Levantado o tamanho da tragédia – ao menos 232 mortos, superior ao número de vítimas dos acidentes da TAM, em 2007, e do Edifício Joelma, em 1974 – é bem provável que um pente-fino das autoridades na Boate Kiss, em Santa Maria, descubra em poucos minutos todos os pontos que levaram ao incêndio. Despreparo dos profissionais? Fogos em local proibido? Ânsia para sair da claustrofobia? Falta de ventilação? Alvará de funcionamento vencido? ...


A fatalidade logo ganhará outras nomenclaturas: erro humano, ausência de prevenção, negligência. Fatalmente os responsáveis serão investigados, eventualmente condenados, provavelmente cumprirão penas. Mas o estrago para as famílias jamais será reparado – o que é forçoso dizer, por óbvio que seja.

Mas, num país onde tudo é legalizado fora da legalidade, é possível supor que esta não será a última tragédia anunciada.

No mundo ideal, no dia seguinte pela manhã todos os jornais das pequenas e médias cidades, os únicos com capilaridade suficiente para fiscalizar as esquinas mais distantes do País, mandariam para as ruas os seus repórteres para contar quantas casas noturnas locais têm condições de reunir multidões com um mínimo de segurança.

Junto com órgãos competentes, levantariam alvarás, números de portas corta-fogo, saídas de emergência, tetos com materiais inflamáveis, fios desencapados e normas internas sobre pirotecnias.

Os levantamentos, em forma de reportagem, serviriam como vacina e alerta sobre tragédias como as de Santa Maria. E as pessoas, aos poucos, se negariam a pagar fortunas para serem tratadas como gado – em boates, restaurantes, rodeios e outros espaços culturas de aglomeração humana onde pequenas tragédias diárias se repetem todos os dias. Seria bem mais útil do que espetar microfone no rosto de familiares e perguntar: “como se sente?”

Mas isso simplesmente não vai acontecer. Casas de shows (como todo negócio) são potenciais anunciantes. E o silêncio é um valor embutido na bem-sucedida parceria entre empresários em busca de lucro, autoridades inoperantes e a imprensa oficialesca Brasil afora.

Por Matheus Pichonelli

Não há psiquiatras no Planalto para cortar esse delírio?

Em junho de 2010, Originais já estocadas para a Copa, passei mal. Era a diabetes-2, a “boazinha” (apreciada marca de cachaça). Com o tempo, fui vendo que a filha da... da falha pancreática era uma porção de coisas, menos boazinha. Tive crises de hipoglicemia, um troço horroroso, Lila e Paulinho da Viola me salvaram de uma delas, meus antebraços descascavam com a glicose normal, como se eu estivesse trocando de pele, mordidas de mosquito transformavam-se em perebas assustadoras... Não vou listar o conjunto de aberrações com que a diabetes-2 me presenteou, mas fiquei impressionado com uma: depois de um ano com essa porcaria, chegaram, como os Hells Angels em cidade do interior, os pesadelos diabéticos. ...

Vou tentar descrevê-los, mas não acredito que possa transmitir o medo que me causam. Por exemplo, estou lendo o jornal na varanda e começo a arfar. Leio uma notícia absurda: o aumento do IPTU pode chegar a um reajuste de 14.000%! Bom, viro a página. Supermercados, entre 01 e 15 de janeiro, também “reajustaram” os preços. Para ser preciso, seis vezes em quinze dias! Começa a sudorese, com sensação de engasgo. Melhor forçar a leitura do que se entregar à sintomatologia. Continuemos: aquela sábia macróbia (desculpe, Tia Zulmira) que ocupa, num toma lá – dá cá vergonhoso, o MinC, vangloria-se de um tal vale-cultura no valor de 50 reais por mês. Os trabalhadores poderão comprar revistas de quinta categoria, DVDs, CDs, livros, além da sistemática ida a teatros, cinemas, shows, óperas, concertos e... peraí. Tudo isso com 50 reais? Não há psiquiatras no Planalto para cortar esse delírio com medicação apropriada?

O telefone não para. Amigos se queixam das absurdas contas de IPVA. Um outro me liga: voltou à presidência do bloco aqui da rua um cc (calhorda e caloteiro). Ele se gaba de ser rubro-negro. Acredito. Deixa a rua rubra de vergonha e tem a consciência negra.

Espio a telinha com o canto do olho. Lars Grael, orgulho nacional, espinafra a Marina da Glória, privatizada. A câmera mostra as águas fervilhando de fezes. Lars afirmou, com sua indiscutível autoridade, que vamos passar uma grande vergonha nas Olimpíadas de 2016.

Enquanto isso, a Furacão do Planalto, que jurou não ser periguete, e que só posou nua para pagar despesas advocatícias, foi eleita Rainha dos Gays. Compareceu na festança sem calcinha e levou um grupo de apoio: três assessores, um secretário particular, advogados, seguranças, maquiadores, cabeleireiros, um economista do BNDES, um ginecologista e três levantadores de silicone (um deles, ex-medalhista olímpico no vôlei), além dos pastores alemães gêmeos, Gunther e Fritz, da aristocrática família Von Syffeharen.

Chegam do cinema os netos. Grito para me sacudirem. Milena, que passou brilhantemente para medicina, me adverte:

— Vô, não tem pesadelo, não. Você está acordado.
Valha-me, como diria meu pai asmático, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!

Aldir Blanc é compositor

Fonte: Jornal O Globo - Opinião - 27/01/2013