Por: Evan do Carmo, Correio Brasilia - 23/01/2016 13:15

Daniela Delias nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul, em 1971. Segunda de três meninas, filha de pai e mãe Técnicos em Contabilidade. Do pai, herdou o carinho por flores. Da mãe, a necessidade constante de ouvir música. Foi na música e na leitura de Mario Quintana, na adolescência, encontrou o desejo de escrever poesia. Guarda nas lembranças do avô paterno as imagens mais ternas de uma infância vivida à beira da Lagoa dos Patos. Aos treze anos de idade escreveu os primeiros rabiscos de poesia, mas os primeiros registros que foram guardados são de quando tinha 17 anos. Os escritos ficaram guardados por vinte anos. Apenas aos 36 começou a publicar em blog.

Em 2012, publicou seu primeiro livro de poesia, Boneca Russa em Casa de Silêncios, pela Editora Patuá. Em 2015, pela mesma editora, publicou Nunca estivemos em Ítaca, também de poesia. Tem poemas publicados no Livro da Tribo, em revistas literárias e nos blogs de poesia Sombra, silêncio ou espuma , Alice e os dias Céu de Cartão-Postal .

Daniela Delias também é psicóloga, e a partir do doutorado em Psicologia se tornou professora universitária. Trabalha atualmente na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e leciona disciplinas da área de Psicanálise e Psicologia do Desenvolvimento. Mora na Praia do Cassino, em Rio Grande, extremo sul do país.

Percebo que tens uma educação refinada, isto está implícito em tua poesia, nela se encontram alguns signos universais de cultura clássica, pelo menos é o que me parece. Acreditas que esta tua educação superior contribuiu de alguma forma para aprimorar a tua sensibilidade e o desenvolvimento de tua poesia?

Quando penso na minha educação, as referências que primeiro me ocorrem não têm relação direta com a formação acadêmica que tive, embora a considere muito importante nessa trajetória. Eu fui uma criança muito introspectiva, que trocava facilmente a possibilidade de estar em contato com muitas pessoas pela quietude de estar em casa, com a família. E a nossa casa era um lugar de pessoas bastante silenciosas, cercadas de sensibilidades. Havia muita música, muito tilintar de agulhas da mãe fazendo tricô e crochê e da avó costurando roupinhas de boneca, bem mais que livros. Lembro sempre do meu avô mostrando joaninhas e pitangueiras, contando histórias, levando a gente para o banho na lagoa. Do meu pai dizendo que precisávamos estudar, e que a coisa mais importante para ele era que nos gostássemos, eu e minhas irmãs, que nos quiséssemos bem. A maior parte das imagens que estão presentes nas coisas que escrevo remetem a esse mundo, creio. As leituras que vieram depois talvez tenham se somado a essas experiências infantis, incluindo também os momentos difíceis. Tenho a impressão de que na psicologia e nas psicoterapias que vivi como paciente ou como terapeuta pude estar ainda mais perto desse mundo infantil e dos afetos que fui construindo ao longo da minha vida. Trabalhar com a escuta do outro tem me permitido desenvolver constantemente a empatia. Ouvir histórias de vida ao mesmo tempo em que penso sobre a minha talvez tenha contribuído no sentido de poder identificar e escrever sobre coisas que, mesmo subjetivas, de alguma forma dizem respeito a muitos de nós.

Sobre o teu livro Boneca Russa em Casa de Silêncios, de onde tirastes esta inspiração para dar rosto à tua obra? Tem alguma relação simbólica com o significado russo e origem?

A “casa” sobre a qual falei antes parece ser um tema recorrente no meu imaginário. Uma casa que carrego comigo, seja onde for que esteja morando. Leonardo Mathias, que fez o projeto gráfico do Boneca Russa em Casa de Silêncios, apresentou – através do editor Eduardo Lacerda (Editora Patuá) – uma arte para a capa que me encantou desde o primeiro momento: uma mulher sem rosto com uma caixa sobre a cabeça. O desenho não foi feito especialmente para o livro, já estava pronto, mas parece ter se encaixado com perfeição à ideia do livro. Eu havia escrito um poema que tinha entre seus versos: “eu estava aqui dentro, você me ouvia? /boneca russa em casa de silêncios/ antes do verbo, dentro da carne/ meus tambores apontavam a direção”. Quando o escrevi, pensava exatamente na imagem de uma matrioska, carregada de dentros, sobre o quanto ela dizia de mim, minhas casas, meus silêncios. Creio que essa foi a tônica do livro.

Tu és gaúcha, então que importância e responsabilidade tem Mario Quintana em tua poesia?

Apontamentos de História Sobrenatural, publicado por Quintana em 1976, foi o primeiro livro de poesia que li. Imagine: “O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos/ E foi morrer na gare de Astapovo! / Com certeza sentou-se a um velho banco, / Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso/ Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,/ Contra uma parede nua…/ Sentou-se…. e sorriu amargamente”. Eu era uma guriazinha e não tinha a menor ideia sobre quem era Leon Tolstoi, mas as imagens bastaram para, com um único poema, criar um cenário interno riquíssimo. Assim aconteceu com os demais poemas que lia. Hoje, quando leio meus primeiros escritos, vejo que tentava imitá-lo de alguma maneira. Certa vez, ele escreveu: “Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez? ”. É com o mesmo espanto de menina que ainda o leio e identifico nas coisas que escrevo o desejo de dizer da estranha dimensão das coisas pequenas, como os sons de um relógio ou o mundo-dentro de um porta-retratos. Depois dele vieram outros poetas que admiro muito, e com os quais me identifico até mais. Mas é muito bom tê-lo ainda como companhia.

Uma pergunta para a psicóloga: Freud é ou não é uma fraude como médico da alma?

Meu primeiro contato com a obra de Freud foi no primeiro período da graduação em Psicologia, há vinte cinco anos. Para mim é uma experiência bem diversa pensar no que compreendia de sua leitura quando tinha cerca de vinte anos de idade e agora. Eu penso que a invenção da psicanálise foi um evento genial. Falar sobre a relação infância-sexualidade quando não se era permitido dizer muitas coisas a respeito foi algo corajoso. Da mesma forma, dizer que não somos senhores de nossa própria morada, por conta da centralidade da ideia de inconsciente, também. Alguns textos que trazem discussões sobre o desamparo humano e a religiosidade são, para mim, formidáveis. O que tenho dito em sala de aula, quando o discutimos, é que seu texto precisa ser pensado dentro de um contexto histórico-cultural, como todas as coisas. Mas não raras vezes suas ideias são reproduzidas a partir de leituras superficiais ou descontextualizadas, daí dizer que se trata de uma fraude frente à possibilidade de se pensar a existência e o sofrimento humano através de caminhos que não considerem a importância da palavra da maneira como ele o fez. Penso que se Freud estivesse vivo e produzindo estaria (ainda) preocupado com questões como o narcisismo e com nossos adoecimentos a partir das urgências de felicidade que se colocam atualmente. Penso que talvez pudesse fazer leituras mais contundentes sobre a feminilidade, por exemplo, e sobre as relações sociais, como têm feito importantes psicanalistas de nosso tempo. Muitas psicanálises vieram a partir da leitura de Freud, muitas escolas de pensamento com diferentes orientações. De todo modo, não há perspectivas teóricas em psicologia que me encantem mais que aquelas que surgiram a partir das teorias psicanalíticas e do existencialismo. Talvez por essas aproximações com a filosofia, a antropologia e a literatura, e por dizer bastante à minha experiência pessoal.

Sobre o teu processo criativo: Em que momento da alma é que a tua poesia vem à tona, e se materializa em signos, em letras?

Não há um momento ou estado de espírito que eu possa definir como “aquele” em que geralmente escrevo. O que posso dizer é que meu processo criativo é exaustivo, e que envolve uma mistura de inquietação, leituras de outros autores, música, silêncio, chá e melancolia. E que ele só é possível quando estou em casa. Nunca consegui escrever um poema em um guardanapo (risos). Às vezes fico semanas sem escrever, meses. E nenhum poema ocorre rapidamente, como uma psicografia em que eu fechasse os olhos e ele acontecesse todo de uma vez. Geralmente começa por uma imagem mental, como uma fotografia. Quando falo em “imagem”, nesse caso, me refiro também a um afeto, ideia ou palavra. Essa representação vai aos poucos se ligando a outra até formar um verso. Há também uma relação com a sonoridade, uma busca de um jeito de dizer que pudesse fazer com que as palavras dançassem, minimamente. Então, é um pouco isso: uma fotografia, uma dança. Demoro a encontrar o foco, demoro a acertar o passo. Mas enquanto não acontecer, a tal ideia não me abandona. Daí a exaustão.
O poeta é um fingidor, ou é apenas um tolo sonhador, que acredita naquilo que ninguém crê?
Penso que ele talvez seja, muitas vezes, uma criatura empática, que consegue se colocar em lugares que não necessariamente esteve, mas pode dizê-los de alguma forma. Certa vez, escrevi um poema a um amigo com quem tenho longas conversas sobre empatia. O texto foi escrito a partir do impacto da leitura sobre a morte de quatro meninos em uma praia na Faixa de Gaza, bombardeados por um navio enquanto jogavam futebol. Um dos versos deu o nome ao meu segundo livro, “Nunca estivemos em Ítaca”. É isso: nunca estivemos em muitos lugares e, ao mesmo tempo, estamos irremediavelmente mergulhados neles por uma conexão com os nossos diferentes afetos. Não é necessariamente fingimento ou sonho. É algo de desejo e inquietação.

Tua vida mudou depois que publicastes teu primeiro livro?

Minha vida muda todos os dias porque as coisas se movimentam o tempo todo. Nesse sentido, muitas coisas mudaram de 2012 para cá. Mas não penso que tenha uma relação maior com a publicação. Algo bom sobre isso é que de lá para cá conheci muitos escritores, músicos, leitores, pessoas sensíveis que têm o mesmo carinho pela arte, e isso só me trouxe coisas boas. Internamente, sim, reconheço muitas mudanças. Tenho sido mais cuidadosa com a palavra, tenho prestado mais atenção às pessoas e coisas. Tenho tentado ouvir mais, inclusive a mim.

Tu publicas por conta própria, ou em parceria com a editora?

Eu tenho 3 blogs que servem como uma caixinha de guardados para os meus poemas, e em dois deles publico regularmente. Com a Editora Patuá tive a parceria dos dois livros, Boneca Russa em Casa de Silêncios (2012) e Nunca estivemos em Ítaca (2015). Tive algumas publicações em revistas eletrônicas, como Mallarmargens, Germina e Diversos Afins, e contribuo com poemas em alguns sites, como o Escritoras Suicidas e o Zonadapalavra. Além desses projetos, há também o Livro da Tribo, a agenda anual na qual tenho publicado desde 2012.

Como foi a recepção do teu livro no meio acadêmico? Teus alunos leem tua poesia, e compram teus livros?

Meus colegas e alunos são muito queridos e generosos. Alguns têm mais afinidade que outros com a leitura e escrita de poesia, e são os que se mostram mais interessados em acompanhar as publicações online, e também na compra dos livros. Muitos escrevem lindamente, e temos trocas muito interessantes. Minhas aulas sobre infância e psicanálise, de alguns anos para cá, têm se caracterizado cada vez mais pela intersecção com arte e literatura. Os alunos são grandes parceiros.

Sobre a cultura do brasileiro, no que tange à poesia: Como vês a divulgação de literatura nas redes sociais? É possível atingir esta geração de facebook?

Seguidamente me vejo pensando sobre isso. Com frequência as visitas ao Facebook me desencadeiam ansiedade, creio que pela velocidade com que as informações aparecem, seguidas de comentários que, na maior parte das vezes, são escritos sem um tempo necessário de reflexão. É tudo muito urgente. E muito passageiro. A velocidade com que as coisas aparentemente importantes se tornam desimportantes é assustadora. Mas há outro lado: alguns encontros se tornam possíveis. Bons encontros, como, por exemplo, os que ocorrem entre leitores/escritores de poesia. Eu sou uma leitora virtual incansável. Leio muitos poemas publicados no Facebook, e termino a leitura de muitos deles agradecendo mentalmente a existência dessa ferramenta. Há alguns autores que, por conta das belezas que produzem, me fizeram ter certo ritual diário: acordar, preparar a xícara de café e buscar o que escreveram. Essas pessoas que leio com tanto prazer estão presentes em meu segundo livro, de várias formas: porque os leio e porque me inquietam, escrevo. Somos esta geração de Facebook, mesmo que tenhamos jogado bolinha de gude na frente de casa anos atrás. Estamos muito atrelados às redes sociais. Desejo que muitos usuários possam sentir-se atingidos pela escrita como eu me sinto, seja ela em livro ou nestas plataformas.

Poemas de Daniela Delias

AGULHAS

nos dedos de minha mãe
é que as horas desdobravam
os silêncios mais sentidos

não que eu quisesse cantar
porque nos dedos de minha mãe
eu também ia e vinha

basta agora uma canção amarrotada
ou um suave e metálico tilintar de agulhas
e eu alimento os relógios antigos

 

OLARIA

eu falava sobre o amor
rumor de assombro e leveza
palavra plena palavra ausência
o barro antes das mãos

foi quando vi meu avô oleiro
a água compondo a massa
o fogo contendo a água
as casas tomando forma

eu falava sobre você e o amor
e os olhos de meu avô alfarero
o barro forjado dentro
o tempo antes das mãos

 

PARTES

toma a palavra exército
põe devagar entre os dedos
dobra em pequenas partes

há uma guerra, eu sei
frotas falanges incêndios
(a horda insiste, devastada)

não somos o inferno, meu bem
só essa caixa de guardados

Os livros podem ser adquiridos pelo site da Editora Patuá ou diretamente com a autora pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.