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“Jamais serei conhecido por quebrar Brasília” afirma Rollemberg

Em entrevista, o chefe do Executivo fez um balanço das ações de 2016 e antecipou as medidas prioritárias para o ano que vem

Por Ana Dubeux , Ana Maria Campos , Cristine Gentil , Helena Mader - Correio Braziliense - 25/12/2016 - 14:30:21



O governo descarta novos aumentos de impostos em 2017, mas não abre mão de outra medida impopular, considerada imprescindível para manter as contas públicas em dia: a reforma da Previdência. Paralelamente ao projeto debatido no Congresso Nacional, o GDF vai propor uma mudança na alíquota de contribuição dos servidores, atualmente de 11%. Alguns estados aumentaram esse percentual para 14%. “É muito importante abrir esse debate, senão a cidade corre o risco de não conseguir pagar os aposentados em um prazo de cinco a 10 anos. A discussão sobre a mudança de alíquota precisa ser feita, de forma aberta e transparente”, explicou o governador Rodrigo Rollemberg, em entrevista ao Correio. Durante a conversa, o chefe do Executivo fez um balanço das ações de 2016 e antecipou as medidas prioritárias para o ano que vem.

Cobrado sobre promessas de campanha que não devem ser entregues até o fim do mandato, como a ampliação do metrô, a implantação da escola integral em toda a rede pública, a realização de concursos e a construção de policlínicas, Rollemberg usou o caos financeiro como justificativa para o descumprimento dos compromissos eleitorais. “Eu comparo compromissos de campanha à intenção de uma família que planejou fazer uma viagem nas férias e não contava com a crise econômica”, explicou. “Mas conseguimos manter o salário em dia, garantimos o pagamento do 13º e de boa parte da dívida que herdamos do governo anterior. Ainda iniciamos um conjunto de obras e de ações muito importantes para a população de Brasília”, acrescentou o governador.  Ele ressalta que os senadores do DF poderiam ajudar mais a cidade, em busca de recursos.

A menos de dois anos para a próxima corrida pelo Palácio do Buriti, Rollemberg ainda evita cravar se será ou não candidato à reeleição. “Estamos vivendo um momento de grandes desafios para a cidade e para o Brasil. Só vou tratar de 2018 em 2018. Tenho uma responsabilidade muito grande com Brasília, ainda que as medidas necessárias tenham um custo político alto”, justificou. 

O governador explicou ainda seu apoio explícito ao distrital Agaciel Maia (PR) na disputa pela Presidência da Câmara Legislativa. O parlamentar acabou derrotado por Joe Valle (PDT), apesar do empenho de Rollemberg em prol de sua candidatura. “Sou uma pessoa muito transparente. Para o ambiente político, tanto faz articular nos bastidores ou explicitamente, todo mundo acaba sabendo da sua opção”. Durante a entrevista, ele fez um mea-culpa: admitiu uma falha na interlocução com políticos que ajudaram a elegê-lo em 2014. “Reconheço que há deficiências na articulação política. A administração da crise econômica absorve muito e talvez a gente não tenha dado a atenção ideal para esses aliados”. 

Que balanço o senhor faz de 2016, um ano marcado pelo embate com os servidores e pela falta de recursos?

Considero que tivemos um ano positivo, especialmente se compararmos com a situação atual do país e de outras unidades da Federação. Quando assumimos o governo, Brasília estava na pior situação e, hoje, olhamos para estados ricos como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, que estão parcelando salários. Em Brasília, conseguimos manter o salário em dia, garantimos o pagamento do 13º e de boa parte da dívida que herdamos do governo anterior. Ainda iniciamos um conjunto de obras e de ações muito importantes para a população de Brasília.

Quais foram as principais obras?

Citaria a infraestrutura de áreas como Sol Nascente, Porto Rico, Vicente Pires, Buritizinhos e Bernardo Sayão. As obras do Bloco 2 do Hospital da Criança estão bem adiantadas. Essa será uma construção muito importante, que vai oferecer atendimento de média e de alta complexidade de pediatria. No início de 2017, vamos inaugurar a estação de tratamento de Águas Lindas, um empreendimento para garantir a qualidade da água na Barragem do Descoberto, e estamos adiantados com a nossa parte na estação de tratamento de água de Corumbá. Em janeiro, vamos inaugurar o aterro sanitário. Estamos fazendo as obras do trevo de triagem norte, que vai melhorar muito a mobilidade naquela área. A partir do ano que vem, vamos universalizar a educação infantil para crianças de quatro e cinco anos. Embora tenha sido um ano muito difícil, acho que estamos fechando com saldo positivo. 

Qual a sua expectativa para 2017? Será um ano mais difícil?

Tenho convicção de que será um ano difícil. O Congresso Nacional e os estados terão que enfrentar pautas difíceis. Mas nossa esperança é de que haja uma retomada da economia, ainda que leve. Isso já traria resultados muito positivos para o DF.

Quais são essas medidas impopulares? Elas serão tomadas em Brasília também?

O que me preocupa como governador de Brasília é que todas as pautas que geram conflito e tensão acabam sobrecarregando as nossas forças de segurança. E 2017 será um ano de grandes manifestações na cidade. O Brasil tem que enfrentar o debate da Reforma da Previdência. Isso tem consequências nas manifestações realizadas na cidade. 

Que avaliação o senhor faz da atuação das forças de segurança nas últimas manifestações, quando houve muita depredação?

A polícia cumpriu seu papel. É claro que sempre é possível aperfeiçoar. Percebemos, nas últimas manifestações, que há um conjunto de pessoas, a maioria vinda de fora, que estava com o objetivo específico de promover confusão e depredação. E isso nós não vamos admitir.

O governo fará uma reforma da Previdência local, aumentando a alíquota da contribuição dos servidores?

É muito importante abrir esse debate, senão a cidade corre o risco de não conseguir pagar os aposentados em um prazo de cinco a 10 anos. A primeira medida, que já enviamos à Câmara Legislativa, é o projeto de lei da previdência complementar dos servidores que ingressarem no serviço público a partir de agora. Quanto a isso, não haverá grande dificuldade. Já o debate sobre a mudança de alíquota também precisa ser feito, de forma aberta e transparente. 

O senhor teve de usar recursos do Instituto de Previdência dos Servidores (Iprev) em 2015 e em 2016. O GDF vai recorrer a essa medida novamente nos próximos anos?

Espero que não. No primeiro ano, precisamos usar um montante muito maior mas, agora, o valor foi muito menor. O mais importante é que fizemos isso com muita responsabilidade. Repusemos todos os recursos usados para pagar aposentados que entraram no serviço público antes de 2006. Fizemos essa reposição com terrenos em áreas nobres da cidade, como Noroeste e Águas Claras, o que vai dar solidez ao pagamento de aposentadorias futuras. Agora, repusemos os recursos com ações do BRB e o Iprev passa a ser sócio do banco.

O uso de recursos do Iprev é um assunto controverso e há especialistas que indicam a existência de um risco futuro à previdência dos servidores... 

Fizemos uma negociação com os sindicatos e trocamos terrenos a pedido deles. Percebemos muita satisfação por parte dos sindicatos. Os técnicos do governo federal apreciaram a operação e entenderam que ela era positiva para o Iprev. 

Como o senhor disse, 2017 será um período difícil e, além disso, será um ano pré-eleitoral. O senhor deve ser candidato à reeleição, em um momento de falta de credibilidade do mundo político? Como lidar com esse problema?

Tenho feito as coisas que precisavam ser feitas para o DF. Tenho sido muito responsável com o futuro de Brasília, tomando medidas necessárias, muitas vezes com custo político elevado. Estamos buscando equilíbrio fiscal. Jamais aceitaria ser conhecido como o governador que quebrou Brasília. Quero ser lembrado como o governador que equilibrou as contas públicas, até porque isso é fundamental para colocar em prática as políticas públicas. Estamos combatendo com rigor a cultura da grilagem de terras e democratizando o acesso às áreas públicas com a desobstrução da orla do Lago Paranoá e com a abertura da área à população. Vou continuar fazendo o que entendo que seja correto e necessário. 

Já resolveu se será candidato à reeleição?

Estamos vivendo momento de grandes desafios para a cidade e para o Brasil. Só vou tratar de 2018 em 2018. A melhor forma é fazer o que precisa ser feito. Tenho uma responsabilidade muito grande com essa cidade, ainda que as medidas necessárias tenham um custo político alto.

O senhor evita antecipar o debate eleitoral, mas seus potenciais adversários estão se preparando. Nas ruas, a gente já vê adesivos de “Fora, Rollemberg”, assim como houve o “Fora, Temer” e o “Fora, Dilma”. Acha que a disputa já começou?

O Brasil está passando pela maior crise da sua história. Brasília não é uma ilha e também enfrenta esse problema, causado pela irresponsabilidade fiscal. Estamos sendo extremamente responsáveis. Tenho convicção de que no momento do debate político, onde há a oportunidade de contextualizar as coisas, mostrar as medidas tomadas, e as entregas à população, não pensando na próxima eleição, mas nas futuras gerações, grande parte da população vai compreender o nosso esforço.

O custo político é grande principalmente com relação aos reajustes aprovados no governo passado e não pagos pela sua gestão. Isso pode derrotá-lo nas eleições?

Já percebo de parte dos servidores públicos o reconhecimento da impossibilidade de darmos o aumento agora. As pessoas preferem a garantia de ter o salário em dia, que é a segurança das famílias, do que ter um aumento sem receber. Isso acaba com qualquer planejamento familiar. O governo deve ser julgado ao fim da gestão. Não adianta, especialmente em um momento de crise, em que temos que tomar medidas duras em nome do equilíbrio fiscal, querer julgar o governo na metade do trabalho.

O senhor tem recebido muitas críticas de aliados que ajudaram a elegê-lo em 2014. Que avaliação o senhor faz da sua relação com esses aliados?

Eu reconheço que há deficiências na articulação política do governo. A administração da crise econômica absorve muito e talvez a gente não tenha dado a atenção ideal para esses aliados. Mas sempre é tempo de corrigir isso. Às vezes, a imprensa fala que não temos base aliada na Câmara, mas aprovamos 95% dos projetos importantes que encaminhamos. E graças a esses projetos, chegamos ao fim de 2016 em uma situação muito melhor do que a maioria dos estados brasileiros. 

Muitos deputados apoiam o governo porque têm cargos, administrações regionais. Qual a mudança em relação a gestões passadas?

Isso ocorre em uma escala muito menor do que ocorria nos outros governos. As secretarias de Saúde, Educação, Segurança Pública, as principais áreas, não sofrem interferência política. Existe alguma composição política, mas é em um alcance menor. É claro que isso tem aspectos positivos, mas amplia as dificuldades de convivência com a Câmara. Ao longo dos últimos dois anos, tivemos uma relação com a Câmara muito positiva. 

As eleições para a Mesa Diretora do Poder Legislativo sempre têm a influência do Executivo, mas essa articulação normalmente ocorre nos bastidores. Desta vez, o senhor apoiou abertamente o candidato Agaciel Maia, que acabou derrotado. Esse apoio explícito pode ter atrapalhado?

Eu sou uma pessoa muito transparente. Para o ambiente político, tanto faz articular nos bastidores ou explicitamente, todo mundo acaba sabendo da sua opção. Eu fui muito franco, disse ao deputado Joe, por quem tenho apreço e respeito, que eu precisava fazer uma opção, e que a minha opção era pelo deputado Agaciel, que nesses dois anos foi uma pessoa muito correta com o governo. Não tenho dificuldade nenhuma de convivência com o deputado Joe e tenho certeza que teremos uma parceria muito positiva em defesa dos interesses de Brasília.

Adversários declarados do senhor, como os distritais Wellington Luiz (PMDB) e Raimundo Ribeiro (PPS), chegaram à Mesa Diretora. Isso representa uma preocupação?

A Mesa Diretora é muito presidencialista. Do ponto de vista político, é o cargo de presidente que faz muita diferença. Nas comissões, será importante ter uma correlação de forças importante. Mas qualquer que seja a composição, vamos buscar colocar os interesses da cidade acima de outros. A população está muito atenta, se ela perceber que algum político está colocando interesses pessoais e políticos acima do seu cargo, para prejudicar a cidade, ele que estará em prejuízo.

A contratação de organizações sociais é a principal aposta do governo para a saúde, mas a medida suscita grande resistência de sindicatos, servidores e do Ministério Público. O governo tem um plano B para melhorar a rede pública?

Tenho uma convicção firme de que a implantação das organizações sociais nas UPAs seria muito positiva para a população de Brasília e não criaria tanto conflito com os servidores da saúde. A gente percebe que há resistência ideológica do MP e há resistência dos sindicatos porque eles não querem que haja nenhum modelo de comparação. Isso poderá fragilizar a posição dos sindicatos. Visitei várias organizações sociais que administram equipamentos de saúde em São Paulo, em Goiás, com resultados muito positivos.

Acredita que será possível vencer essa resistência?

Se não existisse dificuldade, já teríamos implantado esse modelo. Vamos tentar superar os obstáculos para implantar as OSs. Mas estamos trabalhando em outras áreas para melhorar o atendimento da saúde. Parte dos nossos problemas da área ainda é fruto das dívidas que herdamos do governo anterior. Ainda devemos R$ 400 milhões da gestão passada. Muitas vezes, empresas que fazem manutenção de equipamentos se recusam a fazer novo contrato se não pagarmos as dívidas de 2014. Só agora, conseguimos renovar os contratos dos tomógrafos e mamógrafos, conseguimos pagar as dívidas ao longo deste ano. Esta semana, conseguimos regularizar o estoque de antibióticos na rede. Mas é uma dificuldade muito grande para isso, muitos medicamentos têm fornecedores exclusivos que se recusavam a fornecer o remédio se não recebessem a dívida de 2014. Por outro lado, a redução da jornada da saúde criou um problema muito grande. A população não sabe, mas todo servidor da saúde hoje tem jornada de 20 horas e isso cria uma dificuldade muito grande para compor escalas. Mas tenho convicção de que, independente de OS, a população vai perceber melhorias na saúde em 2017.

Brasília ainda tem qualidade de vida, mas a gente percebe o crescimento dos índices de criminalidade, especialmente contra o patrimônio. Como deter o avanço da violência?

Conversamos com especialistas de segurança pública, mostramos os dados, que são muito transparentes, e eles ficaram muito impressionados positivamente. A violência tem aumentado muito nos outros estados, mas em Brasília ela está sob controle. No ano passado, tivemos o menor índice de homicídios por 100 mil habitantes dos últimos 22 anos. Este ano, vamos fechar com o menor índice dos últimos 23 anos. Estamos com 15 homicídios a menos, em comparação com o ano passado. Por outro lado, tivemos aumento dos crimes contra o patrimônio ao longo deste ano. Se a gente comparar o período de setembro a dezembro do ano passado, quando já haviam sido adotadas as audiências de custódia, com os mesmos meses deste ano, a gente vai perceber que o aumento foi muito pequeno, o índice praticamente estabilizou. 

As audiências de custódia aumentaram a criminalidade?

Elas têm o aspecto positivo de descomprimir o sistema prisional, mas, ao mesmo tempo, isso aumenta os crimes contra o patrimônio porque o sistema prende e solta, prende e solta, e a pessoa acaba cometendo o delito mais de uma vez. Em segundo lugar, temos as influências das manifestações. Tivemos um processo de impeachment em que o país esteve muito dividido, com risco de conflitos, e concluímos esse processo sem nenhum incidente grave. Mas, toda vez que há uma grande manifestação, a gente acaba deslocando um contingente muito grande de policiais para a Esplanada, deixando outras áreas descobertas. Em terceiro lugar, a crise econômica nacional leva ao aumento do desemprego e também pressiona os índices de crimes contra o patrimônio. Estamos fazendo pesquisas para identificar as sete manchas maiores de violência, com definição dos dias e horários em que os crimes ocorrem com maior intensidade, para, a partir daí, ter uma atuação mais efetiva das forças de segurança. Também vamos concentrar projetos sociais proritariamente nessas áreas, com foco na juventude. Grande parte dos crimes é cometida por jovens reincidentes.

“Temer assumiu num momento de grande complexidade e dificuldade. Nesse sentido, temos de ser compreensivos. Entendo que, para o bem do país, nós devemos buscar colaborar para que o governo supere esse momento difícil e para que o país retome o desenvolvimento"

Na área de educação, algumas das principais promessas de campanha foram resolver a falta de creches, a entrega de um tablet por aluno do ensino médio e a garantia da escola integral em todas as escolas. Alguma dessas promessas vai sair do papel?

Eu comparo compromissos de campanha à intenção de uma família que planejou fazer uma viagem nas férias e não contava com a crise econômica. Muitas das coisas que prometemos na campanha, não vamos conseguir cumprir na integralidade, ou não vamos conseguir cumprir no prazo que gostaríamos. Como uma família atingida pela crise econômica replaneja uma viagem, ou a festa de 15 anos da filha. O fato concreto é que muitos desses compromissos estão sendo cumpridos, apesar da crise. 

Para a área de educação, qual será seu maior legado?

Em fevereiro, teremos universalizado a educação infantil para crianças de quatro e cinco anos. Isso é um feito extraordinário. Não podemos construir creches para atender essas crianças, mas credenciamos 135 entidades e o governo vai pagar para essas crianças estudarem. Conseguimos que todos os alunos do 3º ano fizessem o simulado para o Enem, e fizemos o Bora Vencer, que é um programa de cursos para estudantes que vão fazer o PAS e o Enem. Para implantar a escola em tempo integral, estamos aguardando a conclusão da escola técnica do Guará, que ficará pronta no ano que vem. Nessa escola, vamos desenvolver um projeto-piloto, e tenho convicção de que vamos transformá-lo em um modelo de educação integral para o país. Vamos integrar a rede de ensino à escola técnica, para garantir, a partir do segundo semestre do ano que vem, o ensino integral para todos os alunos do Guará. Depois, vamos ampliar para todas as regiões. 

Como está sua relação com o vice-governador (Renato Santana), depois de vários atritos públicos. Esses episódios estão superados?

Combinei de conversarmos mais neste fim de ano. O episódio está completamente superado. Tenho muito apreço pelo Renato Santana, pelo Rogério Rosso e pelo Arthur Bernardes, que fazem parte do governo.

E com o Reguffe? Ele fez críticas duras ao seu governo em entrevista ao CB.Poder...

Mandei uma mensagem para o Reguffe, quando deu aquela declaração. “Pau que bate em Chico bate em Francisco”, eu disse. Ele ficou todo preocupado...

O que o senhor quis dizer com isso?

Da mesma forma como ele tem uma avaliação do governo, eu tenho uma avaliação do mandato do Reguffe. Eu gostaria de ver um senador de Brasília ajudando mais a cidade do que o senador Reguffe ajuda. Eu reconheço que o governo tem muitas deficiências e muitas são de desarticulação política. Gostaria de estar mais próximo do Reguffe, gosto dele, e aquelas declarações em nada me afastam do senador. Mas aquilo pode servir também para um alerta, para que eu possa me aproximar mais dele, mas para que ele possa também se aproximar mais de Brasília.

Outra crítica que se ouve com frequência é que o projeto para fazer eleição direta para administrador não teve avanço. Foi criado um grupo de trabalho e ficou nisso. O senhor fará a eleição?

A proposta está pronta e será encaminhada para a Câmara Legislativa no ano que vem. Se não encaminhamos ainda foi porque fizemos consulta pública, foram muitas sugestões, e tivemos que fazer uma triagem, ver o que cabia e o que não cabia no projeto. E não tinha ambiente político para encaminhar neste semestre. Quando a gente firma um compromisso de campanha não quer dizer que faremos tudo no primeiro ou no segundo ano de governo. E com toda a franqueza, ninguém imaginava que viveríamos no Brasil dois anos de depressão econômica. É claro que isso mudou os planos e dificultou as coisas. Reguffe fala em dar isenção de imposto para remédios, num ambiente em que é preciso priorizar o aumento de arrecadação. Foi o que disse a ele: não há a menor possibilidade agora. Lá na frente, quando as coisas melhorarem, certamente vamos fazer.

Em relação aos dois outros senadores, Cristovam Buarque e Hélio José, qual a avaliação que o senhor faz?

O Cristovam tem uma atuação política muito focada no plano nacional. Sinto falta de ter senadores mais focados nos temas do DF e na busca de recursos para a cidade. Temos R$ 750 milhões de recursos de compensação previdenciária. Em dois anos, eu não vi nenhum movimento dos senadores Cristovam ou Reguffe para ir ao Ministério da Fazenda para ajudar a liberar esses recursos para o Distrito Federal. Isso não depende do governador e o dinheiro não será para o governador, isso é para a cidade. Se a gente tivesse conseguido esse recurso, talvez nem precisasse usar o dinheiro do Iprev. E o senador Hélio também acho que pode e será bem-vindo se quiser a ajudar a economia do DF.

O senhor começou o mandato aliado da então presidente da Câmara, Celina Leão. Houve um rompimento e, agora, o senhor apoiou a candidatura de Agaciel Maia. A Operação Drácon acabou ajudando o senhor? Como será essa relação com a Câmara Legislativa a partir de agora?

No primeiro ano, tivemos um conjunto de propostas aprovadas pela Câmara Legislativa que foram muito importantes para o DF. A utilização do Iprev, o Refis, foram indispensáveis para que chegássemos no fim do ano com o pagamento dos servidores em dia. Só tenho uma única queixa com relação à Câmara Legislativa: ela fez uma CPI com o propósito desleal de tentar associar a mim ou a minha família condutas irregulares, que jamais tivemos ao longo da gestão. E o destino mostrou que algumas dessas pessoas que estavam se utilizando da CPI para tentar impor ao governo um desgaste acabaram expostas pela própria investigação do Ministério Público. E que não houve envolvimento algum do governo nesse processo.

O fato de a deputada Celina Leão ter ajudado a eleição do Joe Valle, na sua opinião, vai influenciar a Câmara contra o seu governo?

Creio que não. Eu disse ao Joe que tenho uma identidade de propósitos muito grande com ele, uma relação pessoal de muitos anos. Ele é de um partido aliado do PSB desde o primeiro momento. Tenho convicção de que não haverá dificuldade nenhuma nessa convivência entre governo e Câmara Legislativa.

Esses pedidos de impeachment que tramitam na Câmara o preocupam?

Não preocupam porque não há nenhuma base jurídica nem política para isso.

Existe uma expectativa com relação à reforma do secretariado que o senhor fará no primeiro escalão. A mudança será feita para abrigar melhor os aliados?

Estamos chegando à metade do governo. É momento de dar uma sacolejada e fazer com que o governo seja mais ágil em algumas áreas. É também momento de fazer uma avaliação política, secretaria por secretaria, para imprimir as mudanças necessárias para que o governo possa entregar mais à população de Brasília. É claro que temos que fazer isso levando em conta as forças políticas que estão na Câmara Legislativa e que estão representadas na cidade. Mas as mudanças serão pontuais. 

Na sua análise desses seis meses de governo Temer, o Brasil está no caminho certo?

Temer assumiu num momento de grande complexidade e dificuldade. Nesse sentido, temos de ser compreensivos. Entendo que, para o bem do país, nós devemos buscar colaborar para que o governo supere esse momento difícil e para que o país retome o desenvolvimento. Qualquer disputa política deve ser deixada de lado.

Com Temer a relação é melhor do que era com a Dilma?

Tenho uma facilidade de diálogo muito grande com o presidente Temer e com o ministro (Henrique) Meireles. Acho que com esse papel que acabei desempenhando de articular o fórum de governadores, tenho convicção e digo isso com humildade, cumpri um papel muito importante de construir uma agenda política positiva e produtiva para o país. Hoje, alguns estados tiveram uma melhora significativa na sua situação em função da articulação desse fórum de governadores. Abri um espaço de interlocução muito grande. 

O fato de o presidente Temer ter entre seus principais assessores Tadeu Filippelli, um potencial rival político do senhor, atrapalha ou já atrapalhou essa relação?

Não vejo como possa atrapalhar. A presença de uma pessoa de Brasília só pode ajudar. Eu espero que todos os políticos de Brasília ajudem a cidade neste momento. A disputa política vai se dar em 2018 com toda a naturalidade.

O deputado Chico Vigilante, do PT, apoia mais o seu governo do que muitos aliados diretos. Essa aproximação com o PT numa eleição é provável?

A questão de 2018 será tratada em 2018. Tenho que reconhecer que o deputado Chico Vigilante, embora seja muitas vezes um crítico do governo,  tem colaborado com temas de interesse da cidade. Tem tido uma postura positiva em relação à cidade.

Desde o ano passado, havia o risco de uma crise hídrica, o que acabou se confirmando. Os especialistas têm alertado sobre a demora em tomar medidas de mais impacto, tanto da tarifa de contingência quanto do racionamento. O senhor está certo de que as medidas adotadas serão suficientes? Não teme chegar ao fim do mandato e ter de tomar medidas mais impopulares ainda?

Todas as decisões em relação à questão da água foram tomadas do ponto de vista eminentemente técnico. Não houve nenhuma influência política. Hoje, cabe à Adasa e à Caesb definir o que deve ser feito para garantir o abastecimento agora e futuro. Acompanho diariamente o nível da barragem e estou realmente preocupado, mas tenho deixado essas decisões serem tomados do ponto de vista técnico. Inclusive, quanto ao anúncio de um possível racionamento, muitos me aconselharam, dizendo que haveria desgaste político. Mas se essa for a decisão técnica, tem que haver esse alerta à população. Agora, é importante registrar duas coisas: nunca um governo na história de Brasília combateu a ocupação irregular do solo e a grilagem como nós estamos combatendo, que é uma das causas da falta de água. E há 16 anos não se fazia um investimento na ampliação da capacidade hídrica do Distrito Federal. 

O senhor acha que o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, com os desdobramentos da Operação Lava-Jato, chega a 2018 como candidato do PSDB com apoio do PSB?

Alckmin é uma pessoa de grande envergadura, que administra muito bem o estado de São Paulo e que tem muito boa relação com o PSB. Quem serão os candidatos em 2018? É cedo para dizer. Até porque há uma disputa política dentro do PSDB. Ele será candidato? Será pelo PSDB? Se não for, será por outro partido? São definições que só teremos em 2018.

Publicado no Gama Cidadão -  27/12/2016 12:29

Entrevista do deputado distrital Rodrigo Delmasso

Correio Braziliense - Coluna do Celson Bianchi

Três perguntas para... Rodrigo Delmasso ( PTN) - deputado distrital
 
Celson Bianchi-Quais medidas poderiam ser adotadas para contribuir para que o DF saia da crise financeira atual?
 
Rodrigo Delmasso- Para sairmos dessa crise financeira, duas medidas precisam ser priorizadas. A primeira é acelerar o processo de regularização fundiária e a outra, a regularização da utilização de área pública. Sugiro que o governo faça uma proposta de regularização de utilização de área pública, o que além de trazer segurança aos moradores e empreendedores, aumentará a receita do DF.
 
 
CB- Deputado Delmasso, de todos seus projetos de lei apresentados quais destacaria?
 
RD-Em um ano e meio de mandato apresentei 253 projetos e destaco três deles: A população precisa de respostas rápidas e transparência. Pensando nisso apresentei o projeto de Lei 1202/2016, que institui diretrizes para a Política da Desburocratização no DF. Esta lei tem o objetivo de otimizar e simplificar os processos administrativos e eliminar formalidades burocráticas, possibilitando à administração pública ajustar-se ao modelo de tecnologia da informação. Esta Política de Desburocratização será conduzida por um conselho formado pelos poderes executivo, legislativo, judiciário e pelo Ministério Público. Eu acredito que nossos jovens precisam ser protegidos, pois o futuro do nosso país logo estará em suas mãos. Por isso apresentei o projeto 1141/2016, que institui diretrizes para a Política Pública Distrital de Combate à Violência Sexual contra a Criança e o Adolescente. Como presidente da CPI da Pedofilia, vi a necessidade de criar uma política de proteção a nossos jovens, para que mantenham intacta a capacidade de ter sonhos e ter fé no futuro. O último projeto, já foi aprovado e é a Lei 5625/2016 que garante a distribuição gratuita do canabidiol (CDB) na rede pública de saúde do DF, dentre outros medicamentos. O CBD é importado e com a oscilação do dólar pode chegar a R$ 3 mil, o que dificulta o tratamento para milhares de pacientes de baixa renda. A substância reduz significativamente as crises convulsivas em pacientes com epilepsia.
 
 
CB- Como brasiliense, o que gostaria que mudasse no atual cenário político do DF?
 
RD-Uma cidade só prospera quando há uma boa gestão pública. Acredito que é preciso a melhoria do processo de gestão, estabilidade política das instituições, e mais participação do cidadão nas decisões do governo. A Câmara Legislativa é esta ponte entre o poder executivo e a população. Havendo mais interação entre o legislativo e o executivo, as necessidades das pessoas poderão ser atendidas. Com políticas públicas bem executadas, há a garantia dos direitos do cidadão. Em meu mandato, eu sempre busco as demandas na fonte, que é a população. Um dos programas que tenho é o gabinete itinerante, no qual minha equipe e eu batemos de porta em porta para saber o que as pessoas precisam. Após colhida a solicitação, elas podem resultar em pedidos ao GDF, à administração da cidade, destinação de emendas, dentre outras providências. Após o andamento do pedido, enviamos uma resposta ao cidadão. Eu acredito que a política é feita para servir às pessoas e quando os representantes escolhidos pelo povo agem assim, a mudança começa a acontecer.
 
Mostrando trabalho 
 
A Comissão de Economia, Orçamento e Finanças (CEOF) da Câmara Legislativa aprovou, no comando do deputado Agaciel Maia (PR), proposta que cria o Refis 2016 - possibilitando que pessoas em débito com o GDF renegocie dívidas com desconto em juros e multas. A medida vai ajudar o governo a aumentar o caixa e garantir pagamento de servidores, além de investimentos em saúde e educação. Também foi aprovado projeto que dispensa grávidas e obesos de passarem pelas catracas dos ônibus.
 
Susto
 
Os funcionários do prédio da Petrobras no Setor de Autarquia  Norte tomaram um tremendo susto.  Tudo porque em tempos de lava a jato um caminhão do Corpo de Bombeiros foi fazer um teste pra próxima simulação de incêndio, que geralmente acontece uma vez por ano. A risada foi geral e todos pensaram que a limpeza na empresa chegava agora na fase da água e sabão. Alguns chegaram a sugerir água sanitária. Afinal no Brasil se perde o amigo, mais não se perde a piada.
 
 
Milagres
 
Todo mundo já ouviu falar em milagre da multiplicação, mas no Itapoã coisa é diferente. Dezenas de prédios gigantescos estão sendo construídos, principalmente as margens da BR. Devem pertencer à algum Santo, e não me refiro ao da novelo. Afinal construir em área irregular nas barbas da Agefis, só pode ser coisa de m$lagreiro, e dos bons.
 
Assistência
 
De autoria do deputado distrital Raimundo Ribeiro (PPS), a lei que torna obrigatório manter aparelho desfibrilador semiautomático externo, em locais que concentrem circulação diária igual ou superior a 1.500 pessoas, foi sancionada pelo governador do Distrito Federal. Conforme a Legislação, locais como shoppings centers, hotéis, aeroportos, metrôs e estádios de futebol, entre outros que concentrem grande circulação de pessoas, passam a ser obrigados a possuir o aparelho, que ajudará no socorro em caso de emergência.
 
Fone: Jornal Alô Brasília 

Entrevista: Joe Valle secretário do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos

À Queima-roupa

POR ANA MARIA CAMPOS - CORREIO BRAZILIENSE - 10/07/2016 - 19:53:42

 

Depois de apenas nove meses no governo numa pasta considerada uma supersecretaria, você decidiu retornar ao mandato na Câmara Legislativa. Por que essa decisão?

Desde quando fui para o governo, tinha colocado que fui eleito para ser legislador, para ser deputado. Num acordo com o governador, fomos ajudar o governo num momento de muita necessidade para fazer a fusão de três secretarias muito importantes. Cumprimos a nossa missão. As sementes estão todas germinadas e agora alguém precisa cuidar delas. Terminou esse momento da minha vida.

Deu para fazer algo com esta alegada falta de recursos por parte do governo?

Lógico que me concentrei muito na organização da secretaria que é o pecado mortal da gestão dos principais governos. Trabalhamos em linhas estruturantes. Montamos um planejamento estratégico, da base para o topo, fizemos o processo da qualificação corporativa, para formar as pessoas, para resgatar a auto-estima, trabalhamos equipando a secretaria a partir de recursos públicos federais com uma nova frota e iniciamos todo o processo de contratação para dar manutenção nos próprios que são muitos.

A sua expectativa é de que o seu sucessor seja alguém alinhado à sua atuação política?

Lógico. Os partidos que participam do governo têm sempre que visar formar quadros na parte de gestão pública. Então, temos certeza absoluta que, pelo bom senso do governador Rodrigo Rollemberg, esse alinhamento será completo, até porque você não amadurece um sistema de gestão em nove meses, nem em um ano, nem em dois. Há necessidade que se dê continuidade. 

Existe uma cobiça grande dos deputados para indicar alguém para a secretaria?

Acho que se há cobiça precisa ser repensada porque a secretaria é extremamente demandada por pessoas de vulnerabilidade num momento que não se tem recursos. O desgaste é muito grande, excessivo, porque você está sempre reagindo. Preparamos um quadro para começar a proagir. Temos pessoas passando fome, muitos desempregados...

Você vai deixar um cargo com visibilidade grande. Vai gerar uma disputa na base do Rollemberg?

Essa é uma questão para o governador decidir, logicamente dentro das necessidades dele. O PDT é um partido da base, tem sempre ajudado desde o primeiro momento, tem quadros capacitados para fazer esse processo. Acredito que uma ruptura de gestão partidária traria muitos prejuízos para o governo.

Volta para disputar a Presidência da Câmara Legislativa?

Neste momento, não passa pela minha ideia. Estou muito voltado a trabalhar por uma política distrital de assistência social, retomar o mandato que sempre foi muito participativo. Voltar também à fiscalização da saúde e representar a questão ambiental e a área rural.

Acredita que ainda é possível aprovar a emenda da reeleição em segundo turno?

Pelo que tenho visto na política, tudo é possível, não que eu aceite isso. Desde que entrei na Câmara, todo mundo sabe sou contra. Votei contra e vou continuar votando contra. Acho que a Celina fez um bom trabalho na presidência, é uma boa deputada, mas precisamos de renovação.

Sua ideia de não disputar pode mudar?

Você nunca pode dizer não a nada na política porque o projeto é coletivo. Mas essa não é a minha pretensão.

À Queima-roupa: Jaime Recena - Secretário adjunto de Turismo e Lazer

Eixo capital

POR ANA MARIA CAMPOS - CORREIO BRAZILIENSE - 12/06/2016 - 10:24:19

 

É difícil convencer turistas a virem a Brasília com tantos espaços culturais fechados, como o Teatro Nacional?

Não é o ideal, mas o nosso maior desafio é mostrar a cidade que vai além da Esplanada dos Ministérios e do Congresso Nacional. Brasília tem muitas outras qualidades capazes de atrair turistas. Existe o lado arquitetônico, é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, temos o maior parque urbano da América Latina, somos o terceiro polo gastronômico do país. Temos o dever de resgatar a história de nossa cidade por meio de nossos monumentos. Mas temos também o compromisso de mostrar as outras características de Brasília que encantam os turistas, como o turismo rural, o cenário cultural dos grandes shows e a inconfundível e completa harmonia da cidade com a natureza.

Com uma crise econômica nacional que reduz os investimentos públicos, qual a saída para incrementar o turismo?

A saída para driblar a crise e incrementar o turismo é a criatividade e, claro, a união do Poder Público com a iniciativa privada. São duas formas que, juntas, tornam mais viável caminhos de se injetar recursos na economia e ainda encontrar a saída para a crise nacional.

Você esteve em Barcelona, representando o GDF, na tentativa de trazer para Brasília um festival internacional de música, o Primavera Sound. Qual o resultado disso?

É um dos maiores eventos de música da Europa, já consolidado desde 2001 e que possui grande respeito no exterior. Fiz questão de ir, pagar minha passagem, porque o festival foge do tradicional e não se restringe às apresentações de bandas, mas investe em uma estrutura paralela grandiosa para conferências, além de encontros para troca de experiências entre músicos e profissionais da área do mundo todo. Agora, aguardamos os produtores do evento aqui em Brasília em setembro para apresentarmos a estrutura de nossa capital, que se alia à grande vocação artística e cultural de nossa capital.

Interditar o Mané Garrincha vai impedir que torcedores violentos se enfrentem nos estádios?

Claro que não. A interdição do Mané Garrincha não vai coibir essa violência, que infelizmente acaba tirando o brilho dos grandes jogos de futebol. São casos isolados e provocados por um grupo pequeno, que já sai de casa com esse fim. A medida correta é punir de forma exemplar esses integrantes de torcidas organizadas, que, na verdade, são muito mais vândalos e criminosos do que torcedores. E eu estou empenhado em identificá-los.

Na sua avaliação, qual deve ser a destinação do Mané Garrincha na 

parceria que o GDF pretende fazer com a iniciativa privada?

 O Mané Garrincha reúne todas as condições de se tornar o grande centro de entretenimento da América Latina. Brasília está localizada geograficamente na posição central do continente e possui um dos aeroportos mais modernos e eficientes do Brasil. Além disso, está muito próximo do setor hoteleiro da cidade.

Ali poderiam ser criados salas de cinema de última geração, teatros, centro de convenções e claro, uma área gourmet com o melhor da gastronomia. Acreditamos que a parceria com a iniciativa privada poderia desenvolver essas atividades, além de viabilizar outras iniciativas.

Há negociação para a apresentação de algum grande show em Brasília?

Estamos negociando duas grandes possibilidades para shows internacionais em Brasília, mas por questões contratuais ainda não podemos antecipar. A primeira e maior atração deve ser definida agora nesta semana. Confirmadas essas apresentações, será mais uma oportunidade de promoção positiva da imagem de Brasília.

PMDB e PT são irmãos siameses na crise’, diz Marina Silva

 

Entrevista. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente

 

Gabriela Caesar e Iuri Pitta, da Redação do portal Estadão - 22/03/2016 | 07h49

O PMDB, durante 12 anos, como irmão siamês do PT, indicou diretores para a Petrobrás e tomou decisões políticas que nos levaram à crise. O Brasil está vivendo um momento de emergencia econômica. Não podemos, em hipótese alguma, permitir que haja emergência institucional”

Marina Silva, candidata derrotada à Presidência em 2014 e atual líder da Rede, afirmou nesta segunda-feira, 21, ao Estado que um eventual governo Michel Temer não teria legitimidade, pois seria “irmão siamês” da gestão Dilma Rousseff. Por esse motivo, Temer não contaria com a adesão da Rede Sustentabilidade.

Candidata duas vezes derrotada à Presidência (2010 e 2014), Marina lidera as pesquisas de intenção de voto, mas evita colocar-se como o nome capaz de conduzir o País num eventual momento “pós-PT”. Ela diz preferir esperar uma definição sobre o mandato de Dilma.

A criadora da Rede refuta o argumento de que o impeachment seria um golpe, como afirma a presidente, mas insiste em dizer que o mais legítimo seria a cassação da chapa eleitoral de Dilma, da eleição de 2014, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Os seis ministros do TSE devolveriam para os 200 milhões de brasileiros a possibilidade de reparar o erro a que foram induzidos a cometer”, afirma ela, sem, no entanto, confirmar se seria candidata novamente à Presidência.

Para ela, setores interessados no impeachment gostariam de travar as investigações da Lava Jato. Apesar dos elogios à operação, Marina evita dizer se apoia decisões do juiz Sérgio Moro relacionadas ao ex-presidente Lula, assim como a condenar o petista “antes do julgamento”.

ESTADO - Para a sra., qual seria a solução mais viável para solucionar a crise política no País?

O que alcança a legalidade e a finalidade de resolver a crise seria o processo de cassação no TSE. Isso se devidamente comprovado que o dinheiro da Lava Jato foi utilizado na eleição da chapa do PT e do PMDB. Os seis ministros do TSE devolveriam aos 200 milhões de brasileiros a possibilidade de reparar o erro a que foram induzidos a cometer.

ESTADO - Qual é o posicionamento da sra. quanto ao impeachment, defendido pelo ex-presidente FHC?

O impeachment cumpre uma formalidade e até dá uma resposta política imediata, mas não cumpre com a finalidade de resolver a crise e de passar o Brasil a limpo. Ao final dele, a metade que patrocinou a crise estará lá, que é o PMDB. O PMDB, durante 12 anos, como irmão siamês do PT, indicou diretores para a Petrobrás e tomou decisões políticas que nos levaram à crise. O Brasil está vivendo um momento de emergência econômica, política e social. Não podemos, em hipótese alguma, permitir que haja emergência institucional. Se estamos dizendo que queremos passar o Brasil a limpo, que o Brasil se recupere com base na legalidade e na credibilidade, então não há como isentar uma parte que ajudou a patrocinar tudo que está aí.

ESTADO - Caso o TSE casse a chapa Dilma e Temer, a sra. seria candidata à Presidência?

Acho precipitado você se colocar na fila de eleição antes de devolver a quem pode votar o direito de votar.

ESTADO - Seria melhor se Cunha deixasse a presidência da Câmara antes do impeachment?

É um processo que está em tramitação, que tem de ter o sentido de urgência e a celeridade de que o Conselho de Ética precisa para atuar no caso do presidente Cunha. Ele já deveria ter sido afastado se não fossem as manobras protelatórias que vêm sendo feitas.

ESTADO - Por que a sra. decidiu não ir às manifestações?

Eu não participei exatamente para não ter a ilusão de que as pessoas estão indo para a rua porque eu estava ajudando. As pessoas estão se mobilizando porque querem dizer que o que está aí não as representa. As pessoas estão corretas. Se as lideranças e os partidos políticos deixaram tudo isso acontecer, as pessoas estão corretas em não querer que tirem casquinha do protesto.

ESTADO - Na pesquisa do Datafolha, a sra. foi a mais bem colocada.

Não é momento de ficar pensando em pesquisa. O mais importante não é quem está à frente ou quem está atrás. É quem está apenas com 16% (de pessoas que consideram que o governo Michel Temer seria ‘bom’ ou ‘ótimo’) querendo ser o polo que vai resolver o problema da nação. Isso (impeachment) pode ser feito em 30 dias e não resolver. Neste momento, é importante que a gente esteja focado no que é efetivo; em resolver a crise, e não em instrumentalizar a crise.

ESTADO - A sra. acredita que essa aproximação de PSDB e PMDB esconda, por trás, medo de a sra. sair vitoriosa em nova eleição?

Há setores que estão querendo estabilizar a crise política nos dois polos, tendo um cruzamento em que são convergentes. Dentro do governo, há muitos que estão querendo atrair de novo o PMDB. Dentro do PSDB, outros querendo se unir ao PMDB. Há um ponto convergente nos dois campos que se cruzam. Eles se cruzam e se encontram com a mesma proporção e a mesma intensidade, que é o arrefecimento das investigações. Isso é preocupante.

ESTADO - A sra. concorda com as recentes ações do juiz Sérgio Moro, como a condução coercitiva de Lula e as gravações telefônicas do ex-presidente?

A Justiça tem seus mecanismos próprios de controle. A Lava Jato tem dado grande contribuição.

ESTADO - A sra. aprova a divulgação de intercepções telefônicas da presidente Dilma com Lula?

A Lava Jato não grampeou a presidente. O ex-presidente Lula estava sendo investigado, havia autorização da Justiça para fazê-lo. E a conversa foi apanhada de forma fortuita.

ESTADO - Qual é a opinião da sra. quanto à nomeação de Lula?

Logo que foi feita a nomeação eu entendia como uma espécie de paliativo para a crise, criando ali, num regime presidencialista, a figura do primeiro-ministro. Isso não está previsto na nossa Constituição. Depois de tudo que aconteceu com essa nomeação, passei a ver como um combustível de aprofundamento da crise. É preciso fazer adequadamente a leitura das ruas, que tinham acabado de se manifestar, dizendo que não estão satisfeitas com o que está aí.

ESTADO - A Lava Jato tem potencial de enterrar carreiras?

Se as pessoas são culpadas, se as pessoas cometeram erros e isso fica comprovado, quem enterrou a carreira foi ela. O problema é que nesses anos todos a política foi tomada como sinônimo de ascensão econômica e de ascensão social. Quando isso ocorre, é preciso que um movimento dê um basta nisso, trazendo a Justiça para restabelecer os parâmetros legais, que é o interesse público. O que aconteceu na Itália, em que a Operação Mãos Limpas foi sendo minada, desmoralizada para não cumprir com suas funcionalidades, não pode acontecer no Brasil.

ESTADO - A sra. está satisfeita com as respostas de Lula às investigações do sítio de Atibaia e do tríplex do Guarujá?

Lula ainda está dando explicações, ainda está sendo julgado. As explicações ainda estão no processo. Obviamente até agora não são satisfatórias todas as respostas que vêm sendo dadas. Não só a esse caso, mas a todos os demais.

ESTADO - Num possível governo, a sra. tem medo de ter pouco apoio no Congresso?

Por incrível que pareça, tudo que foi projetado em mim (na campanha de 2014, quando ela foi acusada de não ter capacidade de aglutinar apoios) agora acontece sobre quem projetou. Para ver como a derrota ou a vitória se assemelham na história. Se não tivermos uma atualização da política, quem quer que seja terá dificuldade de governar. Tanto é que aqueles que ganharam com um condomínio de partidos não estão conseguindo governar.

Entrevista com a poeta Daniela Delias

Por: Evan do Carmo, Correio Brasilia - 23/01/2016 13:15

Daniela Delias nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul, em 1971. Segunda de três meninas, filha de pai e mãe Técnicos em Contabilidade. Do pai, herdou o carinho por flores. Da mãe, a necessidade constante de ouvir música. Foi na música e na leitura de Mario Quintana, na adolescência, encontrou o desejo de escrever poesia. Guarda nas lembranças do avô paterno as imagens mais ternas de uma infância vivida à beira da Lagoa dos Patos. Aos treze anos de idade escreveu os primeiros rabiscos de poesia, mas os primeiros registros que foram guardados são de quando tinha 17 anos. Os escritos ficaram guardados por vinte anos. Apenas aos 36 começou a publicar em blog.

Em 2012, publicou seu primeiro livro de poesia, Boneca Russa em Casa de Silêncios, pela Editora Patuá. Em 2015, pela mesma editora, publicou Nunca estivemos em Ítaca, também de poesia. Tem poemas publicados no Livro da Tribo, em revistas literárias e nos blogs de poesia Sombra, silêncio ou espuma , Alice e os dias Céu de Cartão-Postal .

Daniela Delias também é psicóloga, e a partir do doutorado em Psicologia se tornou professora universitária. Trabalha atualmente na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e leciona disciplinas da área de Psicanálise e Psicologia do Desenvolvimento. Mora na Praia do Cassino, em Rio Grande, extremo sul do país.

Percebo que tens uma educação refinada, isto está implícito em tua poesia, nela se encontram alguns signos universais de cultura clássica, pelo menos é o que me parece. Acreditas que esta tua educação superior contribuiu de alguma forma para aprimorar a tua sensibilidade e o desenvolvimento de tua poesia?

Quando penso na minha educação, as referências que primeiro me ocorrem não têm relação direta com a formação acadêmica que tive, embora a considere muito importante nessa trajetória. Eu fui uma criança muito introspectiva, que trocava facilmente a possibilidade de estar em contato com muitas pessoas pela quietude de estar em casa, com a família. E a nossa casa era um lugar de pessoas bastante silenciosas, cercadas de sensibilidades. Havia muita música, muito tilintar de agulhas da mãe fazendo tricô e crochê e da avó costurando roupinhas de boneca, bem mais que livros. Lembro sempre do meu avô mostrando joaninhas e pitangueiras, contando histórias, levando a gente para o banho na lagoa. Do meu pai dizendo que precisávamos estudar, e que a coisa mais importante para ele era que nos gostássemos, eu e minhas irmãs, que nos quiséssemos bem. A maior parte das imagens que estão presentes nas coisas que escrevo remetem a esse mundo, creio. As leituras que vieram depois talvez tenham se somado a essas experiências infantis, incluindo também os momentos difíceis. Tenho a impressão de que na psicologia e nas psicoterapias que vivi como paciente ou como terapeuta pude estar ainda mais perto desse mundo infantil e dos afetos que fui construindo ao longo da minha vida. Trabalhar com a escuta do outro tem me permitido desenvolver constantemente a empatia. Ouvir histórias de vida ao mesmo tempo em que penso sobre a minha talvez tenha contribuído no sentido de poder identificar e escrever sobre coisas que, mesmo subjetivas, de alguma forma dizem respeito a muitos de nós.

Sobre o teu livro Boneca Russa em Casa de Silêncios, de onde tirastes esta inspiração para dar rosto à tua obra? Tem alguma relação simbólica com o significado russo e origem?

A “casa” sobre a qual falei antes parece ser um tema recorrente no meu imaginário. Uma casa que carrego comigo, seja onde for que esteja morando. Leonardo Mathias, que fez o projeto gráfico do Boneca Russa em Casa de Silêncios, apresentou – através do editor Eduardo Lacerda (Editora Patuá) – uma arte para a capa que me encantou desde o primeiro momento: uma mulher sem rosto com uma caixa sobre a cabeça. O desenho não foi feito especialmente para o livro, já estava pronto, mas parece ter se encaixado com perfeição à ideia do livro. Eu havia escrito um poema que tinha entre seus versos: “eu estava aqui dentro, você me ouvia? /boneca russa em casa de silêncios/ antes do verbo, dentro da carne/ meus tambores apontavam a direção”. Quando o escrevi, pensava exatamente na imagem de uma matrioska, carregada de dentros, sobre o quanto ela dizia de mim, minhas casas, meus silêncios. Creio que essa foi a tônica do livro.

Tu és gaúcha, então que importância e responsabilidade tem Mario Quintana em tua poesia?

Apontamentos de História Sobrenatural, publicado por Quintana em 1976, foi o primeiro livro de poesia que li. Imagine: “O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos/ E foi morrer na gare de Astapovo! / Com certeza sentou-se a um velho banco, / Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso/ Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,/ Contra uma parede nua…/ Sentou-se…. e sorriu amargamente”. Eu era uma guriazinha e não tinha a menor ideia sobre quem era Leon Tolstoi, mas as imagens bastaram para, com um único poema, criar um cenário interno riquíssimo. Assim aconteceu com os demais poemas que lia. Hoje, quando leio meus primeiros escritos, vejo que tentava imitá-lo de alguma maneira. Certa vez, ele escreveu: “Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez? ”. É com o mesmo espanto de menina que ainda o leio e identifico nas coisas que escrevo o desejo de dizer da estranha dimensão das coisas pequenas, como os sons de um relógio ou o mundo-dentro de um porta-retratos. Depois dele vieram outros poetas que admiro muito, e com os quais me identifico até mais. Mas é muito bom tê-lo ainda como companhia.

Uma pergunta para a psicóloga: Freud é ou não é uma fraude como médico da alma?

Meu primeiro contato com a obra de Freud foi no primeiro período da graduação em Psicologia, há vinte cinco anos. Para mim é uma experiência bem diversa pensar no que compreendia de sua leitura quando tinha cerca de vinte anos de idade e agora. Eu penso que a invenção da psicanálise foi um evento genial. Falar sobre a relação infância-sexualidade quando não se era permitido dizer muitas coisas a respeito foi algo corajoso. Da mesma forma, dizer que não somos senhores de nossa própria morada, por conta da centralidade da ideia de inconsciente, também. Alguns textos que trazem discussões sobre o desamparo humano e a religiosidade são, para mim, formidáveis. O que tenho dito em sala de aula, quando o discutimos, é que seu texto precisa ser pensado dentro de um contexto histórico-cultural, como todas as coisas. Mas não raras vezes suas ideias são reproduzidas a partir de leituras superficiais ou descontextualizadas, daí dizer que se trata de uma fraude frente à possibilidade de se pensar a existência e o sofrimento humano através de caminhos que não considerem a importância da palavra da maneira como ele o fez. Penso que se Freud estivesse vivo e produzindo estaria (ainda) preocupado com questões como o narcisismo e com nossos adoecimentos a partir das urgências de felicidade que se colocam atualmente. Penso que talvez pudesse fazer leituras mais contundentes sobre a feminilidade, por exemplo, e sobre as relações sociais, como têm feito importantes psicanalistas de nosso tempo. Muitas psicanálises vieram a partir da leitura de Freud, muitas escolas de pensamento com diferentes orientações. De todo modo, não há perspectivas teóricas em psicologia que me encantem mais que aquelas que surgiram a partir das teorias psicanalíticas e do existencialismo. Talvez por essas aproximações com a filosofia, a antropologia e a literatura, e por dizer bastante à minha experiência pessoal.

Sobre o teu processo criativo: Em que momento da alma é que a tua poesia vem à tona, e se materializa em signos, em letras?

Não há um momento ou estado de espírito que eu possa definir como “aquele” em que geralmente escrevo. O que posso dizer é que meu processo criativo é exaustivo, e que envolve uma mistura de inquietação, leituras de outros autores, música, silêncio, chá e melancolia. E que ele só é possível quando estou em casa. Nunca consegui escrever um poema em um guardanapo (risos). Às vezes fico semanas sem escrever, meses. E nenhum poema ocorre rapidamente, como uma psicografia em que eu fechasse os olhos e ele acontecesse todo de uma vez. Geralmente começa por uma imagem mental, como uma fotografia. Quando falo em “imagem”, nesse caso, me refiro também a um afeto, ideia ou palavra. Essa representação vai aos poucos se ligando a outra até formar um verso. Há também uma relação com a sonoridade, uma busca de um jeito de dizer que pudesse fazer com que as palavras dançassem, minimamente. Então, é um pouco isso: uma fotografia, uma dança. Demoro a encontrar o foco, demoro a acertar o passo. Mas enquanto não acontecer, a tal ideia não me abandona. Daí a exaustão.
O poeta é um fingidor, ou é apenas um tolo sonhador, que acredita naquilo que ninguém crê?
Penso que ele talvez seja, muitas vezes, uma criatura empática, que consegue se colocar em lugares que não necessariamente esteve, mas pode dizê-los de alguma forma. Certa vez, escrevi um poema a um amigo com quem tenho longas conversas sobre empatia. O texto foi escrito a partir do impacto da leitura sobre a morte de quatro meninos em uma praia na Faixa de Gaza, bombardeados por um navio enquanto jogavam futebol. Um dos versos deu o nome ao meu segundo livro, “Nunca estivemos em Ítaca”. É isso: nunca estivemos em muitos lugares e, ao mesmo tempo, estamos irremediavelmente mergulhados neles por uma conexão com os nossos diferentes afetos. Não é necessariamente fingimento ou sonho. É algo de desejo e inquietação.

Tua vida mudou depois que publicastes teu primeiro livro?

Minha vida muda todos os dias porque as coisas se movimentam o tempo todo. Nesse sentido, muitas coisas mudaram de 2012 para cá. Mas não penso que tenha uma relação maior com a publicação. Algo bom sobre isso é que de lá para cá conheci muitos escritores, músicos, leitores, pessoas sensíveis que têm o mesmo carinho pela arte, e isso só me trouxe coisas boas. Internamente, sim, reconheço muitas mudanças. Tenho sido mais cuidadosa com a palavra, tenho prestado mais atenção às pessoas e coisas. Tenho tentado ouvir mais, inclusive a mim.

Tu publicas por conta própria, ou em parceria com a editora?

Eu tenho 3 blogs que servem como uma caixinha de guardados para os meus poemas, e em dois deles publico regularmente. Com a Editora Patuá tive a parceria dos dois livros, Boneca Russa em Casa de Silêncios (2012) e Nunca estivemos em Ítaca (2015). Tive algumas publicações em revistas eletrônicas, como Mallarmargens, Germina e Diversos Afins, e contribuo com poemas em alguns sites, como o Escritoras Suicidas e o Zonadapalavra. Além desses projetos, há também o Livro da Tribo, a agenda anual na qual tenho publicado desde 2012.

Como foi a recepção do teu livro no meio acadêmico? Teus alunos leem tua poesia, e compram teus livros?

Meus colegas e alunos são muito queridos e generosos. Alguns têm mais afinidade que outros com a leitura e escrita de poesia, e são os que se mostram mais interessados em acompanhar as publicações online, e também na compra dos livros. Muitos escrevem lindamente, e temos trocas muito interessantes. Minhas aulas sobre infância e psicanálise, de alguns anos para cá, têm se caracterizado cada vez mais pela intersecção com arte e literatura. Os alunos são grandes parceiros.

Sobre a cultura do brasileiro, no que tange à poesia: Como vês a divulgação de literatura nas redes sociais? É possível atingir esta geração de facebook?

Seguidamente me vejo pensando sobre isso. Com frequência as visitas ao Facebook me desencadeiam ansiedade, creio que pela velocidade com que as informações aparecem, seguidas de comentários que, na maior parte das vezes, são escritos sem um tempo necessário de reflexão. É tudo muito urgente. E muito passageiro. A velocidade com que as coisas aparentemente importantes se tornam desimportantes é assustadora. Mas há outro lado: alguns encontros se tornam possíveis. Bons encontros, como, por exemplo, os que ocorrem entre leitores/escritores de poesia. Eu sou uma leitora virtual incansável. Leio muitos poemas publicados no Facebook, e termino a leitura de muitos deles agradecendo mentalmente a existência dessa ferramenta. Há alguns autores que, por conta das belezas que produzem, me fizeram ter certo ritual diário: acordar, preparar a xícara de café e buscar o que escreveram. Essas pessoas que leio com tanto prazer estão presentes em meu segundo livro, de várias formas: porque os leio e porque me inquietam, escrevo. Somos esta geração de Facebook, mesmo que tenhamos jogado bolinha de gude na frente de casa anos atrás. Estamos muito atrelados às redes sociais. Desejo que muitos usuários possam sentir-se atingidos pela escrita como eu me sinto, seja ela em livro ou nestas plataformas.

Poemas de Daniela Delias

AGULHAS

nos dedos de minha mãe
é que as horas desdobravam
os silêncios mais sentidos

não que eu quisesse cantar
porque nos dedos de minha mãe
eu também ia e vinha

basta agora uma canção amarrotada
ou um suave e metálico tilintar de agulhas
e eu alimento os relógios antigos

 

OLARIA

eu falava sobre o amor
rumor de assombro e leveza
palavra plena palavra ausência
o barro antes das mãos

foi quando vi meu avô oleiro
a água compondo a massa
o fogo contendo a água
as casas tomando forma

eu falava sobre você e o amor
e os olhos de meu avô alfarero
o barro forjado dentro
o tempo antes das mãos

 

PARTES

toma a palavra exército
põe devagar entre os dedos
dobra em pequenas partes

há uma guerra, eu sei
frotas falanges incêndios
(a horda insiste, devastada)

não somos o inferno, meu bem
só essa caixa de guardados

Os livros podem ser adquiridos pelo site da Editora Patuá ou diretamente com a autora pelo email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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