos partidos que ajudaram. Não fiz um governo sozinho. Tinha uma aliança ampla, bastante participativa. Então, não posso considerar uma aberração ter perdido. Tenho confiança de que o meu governo ainda será muito reconhecido.


O que o machucou então?


O que dói mais a mim e à minha família, e o que abomino é a mentira, a desonestidade, a falsidade. Isso foi o que mais me machucou nesse período todo. Foi o que mais me machucou, sobretudo de quem você menos espera. Porque quando você espera, o cara já tem uma trajetória assim, de direita... Nós, no Distrito Federal, já estávamos superando essa coisa de destruir o passado para poder se estruturar. Eu peguei numa situação mil vezes pior, uma crise moral, com quatro governadores num ano, um governador preso. Quase perdemos a nossa autonomia política.

O senhor acha que foi vítima de uma grande armação?


Não teve isso. A responsabilidade maior era minha porque eu era o condutor desse processo. Não fico arranjando bode expiatório. Tenho convicção de que a gente fez o que podia fazer com dedicação. A cidade estava em outro patamar, atraindo investimentos de fora, fazendo um planejamento a longo prazo. Então quando a gente vê certas opiniões de supostos técnicos criticarem um planejamento que a gente faz para os próximos 50 anos, dói muito. A intenção era romper esse ciclo imediatista, de só ver o amanhã, de só ficar olhando para a próxima eleição.

O senhor está se referindo ao contrato com a Jurong, de R$ 13 milhões?


Acho que era de R$ 6 milhões (Nota da Redação: assinado em 2012, o contrato era de US$ 4,25 milhões, o equivalente a R$ 8,6 milhões), mas isso é absolutamente irrisório para o que está aí. Um trabalho espetacular, de longo prazo, feito por especialistas e não foi feito só por eles. Teve a ajuda da nossa inteligência aqui, dos nossos técnicos de Brasília.

Teve gente que reclamou por não ter sido ouvida... Arquitetos e outros especialistas não deveriam ter sido consultados?
Mas foram. Nós chamamos especialistas para serem ouvidos. Pode ser que um ou outro não tenha sido ouvido. Mas também esse não era um estudo arquitetônico nem urbanístico. Era um estudo de desenvolvimento econômico.

Mas foi o próprio atual governador que deflagrou as críticas à consultoria com a Jurong. Rollemberg era seu aliado e iniciou processo de rompimento por esse motivo.


Ele criticou. Mas não rompeu por causa disso. Ele dizia que não poderia ter gente de fora para fazer o planejamento, mas o governo dele está cheio de gente de fora. É o que mais tem. Gente que não conhece nada de Brasília, gente que atuava numa economia que não tem nada a ver com a nossa, que quer transportar um modelo dos tucanos para cá automaticamente. É uma tragédia o que estamos vivendo.

A vitória é coletiva e a derrota é solitária. O senhor se sentiu sozinho?


Não. De jeito nenhum. Os amigos reais estão sempre presentes.

Depois que o senhor perdeu, quem ficou?


Muita gente. Muitos companheiros.

O senhor era um político com boa imagem no DF. Enfrentar um momento como esse de desgaste é muito difícil?


O que mais dói são as ações que prejudicam os mais pobres. Esse é o meu maior sofrimento. Acabar com o cartão escolar, reduzir o Bolsa-Família, reduzir o investimento social que foi elogiado pela ministra de Desenvolvimento Social como a melhor política social do Brasil. E ela falou publicamente. Conseguimos fazer um cadastro único e colocar todo mundo que não tinha renda nesse cadastro. Fizemos uma política acolhedora para os dependentes químicos. São coisas que nunca haviam sido feitas e nós enfrentamos. Isso dói muito. A paralisação da Fábrica Social então foi a maior punhalada que recebi. Até porque o custo econômico é baixíssimo.


Cuidando da saúde e da família


Estudei muito no período que fiquei longe de Brasília. Melhorei muito meu inglês e meu espanhol. Estudei e tive experiências que, como gestor, a gente precisa viver. Depois de ser gestor, é muito diferente estar lá fora. Você olha com outros olhos o transporte, a parte urbanística, a limpeza, a política de desenvolvimento. É muito enriquecedor. Então valeu muito a pena. Estudei e tive uma convivência com a família. Todo mundo sabe do meu trabalho e da minha dedicação. Sacrifiquei tudo, saúde e família. Hoje acordo cedo, mas estou imobilizado por causa da coluna, senão estaria correndo todo dia de manhã cedo. Infelizmente não posso. Meu organismo está acostumado com atividade física e sente falta. A mesma coisa é em relação à medicina. Estou tranquilo se tiver que voltar para o centro cirúrgico. Tranquilíssimo. Fiz isso a minha vida inteira. Nunca deixei de operar. Quando eu era governador, muitas vezes vocês nem sabiam, eu não divulgava para não tirar onda, mas operei várias vezes, em vários mutirões de cirurgias. Então, estou pronto. Sou um apaixonado pela medicina, sou apaixonado pela profissão. No centro cirúrgico, eu me sinto bem.

Fonte: Por Ana Dubeux, Ana Maria Campos, Carlos Alexandre e Cristine Gentil, Correio Braziliense - 23/08/2015 - - 22:39:04


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Governador defende pacto para evitar pauta-bomba no Congresso e quer transformar a Terracap numa grande imobiliária nacional

"Acho quase um milagre eu estar no dia 30 de julho com a cidade funcionando. Quando encontro os governadores, todos eles dizem: E aí, Rollemberg? Eles sabem da situação grave que eu peguei em Brasília"

Depois de um conturbado primeiro semestre, o governador Rodrigo Rollemberg parece ter encontrado serenidade... Recebeu o Correio na residência oficial de Águas Claras após um dia de reuniões, uma delas com a presidente Dilma Rousseff e governadores, aparentando uma tranquilidade pouco vista desde que assumiu o governo com um rombo de R$ 3 bilhões. Em quase duas horas de conversa, indicou os caminhos percorridos em busca de recursos para o DF, disse que é preciso levantar o astral de Brasília e afirmou que não há espaço para a aprovação de projetos que contrariem os interesses econômicos do país, a chamada pauta-bomba. Pregou a paz na política, mas foi categórico ao afirmar que a atual crise significa o fim de um ciclo no Brasil. Daí vão emergir novas lideranças e será inviável eleger um novo presidente petista, acredita. Sobre aliados, elogiou a ajuda do tucano José Serra. Já o senador José Antônio Reguffe, do PDT… “É um bom amigo, mas tem um jeito muito particular de fazer política. Faz muito a política sozinho.”

"Estamos construindo uma relação diferente com a Câmara Legislativa, que é de não aparelhar a Câmara nem de lotear o governo. É mais trabalhosa, mas é diferente"

Como foi a reunião com a presidente Dilma, alguma notícia boa para o Distrito Federal?

Tem uma coisa em que estou bem interessado, o projeto que permite utilizar os depósitos judiciais para pagamento de precatórios. A maioria dos governadores foi a favor, ela disse que está disposta a sancionar. Mas alguns governadores, especialmente os da Bahia e da Paraíba, fizeram leis estaduais mais abrangentes. A tese inicial era vetar e aprovar uma medida mais ampla. Mas viu-se que não era possível porque se trata de uma lei complementar. Então, ela falou: vocês decidam até 5 de agosto. Ficamos de fazer uma comissão, Brasília vai participar.

Quer dizer, será possível usar esse dinheiro para outras coisas, é isso?

 A proposta de José Serra diz que pode usar depósitos judiciais para pagamento de precatórios em primeiro lugar. Só pode pagar outras coisas e pagar todos os precatórios. O que Bahia e Paraíba querem fazer? Eles querem pagar outras coisas logo. Aprovaram leis estaduais nesse sentido e estão em dúvida, achando que é melhor a presidente vetar esse projeto. Eles queriam que ela vetasse e encaminhasse imediatamente um projeto ou uma medida provisória ampla, que eu toparia. O problema é que não dá para ser medida provisória, porque é um projeto de lei complementar. Minha expectativa é a de que ela sancione. Isso para nós é importante. 

Quanto tem para o DF? 

Em torno de R$ 20 milhões por mês, que é quanto pagamos de precatório.

No fim do ano, haveria então R$ 120 milhões a mais para pagar a folha, por exemplo?

Faltam cinco meses para terminar o ano. Acredito que, sancionado, para começar a usar, talvez consigamos em três meses. Tem que ver que, se tem que regulamentar internamente, no máximo uns quatro meses. Mas é ótimo. Para quem está fazendo conta todos os meses, tudo é bom, ontem estivemos com Nelson Barbosa (ministro do Planejamento) e foi uma conversa boa.

Alguma perspectiva de mais recursos?

A gente foi discutir Terracap. Temos uma tese de que estamos ganhando na Justiça uma lei que aprovamos na Câmara, que o Levy insistiu em vetar e vetou, a imunidade tributária recíproca. Na Terracap, a gente tem 51%, a União, 49%. Não cobramos impostos da Terracap, IPTU, por exemplo. Mas a União cobra Imposto de Renda. Queremos imunidade recíproca. Se a gente não tiver que pagar imposto da Terracap, 2014 e 2015 juntos dão algo em torno de R$ 300 milhões. Outra coisa é que a gente soube que a União vai vender um conjunto grande de imóveis. Queremos que a Terracap seja a operadora dessas vendas porque isso traz um percentual para a Terracap.

São imóveis só em Brasília?

Não, no Brasil todo. Ele está entre Caixa Econômica Federal e Terracap. O ministro disse que uma parte deixaria para a Terracap vender. A empresa tem expertise e competência para atuar no Brasil todo. Quanto mais para a gente, melhor. É uma empresa da qual o governo tem uma parte, e ela é feita para isso. Receberia uma corretagem.

E o pedido da diferença do fundo constitucional?

Está sendo analisado pela equipe técnica da Secretaria do Tesouro. Tenho certeza de que temos direito. É muito claro que temos direito. Não sei se o governo tem capacidade de pagar, porque a União está com dificuldades de fato. Estão com dificuldades de fazer 0,15% de superavit primário. A lei é clara: diz que você recebe um percentual da Receita Corrente Líquida efetivada. E estamos recebendo pela previsão de receita corrente líquida, quando o Orçamento é feito. O efetivado nos últimos anos tem sido maior do que o previsto, então aquela diferença teria que ter sido acertada ano a ano. 

"Confesso que eu vivo muitas vezes alguns momentos de aflição. Acordo quatro horas da manhã e fico pensando na saúde, fico pensando no transporte, fico em tudo"

E o pagamento seria retroativo?

Sim, isso é um fundo. Dá R$ 1 bilhão nesse período todo. Corrigido, R$ 1 bilhão e 300 milhões. 

Essa crise deste segundo semestre estaria resolvida?

Se tivéssemos todas essas coisas aí, resolveria nosso problema deste ano e a gente chegaria ao fim do ano com tranquilidade, pagando salário, fornecedor, prestador de serviço, as despesas de 2015 equilibradas. Teríamos o passivo de 2014 e 2016. Mas, nesse ambiente (de crise econômica), sabemos que não vamos ter isso. O fundo é uma discussão importante, porque, a partir do ano que vem, ou de algum momento, podem vir parcelas dele, já que temos o direito. Essa questão da Terracap pode ensejar uma negociação. Buscamos acordos em várias frentes, essa lei dos depósitos judiciais é mais uma em que estamos trabalhando, securitização, venda de terrenos, vamos encaminhar o projeto. Uma das ideias é que, em parte desses terrenos do GDF, o comprador possa pagar com a sua dívida. Por exemplo, ele tem um dinheiro a receber do GDF, paga parte (abatendo) da dívida e parte em dinheiro. 

No almoço da Lide, perguntaram em quanto tempo dava para equilibrar as contas. O senhor respondeu:“depende da Câmara Legislativa”. O que vai de projeto para a Câmara, além de obras e edificações no sentido de ampliar a arrecadação? 

Estamos trabalhando algumas alternativas, como a permissão para vender o conjunto de terrenos. Não é uma coisa simples, não sei se vai imediatamente, alguns têm que fazer audiência pública, que é o da cobrança de preço por ocupação de área verde, de área pública. Então, são alternativas capazes de fazer mais recursos.

E aqueles que foram retirados no primeiro semestre, aumento do IPTU?

Aumento do IPTU, em algum momento, a gente quer voltar. Na verdade, não é aumento. É correção do valor venal. Há algo que a gente precisa refletir: todo mundo com quem você conversa, de fora, deputados, governadores, prefeitos, as pessoas ficam impressionadas como se paga pouco IPTU no DF. Outro dia, o (José) Serra (senador do PSDB de São Paulo) me ligou. Ele esteve comigo, conversando sobre a situação do DF. Examinou a composição do Orçamento, me ligou e falou: aqui vocês recolhem muito pouco de IPTU. Brasília tem 100 mil imóveis a menos do que Belo Horizonte. Arrecadamos R$ 500 milhões e pouco por ano de IPTU, enquanto Belo Horizonte arrecada R$ 2 bilhões e pouco. 

Por que essa diferença tão grande?

Porque a nossa alíquota é pequena e há muitos anos não se atualiza o valor venal dos imóveis. Então, você tem imóvel de R$ 1 milhão que está pagando por R$ 200, 300 mil.

O Serra analisando o Orçamento, governador? O senhor pediu que ele desse uma olhada? 

O Serra tem sido uma pessoa muito próxima dos governadores, porque tem se debruçado sobre essa questão do pacto federativo. Essa lei de que a gente está falando, dos depósitos judiciais, quem fez foi ele. Ele me fez uma visita no gabinete, supergentil. Foi aquela em que eu disse que ele tinha sido o melhor ministro da saúde e ele respondeu que até hoje tem medo de sangue e não sabe a diferença de um vírus para uma bactéria. Aí, eu falei da situação financeira do DF, ele se interessou e se colocou à disposição. Falei das nossas ideias. Temos R$ 625 milhões de compensação previdenciária a receber do Ministério da Previdência. O governo reconhece, o Gabas (ministro da Previdência) reconhece, mas não paga por causa da situação. Na reunião dos governadores com Renan Calheiros e Eduardo Cunha, surgiu a ideia de fazer um projeto que permitisse a utilização desses recursos para o pagamento do serviço da dívida (juros), para ir amortizando. Serra pediu que levasse à assessoria dele, para que fosse preparado. Ele tem sido muito interessado. 

Ele te convenceu a aumentar o IPTU?

No início do ano, tínhamos mandado uma proposta que não é de aumento, a gente não mexe na alíquota do IPTU. É de atualização do valor venal dos imóveis. 

Esse projeto vai voltar para a Câmara Legislativa?

Estamos avaliando. A cidade tem que fazer esse debate. 

Essa conversa com Serra influenciou ainda na escolha do secretário de saúde, com perfil mais gestor, menos político? 

Não assim… diretamente. Isso estava dentro da discussão que a gente já vinha fazendo, da necessidade de um gestor que pode ser até um médico. Desde que seja um gestor, que é algo importante. A saúde precisa de um avanço significativo na gestão. Na verdade, o Serra, nesse dia, recomendou um médico, que tem nos ajudado muito desde o início do governo, que ele (Serra) considera uma pessoa brilhante e que eu considero um dos melhores do Brasil, o doutor Renilson, do Hospital da Criança. Hoje, há três médicos que têm ajudado a pensar a saúde no DF, muito qualificados: Dr. Renilson, hospital da Criança; Dr Armando Raji, secretário de Saúde de Curitiba; de Sorocaba; foi diretor do HUB, e o dr. Sadi, que criou o fundo nacional de saúde. São os conselheiros da saúde.

É a área que mais preocupa?

A Saúde é o grande desafio, porque é uma área muito grande. Quando a gente começa a compreender a Saúde, percebe que ela tem peculiaridades que nenhuma outra tem. A escola, 7h da manhã abre e fecha às 6 da tarde. Se tiver expediente à noite, fecha às 22h, fecha sábado e domingo, tem férias. Hospital é 24 horas por dia, 365 dias por ano. Então, quando a gente começa a pensar em 5 mil médicos, escalas, tem que ter médico o dia todo, todos os horários e especialidades, sábado, domingo. É um sistema extremamente complexo. A crise na saúde é muito grave. Além dos problemas concretos do dia a dia, temos uma necessidade orçamentária de R$ 400 milhões para cobrir o custeio até o fim do ano. Estamos falando de orçamento para comprar remédios, insumos, para fazer funcionar UTIs, para manter equipamentos, para salvar vidas”.

O senhor espera que a relação com a Câmara 

Legislativa nesse semestre seja mais tranquila?

Sim. O saldo dos primeiros seis meses foi muito positivo. A gente aprovou medidas importantes antes do carnaval, que terão impacto no ano que vem. Aprovamos o Refis e a securitização. E a questão de utilização dos recursos dos fundos da conta única do Tesouro. Três coisas fundamentais. A gente tinha que pagar salários no mês de março e não pagaria em dia se não fossem recursos dos fundos. Cumprimos o compromisso, já pagamos todo o FAC de 2014. O que não foi pago foi porque a empresa não apresentou o documento, mas foi tudo liberado. Pacificou a Cultura e vamos lançar os novos editais. Quanto ao Refis, entraram até aqui à vista, nos cofres do GDF, R$ 243 milhões, fundamentais para chegar até aqui pagando as coisas, praticamente em dia. E a securitização, no futuro será algo positivo. Então, o saldo é positivo. Estou conversando com os deputados, fazendo com que as pessoas conheçam com mais profundidade a situação da cidade. Estamos construindo uma relação diferente com a Câmara Legislativa. Isso é mais trabalhoso.

O perfil mais técnico dos secretários ajuda nessa relação?

Depende de cada secretário. Às vezes, é técnico, mas tem a compreensão política, atende, recebe. Nossa determinação geral é a que tem que dar muita atenção ao deputado. O (secretário de Saúde) Fábio Gondim, você veja, quebrou a Marli (Rodrigues, presidente do SindSaúde), né? A Marli, na véspera, fez um discurso até raivoso e precipitado contra ele. Adoeceu, ele foi lá visitá-la. Ela até comentou com a Celina: Nossa, chegou lá o secretário! Os deputados se ressentem dessa falta de diálogo e atenção. O Sérgio Sampaio vem de uma casa política. 

Por falar em política, um dos motivos da reunião om a presidente Dilma Rousseff foi justamente para que ela buscasse o apoio no Congresso contra pauta-bomba e para tentar evitar um processo de impeachment, entre os vários apresentados. 

É possível dar essa ajuda à presidente Dilma?

Todos os governadores que estavam ali, sem exceção, estão muito preocupados com a governabilidade. Todos enfrentam algum tipo de dificuldade, ou porque o desemprego está aumentando, outros, como (Ivo) Sartori (RS), têm uma crise estrutural agravada nos últimos meses. É um consenso entre os governadores que o Congresso não deve aprovar pautas bombas, que isso é nocivo para o país. Qualquer projeto nesse momento que aumente despesas dos governos estaduais ou municipais sem ter a necessária garantia de receita é nocivo. Isso foi colocado por todos os governadores de forma muito natural. Fizemos uma reunião antes, 18 governadores menos os do PSDB. Ninguém se propôs fazer carta contra o impeachment, mas há um consenso de que é fundamental melhorar o ambiente econômico nos estados porque isso vai melhorar o ambiente político, e assim sucessivamente. Você melhora o político e vai melhorar o econômico, começa a criar um círculo virtuoso que vai ser bom para todo mundo. Esse era o sentimento geral, entre todos os governadores, e quando chegamos lá, encontramos esse sentimento nos governadores do PSDB. 

Mas o que se vê é uma crise muito grande, o que é mais fácil melhorar primeiro?

Qualquer gesto que se faça vai ajudar a melhorar um ou outro. Você tem um ambiente tenso, mas o da disputa política e do enfrentamento político está muito mais nos partidos e nas bancadas do que nos governos. Os governadores querem paz! Querem paz para trabalhar e é claro que a melhoria do ambiente econômico traz essa paz. Está todo mundo muito preocupado com o desemprego. O desemprego afeta o humor da população, afeta a política, então, por exemplo, unanimidade entre os governadores foi no sentido de que o governo comece a liberar os financiamentos que estão lá. Nós mesmos temos vários colocados na Secretaria do Tesouro Nacional. Ainda que não libere o recurso este ano, que os processos tramitem, para que você tenha uma perspectiva de ter o recurso para o ano que vem, você já vai ter a oportunidade de negociar com os agentes financeiros, os bancos internacionais. Duas coisas que unem: restrição à pauta-bomba e apoio à liberação dos financiamentos.

Mas para sair da pauta-bomba, é preciso ter um relacionamento político mais harmonioso e isso não está ocorrendo no Congresso. Há uma turma apostando no quanto pior melhor. Como se pode sair disso?

Um gesto como esse, de chamar os governadores para uma conversa com a presidente Dilma distensiona o ambiente político. Estava faltando diálogo. A partir de um ambiente desse, todos se sentem muito mais estimulados a reunir a bancada de seus estados e de seus partidos para dizer que, se enveredarmos num momento de crise para uma pauta-bomba, todos vão perder e vai ter consequências graves para o país. Os agentes políticos não estavam sendo chamados para participar desse jogo. Agora, se sentem mais estimulados a chamar suas bancadas para conter esse movimento.

A bancada do Distrito Federal está sensível para ajudar a conter esse movimento ?

Acho que está sensível a ajudar a cidade e o país.

E o PSB saiu da oposição para ajudar a Dilma?

O PSB, eu deixei muito claro na reunião anterior, com os governadores, de que a nossa postura é de independência.

Mas a maioria da bancada do DF é de oposição... 

Só Izalci, Bessa e Fraga. Cristovam e Reguffe, por exemplo, não vão entrar numa pauta-bomba; são pessoas que têm moderação, não vão tocar fogo no país.

Assinaram a CPI do BNDES...

Isso é outra coisa. Mas a aprovação de projetos com consequências econômicas nefastas, não acredito.

Mas tem um homem-bomba na Câmara como presidente. Como se sustenta um movimento para conter uma pauta-bomba?

Uma percepção do conjunto dos atores políticos pode ajudar a conter. Eduardo (Cunha) não vai fazer nada se perceber que não tem apoio. Se tiver um trabalho anterior de arrumação, de articulação, acho que é possível.

O senhor considera que neste momento, quando se pensa num pacto entre os governadores, as coisas tendem a melhorar e se organizar mais?

O momento que a gente vive é delicado por vários motivos. Há uma crise política, econômica, moral, uma insatisfação grande da população. Isso é fato. Se se construir uma agenda concreta, que avance no sentindo de melhorar o ambiente econômico, essas nuvens tendem a se dissipar e se pode pensar num ambiente mais tranquilo no país, especialmente nessa questão de agenda legislativa e política. Esse é meu sentimento e vejo isso também como um desejo especial de quem está à frente do Executivo. As pessoas estão querendo trabalhar, desenvolver políticas públicas e estão com muitas dificuldades nos estados. 

O que acontece se os governadores quiserem esse pacto para tentar sair da crise, mas, no 16 de agosto, as pessoas forem às ruas protestar e as contas da presidente Dilma forem reprovadas? Como se segura o país com esse ambiente político?

É uma situação delicada e é preciso avaliar o quadro dia a dia. Percebo que há uma insatisfação muito grande, mas as pessoas não querem quebrar a institucionalidade.

Como assim institucionalidade, não querem o impeachment?

As pessoas estão muito cautelosas em relação ao que fazer. Há um sentimento de insatisfação, de repulsa a toda essa corrupção, de indignação, de negação da política e dos políticos. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas se perguntam: “E se tirar tudo o que está aí, o que vai vir? As pessoas têm muita cautela em relação a isso.

O PSB apoiaria o impeachment da presidente Dilma Rousseff?

Não. Acho que as investigações devem proceder, mas não vemos motivo algum para impeachment da presidente agora.

Na hipótese de Eduardo Cunha ser denunciado, o PSB faria algum gesto para que ele se afastasse da Presidência da Câmara? 

Não dá para especular em torno disso, tem que avaliar o fato concreto, o que efetivamente vai acontecer, como vai acontecer, que denúncia é essa, se é que vai haver.

O senhor acha que o país está vivendo a cada dia sob pressão, além da capacidade de previsibilidade?

Acho que nós estamos vivendo o fim de um ciclo.

Do ciclo do PT?

Do PT, sim, mas também de um ciclo do país. O país mudou e a política, não. Uma grande parte da população melhorou de vida, passou a ter acesso à informação, que circula com agilidade impressionante através das redes sociais, e a política não mudou. Estamos vivendo uma crise, uma ruptura desse sistema representativo. Inevitavelmente, vai emergir algo novo no fim desse processo. Não sei exatamente o que é.

Partidos?

Partidos e pessoas. Temos um divisor de águas para a política do país — antes e depois da Lava-Jato.

Novos líderes, novos nomes na política?

Acho que sim. Novas lideranças vão emergir. O país vai ter que rever seu sistema político, mesmo que não seja agora, com esse Congresso.

Nessa avaliação sobre algo novo, o senhor aposenta o Lula?

O Lula teve o seu papel.

No passado?

Não acredito numa candidatura do Lula, nem acredito que ele tenha interesse em ser candidato.

Por quê?

Porque cumpriu seu papel, teve oito anos de mandato, saiu bem avaliado pela população, acho que não voltaria num momento conturbado como este.

O momento do PT passou?

Acho que o PT vai diminuir. Não acredito que o PT eleja o próximo presidente da República. Vai eleger menos prefeitos e governadores, mas não quer dizer que vai acabar. Todos os partidos terão que se reciclar. O PT mais, porque a população depositou uma esperança grande no PT e se frustrou. O Brasil mudou muito e os partidos, não.

O senhor foi eleito com um discurso de fazer uma política diferente. Quando a população de Brasília vai perceber uma

diferença real?

Enfrentamos algumas dificuldades nesse processo de mudança. Primeiro, derrotamos grupos políticos que governaram o DF até então: Roriz, Arruda e o PT. O PSB e o PDT, partidos mais orgânicos, e PSD e Solidariedade, que fizeram também a aliança, não têm base social forte, no movimento popular, nem sindical. São partidos que até têm quadros, mas não o suficiente para compor uma máquina pública grande, como é a do governo de Brasília. Então, é natural ter gente de todos os partidos no governo. Isso traz dificuldades e novidades. Hoje, você tem na administração pública de Brasília quadros diferentes daqueles. Servidores públicos concursados e qualificados, pessoas que nasceram aqui e têm vínculos com a cidade. O que a gente está procurando é fazer e governar de uma forma diferente. É absolutamente diferente? Não, porque você não tem como fazer uma ruptura total. Estamos construindo uma relação diferente com a Câmara Legislativa, que é de não aparelhar a Câmara nem de lotear o governo. É mais trabalhosa, mas é diferente.

Quando o senhor cede às pressões da Câmara Legislativa, considerada bem conservadora em algumas posições, como, por exemplo, no caso de não ter mais a subsecretaria LGBT, o senhor não teme passar uma imagem para a cidade que contraria o seu perfil?

Não recuei em nada nas posições que eu pessoalmente tenho e defendo há bastante tempo. Na verdade, quando a gente mudou essa subsecretaria, é porque mudou várias outras. Quando vimos que estávamos fazendo um esforço de reduzir secretarias e cargos e vimos que havia uma secretaria com 10 subsecretarias, não tinha sentido e reduzimos. Agora, por exemplo, esse projeto em relação ao conceito de família, eu vou vetar. Agora, a minha visão nem sempre vai prevalecer. Temos uma Câmara Legislativa eleita pela população e que tem legitimidade. Temos de estar sempre num processo de negociação política. Ora vamos convencer, ora não vamos.

Se a crise se acentuar e as dificuldades econômicas persistirem, há estímulo de disputar a reeleição?

Outro dia, eu entrei no elevador e um cara disse: “Rollemberg, você merecia ser governador em outra época”. Mas depois disse: “Ainda bem que é você”. Confesso que, quando ganhei a eleição e me debrucei com mais profundidade sobre a contas do GDF, eu não imaginava que a situação fosse tão grave; depois, quando eu tomei posse, e aí nos aprofundamos mais, eu me assustei mais ainda. Sou uma pessoa muito religiosa, tenho meu altar em casa, rezo todos os dias antes de sair. Acho quase um milagre eu estar no dia 30 de julho com a cidade funcionando. Quando encontro os governadores, todos eles dizem: “E aí Rollemberg?” Eles sabem da situação grave que eu peguei em Brasília, então eles sempre se referem a mim e ao governador do Rio Grande do Sul como as duas unidades da federação com uma situação muito grave. Se me perguntar hoje qual é o meu futuro só tenho um desejo e uma convicção, que é trabalhar o máximo para chegar ao final de 2018 e entregar uma cidade melhor do que eu recebi. Então, se perguntar se eu tenho pretensão de ser governador, hoje eu não estou pensando em reeleição. Não mesmo.

Por causa do tamanho da encrenca ou por que não é o momento?

Por vários motivos. Para mim, me sinto sinceramente como se estivesse cumprindo um missão. 

É cruel a avaliação dos críticos que dizem que seu governo ainda não começou?

É um discurso vazio da oposição. A gente recebe um governo com um buraco de mais de R$ 3 bilhões, com férias, décimo terceiro e horas extras atrasadas, consegue equilibrar as contas e pagar todo mundo em dia. Estamos pagando todos os prestadores de serviços e fornecedores de 2015 praticamente em dia. Iniciamos o debate (dos governadores) hoje com política de segurança pública e, no final, o ministro José Eduardo Cardoso veio nos parabenizar porque Brasília é uma das pouquíssimas unidades da federação que reduziu os dados de homicídios. Em seis meses, de 11 indicadores, reduzimos nove. Reduziu o número de homicídios e mais de 40% o roubo a comércio. Iniciamos a infraestrutura no Sol Nascente, um contrato feito pelo Arruda em 2009, passou pelo governo Agnelo, ninguém começou, fomos lá e tomamos uma medida corajosa, desobstruir os locais onde teriam os equipamentos públicos, iniciamos a obra e assinei a ordem de serviço para a segunda etapa. Num ambiente de extrema dificuldade de todos os estados, conseguimos, graças a uma relação pessoal, R$ 567 milhões do Banco do Brasil, que está me permitindo fazer a infraestrutura externa do Parque do Riacho e do Paranoá Parque. Em seis meses, entreguei 1.152 apartamentos. E agora a obra começou a andar rápido, o que vai permitir que eu entregue, daqui a um mês, 2 mil apartamentos no Paranoá Parque. Estamos fazendo a estação do tratamento de água de Corumbá I, o segundo bloco do Hospital da Criança vai começar daqui a 20 dias.

Tira o sono imaginar que pode chegar dezembro e o senhor não conseguir pagar salários?

O grande problema que pegamos no Distrito Federal foi o desequilíbrio financeiro e orçamentário: o buraco referente a 2014 de R$ 3 bilhões e esse orçamento, que é uma peça de ficção, já acabou para várias ações e preciso fazer remanejamentos. Tenho muita confiança que chegaremos ao fim do ano pagando salários em dia. Espero ter recursos para pagar em dia também fornecedores e prestadores de serviço. Sei que este é o nosso grande desafio. No ano que vem, por maiores que sejam as dificuldades, o orçamento não será uma peça de ficção. Recebemos um conjunto de obras contratadas ou em processo de contratação que, por motivos vários, não tinham saído. Qual foi o governo que, em um mês, no dia 30 de janeiro, liberou R$ 567 milhões do Banco do Brasil? Herdamos coisas de governos passados, desde o governo Arruda, do Rosso, do Agnelo, mas teve muito mérito da nossa equipe de botar esses projetos de pé e dar continuidade. 

O senhor tinha um supersecretário na Casa Civil que, segundo seus opositores, era quem governava, quem realmente mandava no governo. Isso o incomodava? As coisas estão mais calmas agora? A governabilidade está melhor sem ele?

Isso é uma ilusão e uma lenda. Todo papel que o Hélio (Doyle) exerceu no governo como secretário foi combinado comigo. Era uma estratégia, num primeiro momento, porque eu não poderia estar uma superexposição sob todos os motivos. E ele como chefe da Casa Civil, e uma pessoa próxima a mim, era natural que falasse pelo o governo. Mas o Hélio é uma pessoa muito competente, muito experiente e foi útil ao governo. E repito: saiu porque quis. O meu desejo era que ele continuasse no governo em outra posição, mas ele achou melhor sair. Sou muito grato ao papel que ele desempenhou no governo.

Ele estava incomodando muito o governo no relacionamento com a Câmara? Qual a sua motivação para trocá-lo de área?

Minha motivação foi a seguinte: eu tinha dito ao Hélio desde o começo que eu gostaria de ter no governo um gestor que coordenasse o dia a dia do funcionamento da máquina pública para que eu pudesse estar mais livre na rua conversando com a população e poder fazer também grandes articulações políticas no plano nacional. A rua me energiza muito. Toda vez que eu vou para a rua eu volto superanimado. As coisas mais legais que fiz no governo até agora foram as rodas de conversa. Eu já fiz duas: uma na Candangolândia e outra no Itapoã, e voltei revigorado, energizado. Esse contato com população é muito bom e a população reconhece.

O povo já começou a cobrar mais duramente ou esse contato ainda é ameno? 

Cobra, mas até aqui as cobranças que recebi foram respeitosas.

Sua família é enorme e muito participativa. Fora do governo, quem são seus principais conselheiros, quem o senhor ouve, de quem o senhor leva puxão de orelha?

Minha família cobra. Um almoço na casa da minha mãe toda quarta-feira é audiência pública. Uma conversa em tom muito elevado, com as posições mais diversas e todo mundo tem uma solução pra tudo. Eu ouço muito minha mãe. Ela é muito ponderada e bem informada, com muitas relações. Ela diz fulano me disse isso, tá acontecendo aquilo e coisa e tal. A Márcia é uma pessoa muito crítica e participativa. Minha filha Gabriela, também.Ela tem um desejo de colaboração muito forte, Tem uma cena ótima: no início do governo, eu ali exasperado com as manifestações em vários pontos da cidade e desabafei: “Filha, é problema demais”. E ela disse: “Pai, relaxa, problema agora faz parte da sua vida”.

O senhor tem tido tempo de fazer as coisas de que

mais gosta, ir para a fazenda, curtir a natureza?

Muito menos do que eu gostaria, mas tenho percebido que é fundamental, até para a qualidade da minha atuação, que eu faça isso de vez em quando. Vou dar um exemplo. No domingo da conferência de Saúde, eu estava meio abatido, na defensiva, acordei e falei: sabe do quê mais vou tomar um banho de cachoeira e dar uma relaxada. Comecei a pensar: por que estou na defensiva? Não tenho nenhum motivo para ficar na defensiva. Tô trabalhando pra caramba, to procurando fazer o melhor e vou dizer lá tudo que estamos fazendo. Ninguém vai levantar a saúde sozinho. Vamos precisar de todo mundo. O grande desafio desse momento é levantar o astral da cidade. As pessoas estão começando a perceber. Há agenda positiva e a cidade se identifica com ela. Temos projetos excelentes na área cultura e vamos tocar todos.

O senhor sentaria para conversar com o ex-governador Agnelo?

Eu não tenho dificuldade pra sentar com ninguém, não. Eu não tenho assunto pra conversar com Agnelo nesse momento.

O senhor tem um espírito jovial e leve.

Essa roupa de governador lhe coube bem?

O senhor sente falta da vida de antes do governo?

Eu continuo a mesma pessoa. Muita gente se impressiona com a minha simplicidade, inclusive os seguranças. Eu sinto muita falta de ter tempo para o lazer, para o entretenimento. Este tempo acabou. Confesso que eu vivo muitas vezes alguns momentos de aflição. Sempre acordei muito cedo. Eu dormia cinco ou seis horas. Agora durmo quatro. Acordo quatro horas da manhã e fico pensando na saúde, fico pensando no transporte, fico pensando em tudo.

Tem algum pesadelo recorrente?

Eu não tenho pesadelo, não. Eu fui proibido pela Márcia de acordar no meio da noite e ler os jornais na internet. Eu só leio tudo quando o dia amanhece.

O senhor falou em novas lideranças. A Marina Silva teve uma votação expressiva aqui.

Ela tem alguma chance ou o tempo dela passou?

Marina sempre será uma referência política importante. Eu não sei nem se a Maria gostaria de ser candidata, tenho dúvidas, mas ela é atual e está sintonizada com o novo modelo de política que as pessoas querem.

A Rede tem um projeto político para o DF?

Se a Rede se constituir de fato, vai ser importante para Brasília.

Neste cenário nacional, seu nome aparece como uma possibilidade?

Com toda franqueza, estou focado no governo de Brasília. Meu desafio é grande. Mas posso cumprir um papel para o PSB nacional maior do que o que estou cumprindo. Aliás, eu tenho sido conclamado a isso. As bancadas do Senado e da Câmara me pedindo isso. O partido está um pouco sem liderança. O problema é que eu só posso fazer isso quando o governo estiver ajustado. Tenho boas relações com muitas áreas. Eu posso ajudar mais o PSB e ajudar mais Brasília.

O senador Reguffe ajuda?

Reguffe é um bom amigo. Mas ele tem uma forma muito particular de fazer política. Ele faz muito política sozinho. Então, eu converso muito com ele, ouço as críticas dele. Sou mais moderado em relação a ele do que ele é em relação a mim. Ele ajuda, mas não se envolve nas coisas do DF com profundidade. Por exemplo, o Serra está analisando as contas e com preocupação em apresentar sugestões sobre como fazer. É diferente. É o papel que um senador poderia fazer. O Cristovam já é diferente, é uma pessoa crítica, mas participativa. Ele tem participado de reuniões. Com as críticas que fez, nos ajudou um pouco a sair do imobilismo e a construir uma agenda mais positiva.

O fato de políticos tradicionais de Brasília, como Roriz, Arruda e até Agnelo, pela impopularidade, estarem fora do jogo político, facilita? 

Não vejo sentido pelo qual alguém pudesse estar fazendo uma oposição radical ao meu governo, pelo caráter da gestão. Não perseguimos ninguém, não retaliamos ninguém, queremos fazer o bem. Não temos um projeto de hegemonia política na cidade. Isso facilita um pouco. Converso com os deputados distritais, eles dizem que querem ajudar o governo e eu respondo: “maravilha, então ajudem”!

Mas a maior demonstração de oposição ao seu governo partiu da presidente da Câmara, Celina Leão, que era do seu grupo político… O senhor ficou muito decepcionado?

A Celina brigou com o Hélio Doyle. 

Foi nessa ordem?

Eles brigaram. Eu não briguei com a Celina.

Não sentiu as críticas dela ao então chefe da casa Civil como um ataque ao seu governo?

 Se a gente pegar os dados concretos, a Celina ajudou bastante, como presidente da Câmara, a aprovar projetos importantes, inclusive no finalzinho do semestre. E tenho a convicção de que vai continuar ajudando, com uma conduta de independência, mas vai continuar ajudando, no interesse da cidade, em alguns momentos tendo divergências comigo. Acho isso natural.

Há muita diferença entre a Brasília do senhor menino e a de hoje? Sendo o primeiro governador a geração Brasília, teme não conseguir fazer cidade dos seus sonhos?

Brasília mudou muito. Tudo em Brasília era muito íntimo. A cidade foi crescendo muito e as pessoas foram perdendo a intimidade. Mas Brasília ainda é uma cidade muito legal. As pessoas ainda são muito acolhedoras. Ando muito pela cidade em ambientes muito diversos. Por exemplo, vou numa festa do Divino em Planaltina, no pouso de folia, giro a cavalo. A relação sempre foi muito gostosa. As pessoas são muito fraternas. Fui a eventos culturais que ocupam a rua e fui super bem acolhido, as pessoas sempre contam uma história. Brasília é uma cidade muito acolhedora. O que me assusta um pouco nas cidades muito grandes são as taxas de homicídios – fico acompanhando diariamente para ver se estamos conseguindo diminuir. Eu digo sempre para o comandante da PM e para o secretário de Segurança: sonho fechar o ano sem nenhum homicídio. A cidade que imagino é muito pacífica. Tenho esse sonho.

O senhor tem conseguido dialogar com os nvasores do Sol Nascente, mas está disposto enfrentar moradores dos lagos Sul e Norte ue ocuparam a orla do Lago Paranoá? 

É claro que as pessoas não vão ficar felizes. Como as que tiveram que desocupar o Sol Nascente não ficaram felizes. O que tem que ter é coerência. Há uma decisão judicial que vamos cumprir, com muita tranquilidade, dando oportunidade para as pessoas recuarem em suas áreas. Se a gente obtiver sucesso, será um ganho magnífico para a sociedade, um ganho cultural, de cidadania, uma mudança de paradigma. É impressionante como é a cultura em Brasília de apropriação do espaço e da terra pública. Isso é cultural. Outro dia, fiz um sobrevoo com o ministro (Augusto) Nardes, porque o Tribunal de Contas da União e o Tribunal de Contas do DF vão fazer uma auditoria conjunta. 

O que viram?

Eu mostrava para ele como é impressionante a quantidade de áreas dessa cidade ocupadas irregularmente. As pessoas pobres, a gente até compreende. É uma necessidade. Mas as que não são pobres… Quando a gente sobrevoa Vicente Pires... No Lago Norte, no início do ML Norte, há uma invasão consolidada. Há outros vários lugares no DF. Isso é muito difícil. Estamos falando de uma cultura arraigada, mas precisamos mudar esse paradigma.

Está disposto a comprar essa briga da desocupação?

Não diria comprar a briga. Estou disposto a cumprir a lei e uma decisão.

Que medidas podem ser tomadas para vitar novas invasões?

Junto com a Saúde Pública, esse é o nosso maior desafio. Só que esse é um desafio que tem consequências muito grandes para o futuro do Distrito Federal. E a gente tem que reconhecer que os sucessivos governos vêm perdendo a guerra do enfrentamento da ocupação irregular do solo. É assustador o que acontece no DF em relação a ocupações. Eu falava para o ministro Nardes que tem de haver uma ação do governo local, com integração de vários órgãos. A gente está atuando, mas é absolutamente insuficiente o que a gente está fazendo. A União tem que atuar porque há muitas áreas. A União tem que ter uma responsabilidade com a Flona.

Tem que ter uma ação mais efetiva os dois governos?

É preciso mudar a lei. A punição para os grileiros é muito branda. Tem que ser mais rigorosa. O Ministério Público tem que atuar forte e esses criminosos têm que ser presos. 

Brasília teve uma CPI sobre grilagem, á 20 anos, quando pareceu que algo seria feito. as nada mudou… 

Participei da CPI da Grilagem, foi a minha primeira atuação na política. Fui subrelator e um dos mais atuantes. Os mecanismos mudaram muito. Inicialmente o DF foi todo declarado de utilidade pública para fins de desapropriação, mas não foi todo desapropriado. Então tem muitas fazendas desapropriadas em comum. O que os caras faziam? Um Pedro Passos da vida ia ao cartório de Brasilinha, falsificava uma procuração, como se fosse dono de parte da Fazenda Bananal, e colocava o condomínio dele na beira do lago. Não estava demarcado o que era público e o que era privado. Hoje o que esses caras fazem, por exemplo, no Sol Nascente, é a Minha Casa, Minha Vida da invasão. São casinhas iguais, uma porta,um cômodo, e lá colocam um colchão velho e um fogão. O morador paga uma parte à vista e o resto, parcelado. Se, no meio do caminho,o governo derrubar, o grileiro já recebeu as primeiras prestações. Se ficar, ele vai recebendo mensalmente. O último grileiro que prenderam tinha R$ 2 milhões em cheques.

Quais foram as considerações do ministro ugusto Nardes sobre as ocupações irregulares?

Ele anotou muita coisa. Pode cobrar do governo federal alguma ação.

O senhor já decidiu qual decisão vai omar em relação ao Uber?

Acho que essa é uma grande oportunidade para um debate sobre o serviço de transporte individual da cidade. Independente de veto ou sanção, a polêmica não vai acabar. Está só começando. Estamos diante de um fato em que a tecnologia mudou totalmente o paradigma de uma relação do Estado com o transporte individual de passageiros. Quero ouvir muito a procuradoria jurídica. Não tem posição fácil. Qualquer decisão vai desagradar.

Qual vai ser a sua marca de governo?

Brasília vai ser referência no Brasil em sustentabilidade ambiental. Nós vamos no ano que vem fechar o Lixão, abrir o aterro sanitário, vamos implantar um grande programa, de verdade, de coleta seletiva, vamos colocar energia solar em todas as escolas de Brasília, vamos fazer o maior programa de reflorestamemto que essa cidade já viu, e vamos nos preparar para a realização do VIII Fórum Mundial das Águas, o evento internacional mais importante que Brasília vai sediar, em 2018, que vai reunir mais de 50 mil pessoas de todo o mundo, inclusive chefes de Estado, que vêm para discutir um tema importante, como a água. Nós vamos ser referência nessa questão ambiental. Vamos também implantar os 71 parques, muitos deles hoje no papel, dotá-los de infraestrutura adequada para o lazer da população. Tenho certeza que essa será uma marca especial do nosso governo.

Infância com Lucio Costa

“Uma das nossas diversões preferidas quando éramos criança era jogar bola naqueles gramados da quadra. Quando não estava na escola, era jogando futebol. Era época da ditadura e tinha os graminhas do DPJ (Departamento de Parques e Jardins). Eles vinham numa kombi verde, uniformizados e não deixavam a gente jogar bola. Pegavam as nossas bolas. Numa das ocasiões, o Lucio Costa

estava almoçando lá em casa. A Maria Elisa, filha dele, era casada com o irmão da minha mãe, Tio Duda, e toda vez que ele vinha a Brasília, almoçava com a gente. Nesse dia, formamos um grupo de meninos, subimos revoltados e fomos reclamar dos graminhas com o Lucio Costa. Ele ficou indignado. Disse que tinha feito o gramado das quadras justamente para as crianças brincarem. Aprendi a gostar de planta e animais com a minha mãe. Já plantei centenas de árvores na vida e continuarei plantando. Não vou parar por causa das críticas. Eles vão ter que aturar.”

Fonte: Por Ana Dubeux, Ana Maria Campos, Cristine Gentil e Denise Rothemburg do Correio Braziliense - 02/08/2015 - - 12:29:10